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  • Foto do escritorRodolfo Brenner

#67 - Daniel Conahan Jr, o Assassino de Hog Trail | SERIAL KILLER

Entre 1991 e 1996, um serial killer estava atacando homens em situação de vulnerabilidade na costa oeste da Flórida: Daniel Conahan levava suas vítimas para dentro da mata, amarrava, torturava, estrangulava e removia seus órgãos genitais. Por se tratarem de pessoas em situação de rua ou muito pobres, muitas não eram consideradas nem ao menos desaparecidas, o que só dificultou o reconhecimento do caso.


Essa é a versão escrita do episódio #67 - Daniel Conahan Jr, o Assassino de Hog Trail:



Daniel Owen Conahan Jr. nasceu em 11/05/1954 em Charlotte, Carolina do Norte, mas logo sua família se mudou para Punta Gorda, no sudoeste da Flórida. Não existem muitas informações sobre a infância de Daniel, apenas que ele cresceu em uma família de classe média. Ele entrou na adolescência durante os anos 70, uma época em que aconteciam várias revoluções sociais nos Estados Unidos, e nessa época ele descobriu que era gay e falava abertamente sobre isso.

Quem não gostava dessa atitude eram seus pais, que chegaram a levar ele para diversos psiquiatras na tentativa de “reverter esse quadro”. Mais tarde, Daniel disse que as brigas que ele tinha com os pais por causa da sua sexualidade deixavam ele profundamente irritado, e que ele era constantemente maltratado, embora nunca tenha deixado claro se esses maus-tratos eram físicos ou psicológicos.


Daniel Conahan Jr. nas fotos do anuário da Miami Norland High School


Daniel passou bastante despercebido durante toda a vida escolar, se formando na Miami Norland High School em 1973. Em 1977, ele ingressou na Marinha dos Estados Unidos e foi mandado para a Estação Naval de Great Lakes em Chicago, mas foi dispensado um ano depois por comportamentos sexuais inadequados dentro das instalações. Após sua dispensa, Daniel permaneceu em Chicago por treze anos antes de voltar para Punta Gorda, onde ele voltou para a casa dos pais em 1993.

Em 1995, ele fez um curso de enfermeiro na Charlotte Vocational Technical Center, ficando em primeiro lugar na turma. Após a formação, ele conseguiu um emprego na Charlotte Regional Medical Center. No seu tempo livre, Daniel frequentava bares gays pela região e saía com garotos de programa, principalmente os que ficavam pedindo carona na U.S. 41, e foi justamente nessa estrada que ele começou a fazer suas vítimas.


Punta Gorda, Flórida


A primeira vítima foi encontrada no dia 01/02/1994, quando dois caçadores de javali entraram em um pedaço de mata na Biscayne Boulevard para verificar algumas armadilhas que eles tinham montado, mas se depararam com um corpo. A necropsia mostrou que ele estava morto a cerca de um mês, a causa da morte teria sido por perfuração de arma branca, ele tinha marcas de queimadura de corda na região pélvica e sua genitália havia sido removida.

A segunda vítima foi descoberta no dia 01/01/1996, quando o cachorro de uma família de North Port, que fica a 30 minutos de carro de Punta Gorda, trouxe para casa uma surpresa nada agradável: um crânio humano. Os donos do cachorro disseram que, durante meses, ele trouxe diversos ossos, mas que não deram atenção porque acharam que se tratava de ossos de animais.- Foram realizadas buscas pela região e encontraram o restante do esqueleto. Do pouco que o legista conseguiu analisar, ele descobriu que os ossos tinham marcas de facada, principalmente na região genital. Esse corpo não foi identificado, e ficou conhecido como Sarasota County John Doe.

A terceira vítima foi descoberta em 7 de março de 1996, quando um homem que viajava pela U.S. 75 perto de North Port parou para fazer xixi e se deparou com o corpo de um homem, nu, posicionado em forma de cruz perto da mata. A necropsia mostrou que ele tinha sido morto 10 dias antes, tinha marcas de corda pelo corpo e seus órgãos genitais foram mutilados. Além disso, no local onde o corpo estava, foram encontrados resquícios de uma corda em uma árvore, e as marcas no caule batiam com as marcas do corpo. Essa vítima só foi identificada 3 anos depois como sendo William John Melaragno, de 35 anos.


