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  • Foto do escritorRodolfo Brenner

#50 - Charles Cullen, o Enfermeiro da Noite | SERIAL KILLER

Durante o juramento dos formandos em Enfermagem, uma das coisas que os profissionais prometem é que irão dedicar a vida a serviço da humanidade, respeitando a dignidade e os direitos da pessoa humana, exercendo a enfermagem com consciência e fidelidade. Entretanto, não era dessa forma que o enfermeiro Charles Cullen trabalhava, e seus atos podem ter feito dele um dos serial killers mais prolíficos da histórica.


Essa é a versão escrita do episódio #50 - Charles Cullen, o Enfermeiro da Noite | SERIAL KILLER:



Charles Edmund Cullen nasceu em 22 fevereiro de 1960 em West Orange, Nova Jersey. Ele era o filho mais novo do casal Edmond, um motorista de ônibus e Florence, uma dona de casa. Além de Charles, o casal tinha mais 7 filhos. Os Cullen eram muito católicos, e a criação dos filhos foi sempre pautada na religião. Toda a infância de Charles foi marcada por momentos difíceis, tanto que, posteriormente, ele descreveu esse período da sua vida como “miserável”: seu pai faleceu quando ele tinha apenas 7 meses; ele sofreu bullying durante todo o período escolar; relatou agressões vindas de seus irmãos mais velhos e até dos namorados das suas irmãs; e ele até tentou suicídio com apenas 9 anos, bebendo produtos químicos de um kit de química, mas ele sobreviveu.

Quando Charles estava no último ano do ensino médio, a sua mãe sofreu um acidente de carro e faleceu no hospital. A família só foi avisada de que a Florence tinha morrido depois que ela já tinha sido cremada pelo hospital, e as cinzas nem ao menos foram dadas para a família. Isso impactou muito em Charles, que não conseguiu se despedir da sua mãe. Naquele ano, ele abandonou a escola e se alistou na Marinha dos Estados Unidos, onde serviu a bordo de um submarino. Ele conseguiu subir para o posto de suboficial de segunda classe e fazia parte da equipe que operava os mísseis da embarcação. Apesar de seu profissionalismo, Charles tinha vários problemas com seus colegas de tripulação.

Um ano depois, ele foi transferido do submarino para um navio de abastecimento. Lá ele tentou suicídio e acabou sendo internado na ala psiquiátrica, algo que passou a ser rotineiro até ele receber alta em 1984.


Charles enquanto servia à Marinha


Após esse período conturbado, ele se matriculou na escola de enfermagem do Mountainside Hospital em Montclair, tendo se formado em 1986 como presidente de sua turma, e logo conseguiu um emprego na ala de queimados do Saint Barnabas Medical Center, em Livingston. Paralelo a isso, Charles conheceu uma mulher chamada Adrianne Baum. Eles logo se casaram em 1987 e tiveram duas filhas.

Quem convivia com Charles no ambiente de trabalho sempre frisava que ele era um ótimo enfermeiro, querido pelos pacientes e muito competente. Entretanto, em casa, as coisas não eram assim tão boas: Adrianne contou posteriormente que o marido parecia cada vez mais perturbado.

O casamento dos dois durou até 1993, quando ela entrou com uma ordem de restrição alegando que ele poderia colocar a vida dela ou das filhas em risco. Dentre as alegações, estavam: maus tratos contra os cães da família, colocar fluido de isqueiro nas bebidas de outras pessoas, queimar livros da filha mais velha e ter deixado as crianças com uma babá por uma semana enquanto ela estava viajando. Ele negou todas as afirmações.


Saint Barnabas Medical Center


O primeiro assassinato de Charles Cullen foi em junho de 1988. Um renomado juiz chamado John Yengo Senior estava internado no St. Barnabas Medical Center por causa de uma reação alérgica a um medicamento. Na cabeça de Charles, aquele senhor estava sofrendo muito, e ele tinha como aliviar a sua dor. Então ele administrou uma overdose letal de medicação por via intravenosa, e o juiz faleceu. Como o estado dele era grave, ninguém desconfiou que a morte poderia ser um assassinato. No total, ele alegou ter matado 11 pessoas no St. Barnabas, embora somente o caso de John Yengo foi confirmado. Ele ficou lá até janeiro de 1992, quando decidiu sair por conta própria.