William John Melaragno


A quarta vítima foi descoberta em 1996, quando um crânio foi encontrado no Condado de Charlotte. A polícia vasculhou a floresta ao redor e encontrou não um, mas dois corpos: o corpo com o crânio faltando foi identificado como Kenneth Lee Smith, de 25 anos. A irmã identificou Kenneth após ver uma foto de uma tatuagem que batia com uma que ele tinha no ombro e a confirmação veio através da arcada dentária. Segundo a família, Kenneth levava uma vida de andarilho assim como a primeira vítima.

A quinta vítima tinha sido morta apenas um dia antes, e seu corpo estava enrolado em um tapete. Através das impressões digitais ele foi identificado como Richard Montgomery, de 21 anos. A necropsia mostrou várias marcas de corda, inclusive ao redor do pescoço, além de mutilação genital e um possível estupro.- Após a descoberta dos dois últimos corpos, a polícia chamou um especialista em perfis de serial killers que confirmou a possibilidade de todas as vítimas terem sido mortas pelo mesmo assassino. A mídia apelidou o caso como sendo “The Hog Trail Killings”, por causa da localização onde eles foram encontrados.


Kenneth Smith e Richard Montgomery


Polícias de diferentes condados se juntaram em uma força-tarefa para investigar o caso. Um dos primeiros direcionamentos veio de um detento da Prisão Estadual da Flórida, um homem chamado Donald Perry: segundo ele, um homem teria se aproximado dele em um parque e oferecido $150 para que ele posasse nu, em fotos que envolveriam bondage. Esse homem seria calmo e gentil, e teria dito que seu nome era Dan.

Donald decidiu aceitar o trabalho porque precisava do dinheiro, entretanto, o carro onde eles estavam ficou atolado. Enquanto Dan e algumas pessoas tiravam o carro da lama, Donald, que estava dentro do carro, viu uma bolsa no banco traseiro e decidiu abrir. Lá ele encontrou cordas, luvas e uma faca. Ele ficou com medo e aproveitou que Dan estava fora do carro para fugir com o veículo, mas foi preso algumas horas depois pelo roubo do carro. Ao checar quem tinha feito a queixa de roubo, a polícia chegou pela primeira vez no nome de Daniel Conahan.

Na época, Daniel tinha 43 anos e morava com seus pais. Alguns policiais passaram a vigiá-lo e viram ele conversando e dando carona para alguns homens, sempre do mesmo perfil: brancos, cabelo castanho, na casa dos 20 aos 30 anos e que estavam em situação de rua ou precisando de dinheiro. Depois de um mês, a polícia colocou um oficial disfarçado, que conversou com Daniel diversas vezes até ganhar a confiança dele. Eventualmente ele ofereceu dinheiro para tirar fotos do policial na floresta: equipado com uma escuta, a ideia era de que o policial conseguisse tirar informações de Daniel, mas ele não contou nada e foi embora.

A polícia então tentou se concentrar em informações vindas da família de Kenneth Smith e Richard Montgomery. A família Smith não conseguiu ajudar, mas a família Montgomery forneceu duas pistas circunstanciais importantes: Mary, mãe de Richard, disse à polícia que ele comentou sobre ter feito um novo amigo chamado “Dan Conahan”. Ele também contou que alguém tinha oferecido dinheiro para ele posar nu, mas não deu mais detalhes.


Daniel Conahan Jr.


Tudo o que a polícia tinha até o momento eram coisas circunstanciais, e ficava difícil até mesmo para conseguir um mandado para a casa da família Conahan porque eles não sabiam exatamente o que procurar lá. Dois meses depois, a polícia de Fort Myers, que fica a pouco mais de meia hora de Punta Gorda, encontrou nos registros um caso de ataque parecido com o modus operandi de Daniel Conahan e que tinha sobrevivido: um homem chamado Stanley Burden, e ele estava cumprindo pena em Ohio.

Ao ser entrevistado, ele contou que tinha conhecido um homem chamado Dan que tinha oferecido dinheiro para tirar fotos dele amarrado em uma floresta perto de Fort Myers. Chegando lá, Dan pediu para que Stanley tirasse a roupa, prendeu ele em uma árvore e realmente tirou algumas fotos. Após isso, ele amarrou uma corda no pescoço dele e foi embora. Stanley conseguiu se soltar e informou o caso para a polícia, que não fez nada na época. Ele conseguiu descrever o modelo de carro e também reconheceu uma foto de Daniel como sendo o seu agressor.

Com esse depoimento, a polícia prendeu Daniel Conahan e conseguiu um mandato para procurar na casa que ele dividia com seus pais. A perícia encontrou fibras de tapete no quarto e no carro de Daniel, e elas eram as mesmas do tapete onde foi encontrado o corpo de Richard Montgomery. Eles também coletaram uma lasca de tinta do carro do pai do Daniel e compararam com uma que foi encontrada na cena do crime. A lasca encontrada na cena do crime tinha 4 camadas de tinta, assim como a lasca do carro, que tinha sido pintado 4 vezes. Também foi analisado o registro do cartão de crédito de Daniel no qual foram encontradas diversas compras de cordas, facas e lonas, uma delas foi no dia que Richard desapareceu.


Marcas de corda em Stanley Burden


Em 1999, Daniel foi julgado pelo assassinato de Richard Montgomery, onde ele se declarou inocente. Anteriormente ele também seria julgado pela tentativa de homicídio de Stanley Burden, mas o estado removeu a acusação e ele foi realocado como testemunha de acusação, além dos dois policiais disfarçados que foram abordados por Daniel.

Quanto ao último dia de vida de Richard, ele tinha sido visto visitando um parque de trailers em uma reserva na Rodovia 41. Um homem chamado Gary Mastin contou que tinha visto Richard naquele dia visitando o trailer de um amigo, Robert Whittaker, e falado sobre ganhar $300 de um trabalho. Gary também disse que já tinha visto Daniel visitando esse mesmo trailer várias vezes para comprar maconha. Daniel negou todas as acusações, disse que eventualmente pagava por sexo com alguns garotos de programa e que realmente tinha comprado algumas facas, mas que as coisas não estavam ligadas. Ele também disse que não se lembrava do que estava fazendo no dia e hora aproximadas da morte de Richard.

A defesa alegou que outras pessoas haviam atacado Stanley Burden e Richard Montgomery e que as vítimas fatais tinham morrido por asfixia autoerótica. O advogado também alegaram que o julgamento deveria ser movido de lugar porque o júri poderia ser muito conservador com um "homem gay fascinado por bondage". Em 10 de dezembro de 1999, Daniel Conahan foi condenado a pena de morte pelo homicidio em primeiro grau de Richard Montgomery. Ao proferir sua sentença, William Blackwell, o juiz responsável, disse: “Que Deus tenha misericórdia de sua alma”. Ao receber sua pena, Daniel apenas abaixou a cabeça e chorou.


Daniel em sua cela: ele espera no corredor da morte da Flórida até hoje


Em março de 2007, a polícia de Fort Myers foi chamada depois que uma construtora encontrou um crânio em um terreno onde seria construído um complexo de apartamentos. Ao procurarem por vestígios de roupas e outras coisas ao redor de onde ele foi encontrado, eles se depararam com mais dois esqueletos. Rapidamente a polícia chamou Heather Walsh-Haney, uma antropóloga forense da Florida Gulf Coast University. Em entrevista sobre o processo de decomposição dos corpos, ela disse que, por causa do tempo tropical úmido da Flórida e do terreno pantanoso, era possível que um corpo virasse um esqueleto em apenas algumas semanas.

Enquanto a especialista ainda estava analisando os primeiros esqueletos, as escavações no local continuaram e mais 5 esqueletos foram encontrados, totalizando 8 ossadas em um raio de 180 metros. A polícia já trabalhava com a hipótese do local ser o depósito de corpos de um serial killer e começou a traçar um perfil com a ajuda do FBI. O próprio John Douglas, que ficou muito famoso pelas técnicas de perfil e que teve a vida mostrada na série Mindhunter, foi perguntado sobre o caso e confirmou que aquele era o local perfeito para depositar corpos: tinha o efeito do calor, dos animais necrófilos, dos insetos e do tempo, fazendo os cadáveres sumirem em pouco tempo.