Os métodos mais usados por Charles eram a overdose de medicamentos e a overdose de insulina: ele injetava as substâncias nas bolsas de medicação ou diretamente no paciente. A insulina é um hormônio responsável pela redução da glicemia, e que promove a entrada de glicose nas células. A insulina é naturalmente produzida pelo nosso pâncreas, porém, em indivíduos com diabetes, esse hormônio não é produzido ou não de forma suficiente para o corpo, resultando em um quadro de hiperglicemia, quando tem muita glicose no sangue. Quando o paciente está nesse estado, ele recebe uma injeção de insulina, fazendo com que o nível de glicose caia.

Entretanto, se um paciente saudável receber níveis altos de insulina, ele entra em hipoglicemia, quanto está faltando glicose para o corpo trabalhar. Ele pode apresentar sintomas como tremedeira, calafrios, confusão mental, taquicardia, dor de cabeça e convulsões, podendo entrar em coma e morrer dependendo da quantidade de insulina que foi aplicada. Para piorar, é muito difícil identificar esse tipo de morte, porque a insulina age muito rápido, e exames posteriores não são capazes de mostrar que ela estava em um nível acima ou que a glicose no sangue estava baixa.

A injeção de insulina é usada pelos pacientes com diabetes


Charles conseguiu um emprego no Warren Hospital em Phillipsburg, Nova Jersey, em fevereiro de 1992. Lá ele fez mais três vítimas: Lucy Mugavero, Mary Natoli e Helen Dean, todas senhoras idosas que morreram por uma overdose de digoxina, um medicamento usado para insuficiência cardíaca e que em doses altas causa arritmia grave. Antes de morrer, Helen estava se recuperando bem de uma cirurgia, e seu filho Larry estava sempre ao seu lado.

Certo dia, Charles pediu para que ele saísse do quarto, e ele acatou. De repente, Helen gritou de dor e seu filho voltou, enquanto Charles saiu correndo. Quando Larry perguntou o que tinha acontecido, ela disse que o enfermeiro havia lhe dado uma injeção. Naquele mesmo dia, ela foi transferida para outro hospital, mas acabou falecendo. Larry ficou chocado com a situação que foi até o Ministério Público relatar que sua mãe tinha sido assassinada através da injeção daquele enfermeiro. A denuncia não foi pra frente porque não testaram o sangue de Helen para digoxina, e sem resultados anormais não havia porque continuar investigando.


Helen e Larry Dean


Nessa época, Charles passou a dividir a custódia de suas filhas com a ex-esposa, e por isso precisou mudar para outro apartamento. Posteriormente ele disse que queria largar a profissão e parar de matar, mas ele não podia porque precisava continuar trabalhando para pagar a pensão das filhas.

Em março de 1993, Charles começou a stalkear uma colega de trabalho: além de telefonar e mandar cartas e bilhetes para ela com frequência, ele seguia a mulher quando ela saía do trabalho e ficava espiando pelas janelas da casa dela. Uma noite, ele conseguiu invadir a residência onde ela morava com o filho. Não fica explícito se ele tinha a intenção de fazer algo com ela, ou mesmo se ele roubou alguma coisa, mas o que é contado é que ele entrou e saiu sem que eles acordassem. Após saber da invasão, a enfermeira prestou queixa e Charles se declarou culpado, tendo sido sentenciado a pena de um ano em liberdade condicional. Um dia depois, Charles tentou suicídio e ficou dois meses afastado do trabalho com o diagnóstico de depressão. Ele tentou suicídio mais duas vezes naquele ano, e chegou a ficar internado em dois hospitais psiquiátricos diferentes.

Após o tratamento, ele conseguiu um novo emprego no começo de 1994, dessa vez no Hunterdon Medical Center em Rarity Township, Nova Jersey. Lá ele trabalhou na UTI da ala cardíaca, onde posteriormente ele afirmou ter matado nove pessoas, mas somente 5 foram creditadas a ele: LeRoy Sinn, Earl Young, Catherine Dext, Frank Mazzacco e Jesse Eichlin. Posteriormente, quando começaram as investigações oficiais, o hospital alegou que já tinha já destruído os registros dos pacientes, dificultando ainda mais a prisão de Charles.

Em 1994 ele mudou de hospital de novo, dessa vez ele ficou 3 anos no Morris Memorial Hospital em Morris, Nova Jersey, onde não matou ninguém. Ele foi demitido em agosto de 1997 por ter um desempenho insatisfatório, e permaneceu desempregado por seis meses. Em outubro de 1997, Charles procurou novamente tratamento para depressão, mas saiu por conta própria pouco tempo depois. Nessa época a sua saúde mental piorou bastante: segundo seus vizinhos, Charles era visto correndo pelas ruas de madrugada, gritando e falando sozinho.

Em fevereiro de 1998, ele foi contratado pelo Liberty Nursing and Rehabilitation Center em Allentown, na Pensilvânia. Ele trabalhava em uma enfermaria para pacientes que precisavam de ventilação mecânica. Ele ficou lá até outubro, mas foi demitido depois que um paciente alegou que Charles entrou no seu quarto com várias seringas na mão e tentou aplicar nele. Ele usou tanta força para conter o paciente que acabou quebrando o braço dele. Após essa demissão, Charles pediu falência.

Em novembro de 1998, Charles Cullen trabalhou no Hospital Elston em Elston, Pensilvânia, até março de 1999. Lá ele matou Ottomar Schramm com uma overdose de digoxina, o que chamou a atenção das autoridades internas: o laudo do legista mostrou a causa da morte, porém, não foi possível rastrear ela até o enfermeiro.


Ottomar Schramm


Você deve estar se perguntando: como os hospitais não checaram o histórico de Charles Cullen antes da contratação? Não existiam mecanismos de notificação para identificar enfermeiros com problemas em empregos anteriores, e alguns hospitais destruíam os registros logo depois que os empregados saíam. Além disso, os Estados Unidos vivem uma crise de redução do número de enfermeiros que se arrasta desde aquela época, então muitos contratam sem olhar os históricos e o grau de experiencia: dados de 2021 mostram que quase 2% dos enfermeiros deixaram o posto, uma baixa de 100 mil profissionais, a grande maioria com menos de 40 anos. As maiores reclamações das classes são os baixos salários, a falta de reconhecimento profissional e o burnout. A pandemia de COVID-19 também acelerou esse processo.

Depois de sair de Elston, Charles foi para o Lehigh Valley Hospital em Allentown, Pensilvânia. Lá ele matou um paciente e tentou matar outro, mas sem sucesso. Em abril de 1999, ele deixou a cidade e foi trabalhar no St. Luke's Hospital em Bethlehem, Pensilvânia. Lá ele matou 5 pacientes: Irene Krapf, William Park, Samuel Spangler, Daniel George e Edward O'Toole, além de envenenar mais dois, mas que conseguiram sobreviver.

Em janeiro de 2000, Charles tentou o suicídio mais uma vez: ele acendeu uma churrasqueira e se trancou no banheiro para morrer por asfixia causada pelo monóxido de carbono. Um dos seus vizinhos sentiu o cheiro e chamou os bombeiros, que levaram ele para o hospital. Ele recebeu alta no dia seguinte. Quando ele voltou, ele foi demitido repentinamente do St. Luke's. Após isso, ele foi trabalhar no Sacred Heart Hospital em Allentown, mas saiu antes de matar alguém porque não se dava bem com seus colegas de trabalho. Em setembro de 2002, ele foi trabalhar no Somerset Medical Center em Somerset, New Jersey, o seu último emprego antes de ser pego.


Somerset Medical Center


Uma das vítimas de Charles no Somerset foi o padre Florian Gall, que deu entrada no hospital depois de ter sentido problemas para respirar durante a madrugada, e foi entubado assim que chegou no hospital. A irmã dele, Lucille, permaneceu ao seu lado todo o tempo em que ele ficou lá. O padre Gall estava se recuperando, mas, para a surpresa de todos, ele morreu repentinamente. A causa da morte foi declarada como uma parada cardíaca.

Uma enfermeira achou a morte dele estranha que ela ligou para o New Jersey Poison Information and Education System, um serviço que presta assessoria para profissionais de saúde e para a comunidade, que auxilia no que fazer caso de envenenamento acidental, picada de animais peçonhentos, esse tipo de coisa. Ela disse que estava investigando valores de análise de um paciente que tinha recebido digoxina, um dos métodos que Charles usava para matar suas vítimas.