Equipe forense peneirando o local onde os 8 de Fort Myers foram encontrados


Depois de alguns meses de investigação, foi realizada uma coletiva de imprensa sobre as descobertas da Drª Heather: segundo ela, todos os esqueletos eram de homens, 7 eram caucasianos e 1 era provavelmente hispânico, com idades variando entre 18 e 49 anos. Alguns deles tinham tratamentos dentários, o que indicava que eles tiveram acesso à saúde em algum momento da vida. Entretanto, outras marcas sugeriam que eles passavam por situações difíceis ou eram moradores de rua. Não foram encontrados ossos quebrados na região da coluna e do pescoço, nem lesões de traumatismo na cabeça, marcas de tiro ou de perfuração, mas sem tecidos moles era impossível determinar a verdadeira causa da morte.

A polícia sabia que ia ser um caso difícil: se esses homens realmente eram moradores de rua, era provável que eles não tinham sido dados como desaparecidos em nenhum momento. Além disso, não é fácil retirar DNA de ossos, e quanto mais tempo se passa, mais difícil fica. Os ossos foram então enviados para um laboratório especializado no Texas, enquanto a perita Sharon Long, especialista em reconstruir faces baseadas nas marcas dos crânios, trabalhava na reconstituição. Com os desenhos prontos, foram liberadas as possíveis faces dos 8 homens, que foram chamados de “Fort Myers 8”, ou “8 de Fort Myers”.

A polícia recebeu centenas de ligações de todo o estado, e foi possível identificar duas ossadas: Eric Kohler e John Blevins. Eric tinha 21 anos e John, 38, ambos desapareceram em 1995 de Port Charlotte e Fort Myers, respectivamente. Em comum, os dois tinham fichas criminais e levavam uma vida mais nômade, pulando de casa em casa e às vezes morando na rua. Alguns meses depois, uma terceira ossada foi identificada: Jonathan Tihay, 25 anos, que também tinha desaparecido em 1995 em Fort Myers. Como o perfil das vítimas era o mesmo, os 8 de Fort Myers foram classificados como possíveis vítimas de Daniel Conahan. Assim como as outras vítimas, ele negou qualquer envolvimento.


Reconstrução facial e retrato de identificação dos 8 de Fort Myers


Em 22 de maio de 1997, um pedreiro que estava limpando um terreno em Port Charlotte encontrou um esqueleto e chamou as autoridades. O legista não conseguiu determinar a causa da morte, apenas que ele estava morto há bastante tempo. Dez meses depois, em março de 1998, ele foi identificado como William Charles Patten, de 24 anos, que havia desaparecido desde 1993. Daniel já estava em custódia quando o corpo de William foi encontrado. Nos anos seguintes, foram encontrados restos de esqueletos em North Port, Charlotte Harbor e dois em Boca Grande, sudoeste da Flórida. Todos permanecem sem identificação e acredita-se que sejam vítimas de Daniel Conahan.

Em 2018, diversos itens de Daniel como chaves, relógios, cartas e até seu carro foram listados em um site que vendia itens pertencentes a serial killers e outros criminosos famosos nos Estados Unidos. O site chamado murderauction.com causou muita polêmica quando foi lançado.

Em 2021, o Gabinete do Xerife do Condado de Charlotte anunciou que realizou novos testes de DNA que confirmaram que o primeiro corpo encontrado na Biscayne Boulevard era de Gerald Lombard, que na época tinha 27 anos. Jerry, como era conhecido, desapareceu em 1991. Segundo a sua família, ele constantemente fugia de casa, não dava notícias e dormia nas ruas, por isso não foi dado como desaparecido.

Em setembro de 2022, detetives anunciaram que identificaram mais uma vítima entre entre os 8 de Fort Myers, Robert Ronald Soden. Bobbie, como era conhecido, desapareceu em 1996, quando tinha 30 anos. Não se sabe muito sobre a vida de Bobbie, apenas que seus parentes moram em New Jersey e em Washington. Daniel Conahan Jr. ainda está no corredor da morte, atualmente na Union Correctional Institution em Raiford, na Flórida.


Gerald Lombard e Robert Soden


• FONTES: The New Detectives, NBC2 News. Murderpedia.org, Trace Evidence, Crime Library.

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