Segundo ela, o paciente oficialmente não tomava digoxina a dois dias, e mesmo assim o nível da substância não parava de subir nos exames de sangue. - Quem atendeu a chamada da enfermeira foi o toxicologista Dr. Bruce Ruck. Ele perguntou se tinha outras situações estranhas acontecendo no hospital, e a enfermeira disse que dois pacientes tinham morrido de hipoglicemia alguns dias antes. O Dr. Bruce foi categórico e disse que o hospital precisava chamar a polícia, porque tinham um caso de assassinato acontecendo. - Dois dias depois o Dr. Bruce ligou para o Somerset, onde foi atendido por um funcionário, que disse que o hospital estava fazendo uma investigação interna, mas que ele não poderia dar mais informações.


Padre Florian Gall


Três meses depois, o Ministério Público entrou em contato com as autoridades sobre a morte misteriosa do Padre Gall no Somerset, e foi designado que o detetive Danny Baldwin fosse investigar. Danny, juntamente com Tim Braum, que era o comandante da unidade de crimes da cidade, foram até uma reunião com a alta cúpula do Somerset Medical Center, que era dirigido por uma mulher chamada Mary Lund. Mary informou que a investigação interna do hospital encontrou resultados anormais nos exames de 5 pacientes, e que os detetives iriam receber todos os documentos referentes a essa investigação.

Eles acharam que seria uma pasta grande, mas quando receberam viram que era apenas uma lauda preenchida por um advogado dizendo que o hospital não encontrou nenhuma atividade suspeita, apesar de mencionar o enfermeiro Charles Cullen. Tim Braum resolveu investigar os antecedentes do Charles, e encontrou duas passagens pela polícia: direção perigosa e invasão de propriedade. Ele fez algumas ligações para buscar mais informações, e em uma delas, descobriu que havia um post-it preso em uma das fichas. Esse post-it dizia que alguns meses antes, a polícia da Pensilvania também estava procurando informações sobre ele.

Os detetives começaram a fazer uma linha do tempo dos hospitais onde ele tinha trabalhado. Eles ficaram chocados ao saber que ele já tinha trabalhado em 9 hospitais diferentes, e que sempre houve suspeitas em torno dele. Eles também ficaram sabendo do caso da Helen Dean, que morreu no Warren Hospital. Eles então tiveram a ideia de ligar para o New Jersey Poison Information and Education System, para fazer perguntas sobre digoxina, até porque, como eles não eram da área, eles não entendiam direito como aquelas substâncias funcionavam. Por uma coincidência muito grande, eles foram atendidos pelo Dr. Bruce Ruck, o mesmo que havia atendido aquela enfermeira um tempo antes. Ele então perguntou se a ligação era por causa do Somerset Medical Center, e os detetives ficaram tão chocados com aquilo que correram para o escritório do Dr. Bruce.

Nesse momento eles ficaram sabendo que o Dr. Bruce e o supervisor dele, o Dr. Steven Marcus, já tinham alertado que havia algo acontecendo dentro do Somerset. Existiam até gravações das conversas entre eles e a diretora Mary Lund. Foi aí que eles perceberam que o hospital não se importava realmente com Charles matando seus pacientes, e que eles estavam abafando o caso por medo de serem processados e perderem dinheiro.


Tim Braun e Danny Baldwin com Charles Cullen após a sua prisão


Ao investigarem a passagem de Charles pelo St. Luke's Hospital em Bethlehem, eles chegaram a uma enfermeira chamada Pat Medellin, que tinha trabalhado com Charles na época que ele foi demitido. Pat contou que estava presente na noite que Charles foi demitido, mas que ela só foi entender o que tinha acontecido alguns dias depois: a equipe do hospital encontrou mais de 50 embalagens de remédios em uma caixa de agulhas. A grande maioria estava fechada, mas haviam algumas que já tinha sido usadas.

Pat começou a conectar as histórias e percebeu que os pacientes que tinha morrido no hospital não pareciam ser de forma natural. Ela então fez uma lista dos pacientes que morreram e chegou a 40 nomes, mais do que o dobro da média normal para um hospital. Depois que um dos seus pacientes faleceu, Pat procurou a diretoria do hospital, mas eles disseram que Charles já tinha sido investigado e descartado como suspeito, até mesmo pela polícia, o que era mentira: o hospital tinha abafado o caso, e era por isso que ele tinha sido demitido de uma hora para a outra. Como a própria Pat disse no documentário Em Busca do Enfermeiro da Noite, era mais fácil para o hospital deixar Charles ir embora do que lidar com a repercussão caso aquilo fosse adiante.

Os detetives sabiam que ainda não tinham material suficiente para prender Charles, então eles precisaram apelar: eles descobriram algumas informações erradas no currículo dele e pediu para o Somerset despedi-lo. Charles foi levado pra fora do hospital escoltado por dois seguranças, e a equipe ficou sem entender o que tinha acontecido. Uma dessas pessoas era a enfermeira Amy Loughren, que vai ser muito importante para a investigação daqui pra frente.


Pat Medellin


Amy era uma enfermeira que começou a trabalhar no Somerset Medical Center em 2001, na ala de cuidados intensivos. Ela era mãe solteira e tinha duas filhas. Mesmo com o salário não sendo dos melhores, Amy amava o que fazia, ela adorava sentir que protegia aqueles pacientes e fazia de tudo para que eles ficassem bem. Amy já trabalhava no Somerset quando o Charles entrou, e os dois rapidamente passaram de colegas de trabalho para amigos: a impressão que Amy tinha era que o Charles era muito humano, que cuidava bem dos seus pacientes e também era uma pessoa muito engraçada, sempre fazendo todo mundo rir.

E não era só a Amy que gostava de Charles: todo mundo adorava ele no hospital, entre pacientes e membros da equipe técnica. Ele até era chamado de “porta-voz” dos funcionários, porque ele sempre estava presente. E essa impressão não ficava apenas no Somerset, mas em outros hospitais em que ele trabalhou, ele sempre foi considerado um ótimo enfermeiro.

Certo dia, Amy começou a passar mal e Charles acabou vendo o estado da amiga. Ele conseguiu colocar ela em uma das camas do hospital, e foi quando ela contou pra ele que estava sofrendo de cardiomiopatia, e que seu coração não iria aguentar por muito tempo. O caso era tão sério que ela precisava de um transplante, e para piorar, ela não podia parar de trabalhar porque essa era a única forma dela garantir um seguro saúde. Nesse momento ele saiu e voltou com uma medicação para o coração. Ela estava tão mal que aceitou e nem se perguntou como ele tinha arranjado. Naquela noite ele tomou conta dos pacientes da Amy e nunca contou para ninguém sobre o seu estado.


Amy Loughren


Os detetives voltaram então a investigar dentro do Somerset, focando em uma máquina chamada Pyxis, que era um gabinete informatizado que guardava os medicamentos, além dos registros de retirada. O detetive Danny Baldwin pediu os registros do Pyxis, mas a diretora Mary Laud disse que a máquina só guardava os registros de 30 dias e não havia mais o que fazer. Desconfiado dessa história, o detetive Tim Braum entrou o contato com o fabricante da máquina que disse que aquela informação não procedia, e que a Pyxis guardava todas as informações por tempo indeterminado.

Os detetives já estavam de saco cheio do Somerset dificultando a investigação, então o detetive Danny foi até o escritório da Mary e disse que se ela não entregasse todos os registros eles iriam confiscar as máquinas e enviar elas para serem analisadas pelo FBI. Imediatamente a Mary fez umas ligações e conseguiu todos os registros de Charles Cullen no Pyxis. Foi nessa época que o hospital afastou Charles, e que ninguém tinha entendido o porquê, nem a sua colega Amy Loughren. Amy ligou Charles, e ele contou que tinha sido demitido por causa daquele problema de currículo, o que no fundo era verdade. A Amy acabou ficando com medo de ser demitida a qualquer momento com uma desculpa qualquer pelo hospital e resolveu ficar na dela.

Algum tempo depois, os detetives passaram a visitar o hospital na tentativa de descobrir se algum enfermeiro tinha visto ele fazendo algo anormal. Os detetives queriam conversar a sós com eles, mas o hospital exigiu que Mary Laud estivesse presente em todas as conversas, e isso inibiu completamente os enfermeiros de serem 100% sinceros com os detetives. Por sorte ou coincidência do destino, a última pessoa entrevistada foi justamente Amy Loughren. Acontece que, no momento da sua entrevista, Mary precisou sair. O detetive Danny aproveitou para mostrou os registros do Pyxis para a Amy, e ela ficou chocada com a quantidade de medicamentos que Charles tinha retirado.

Nesse momento ela lembrou de um evento específico, uma vez em que uma paciente teve uma taquicardia séria de forma repentina. Quando ela correu para o seu quarto, viu Charles aplicando uma injeção. Amy perguntou o que ele estava injetando, e ele disse que era lidocaína, um anestésico. O médico residente chegou e a Amy, que era a enfermeira responsável pela paciente, contou todo o protocolo que eles estavam fazendo para a ressuscitação. O médico perguntou quem tinha dado lidocaína, e a Amy, com pena do amigo, disse que tinha sido ela. Acontece que essa paciente era alérgica a lidocaína e veio a óbito.

Naquele momento Amy percebeu duas coisas: ela não só tinha visto Charles matando um paciente, mas tinha livrado ele de uma retaliação em nome da amizade que eles tinham. Nesse momento ela se sentiu muito culpada, chorou e relatou isso para o detetive, e ele fez uma única pergunta: você nos ajudaria a pegar Charles Cullen?


Amy com suas filhas na época do caso


Os detetives foram até a casa de Amy com muitos documentos e pediram a ajuda dela para “traduzir” algumas coisas que eles não entendiam totalmente, incluindo os registros do Pyxis. Amy apontou que haviam vários cancelamentos de retirada de medicamentos potencialmente mortais, como a digoxina. Foi com a ajuda de Amy que os detetives descobriram o que ele estava fazendo: Charles ia até a máquina, entrava no cadastro do paciente e digitava o nome do medicamento, a gaveta abria, ele retirava a medicação e logo cancelava o procedimento. Como o hospital não fazia uma contagem exata do número de doses, até o momento ninguém tinha notado o sumiço das medicações.

Enquanto os detetives estavam na casa de Amy, ela recebeu um telefonema da Mary Lund perguntando se ela tinha conversado com os detetives depois da reunião. Mary também disse que Amy não poderia conversar com eles sem um representante do hospital. Amy ficou com medo e pensou se realmente deveria estar colaborando. O seu maior receio era ser despedida e ficar sem trabalho, sem seguro saúde, com duas filhas para criar e ainda c om uma cardiopatia grave. Ela decidiu que antes iria conversar com as filhas e contar o que estava acontecendo, e elas disseram para a mãe que era melhor ela ajudar na investigação do que sentir culpa posteriormente.

Os detetives pediram para Amy continuar nessa relação de amizade com Charles e monitorar ele, inclusive se ele tentasse conseguir outro emprego. Além disso, ela imprimiu o registro de todos os pacientes, um por um, uma coisa que seria primordial para juntar nos autos do processo. Tudo isso era bem estressante pra Amy, os detetives até pediram para ela ir com calma porque o risco dela sofrer um infarto a qualquer momento era real.

Depois de analisar todos os documentos, os detetives decidiram que iriam usar o caso da morte do Padre Florian Gall para prender o Charles, pois era o que tinha evidências mais fortes, mesmo ele tendo morrido semanas antes. Os detetives foram até a casa da Lucille, irmã dele, e contaram para ela o que estava acontecendo, e que precisavam de uma autorização para fazer uma exumação. Lucille não pensou duas vezes em permitir a exumação, e os restos do Padre Gall passaram por uma necropsia. Foram encontrados níveis altos de digoxina, e eles conseguiram mudar a causa da morte de uma parada cardíaca para overdose de digoxina, e o tipo de morte de natural para homicídio.

Alguns dias depois, Charles ligou para Amy para dizer que tinha encontrado um novo emprego, e ela rapidamente contou isso para os detetives. Eles então montaram um plano para que ela encontrasse com Charles e tentasse tirar uma confissão dele. Amy convidou Charles para ir até uma lanchonete em que eles frequentavam quando trabalhavam juntos, e ele aceitou. Ela foi até o local equipada com uma escuta, enquanto os detetives estavam parados em um carro do lado de fora.

Os dois conversaram por um tempo sobre outras coisas, até que caíram no assunto da morte dos pacientes. Charles contou sobre o filho da paciente Helen Dean, que tinha acusado ele de ter matado a sua mãe. Amy então perguntou sobre o Padre Gall, e Charles disse que não podia falar sobre aquilo. Nesse instante a escuta parou de funcionar, para o desespero dos detetives. Eles não estavam preocupados apenas com a confissão, mas porque eles não saberiam se ele fizesse algo contra ela.

Amy disse para Charles “eu te conheço, eu posso te ajudar”, mas nessa hora, era como se ele tivesse virado outra pessoa: ele ficou pálido, virou a cabeça, seu tom de voz mudou e começou a falar umas coisas desconexas. Ele levantou da mesa e saiu do local, e foi nesse momento que ele foi rendido e preso pela morte do Padre Gall. Charles Cullen foi levado para a delegacia e os detetives tentaram conversar com ele normalmente, mas a única coisa que ele dizia era “não posso”, várias e várias vezes. Eles então decidiram recorrer a Amy, e pediram para ela ir até o local conversar com ele.

Amy foi até lá, eles tiraram as algemas do Charles e deixaram os dois conversando. Ela disse que era como se ele voltasse a ser o Charles de antes. Amy disse que a vida dela mudaria para sempre por ela estar ajudando naquilo, e que só ele poderia salva-la de uma possível demissão e de ser responsabilizada pelo hospital. Charles concordou em ajudar, ela perguntou então como ele tinha matado o Padre Gall, e ele confessou que tinha sido com uma injeção de digoxina.


Injeção de digoxina


A partir dessa conversa ele começou a confessar, em todos os detalhes, os assassinatos. Segundo ele, só passava pela sua cabeça a chance de aliviar o sofrimento daqueles pacientes, que ele não conseguia ver eles naquele estado. Ele também disse que não conseguia parar de fazer aquilo. Charles confessou que, além das injeções diretamente nos pacientes, ele também adulterava as bolsas de soro enquanto elas ainda estavam no estoque, fazendo com que algumas das mortes fossem completamente aleatórias. Isso fazia com que alguns dos pacientes, que estavam em plena recuperação ou já prontos para receber alta, também morressem.

A conclusão dos detetives era de que Charles Cullen não estava tentando amenizar o sofrimento de uma forma que fazia sentido na sua cabeça, ele estava deliberadamente assassinando pessoas dentro do hospital. Um dos medicamentos que ele usou para matar foi brometo de vecurônio, um anestésico que paralisa totalmente a pessoa, mas mantem ela consciente. Ou seja, a vítima ia aos poucos perdendo a capacidade de respirar e não podia fazer nada para se salvar.

Charles fez um acordo de confissão em troca de fugir da pena de morte, que ainda existia no estado naquela época. No total, ele confessou ter assassinado 29 pacientes, além de 6 tentativas que falharam. Os especialistas alertaram que o número pode ter sido bem maior, na casa dos 400, o que tornariam ele o serial killer mais prolífico da história.

Durante o julgamento, ele permaneceu o tempo todo de cabeça baixa, até mesmo quando os familiares dos pacientes discursaram diretamente para ele. Em 2 de março de 2006, Charles Cullen foi condenado a onze sentenças consecutivas de prisão perpétua, e só ficará elegível para liberdade condicional em 2403. Atualmente ele está detido na Prisão Estadual de Nova Jersey em Trenton.


Charles durante seu julgamento


Após a repercussão do caso, diversos estados adotaram novas leis que aumentaram a responsabilidade dos hospitais em relatar "eventos adversos graves evitáveis", incluindo mortes incomuns de pacientes. Além disso, também passaram leis que obrigavam os empregadores e manter o registro de seus funcionários por até sete anos e serem o mais específico e verdadeiro possível sobre a conduta deles. Apesar disso, nenhum representante, entidade ou superior dos hospitais em que Charles trabalhou sofreu qualquer consequência de terem abafado as mortes.

Em 2022 a Netflix lançou o documentário Em Busca do Enfermeiro da Noite, que conta como foi a investigação o caso, com depoimento dos detetives, da Amy, da Pat, do Dr. Bruce e de várias outras pessoas que foram importantes para a prisão de Charles Cullen. Também foi lançado o filme O Enfermeiro da Noite, uma versão dramatizada dos eventos baseado no livro escrito pelo autor Charles Graeber. Eddie Redmaayne interpretou Charles Cullen enquanto a Jessica Chastain interpretou Amy Loughren.

Dentre os tipos de serial killer existentes, os profissionais da saúde que matam seus pacientes têm sua própria categoria: eles são chamados de anjos da morte. No Brasil, o caso do auxiliar de enfermagem Edson Izidoro Guimarães chamou a atenção quando ele foi preso em 1999, após ter confessado a morte de 4 pacientes depois de injetar cloreto de potássio e remover a máscara de oxigênio deles. Assim como Charles Cullen, o número de mortos pode ter sido muito maior.


Eddie Redmaayne e Jessica Chastain no filme O Enfermeiro da Noite


FONTES: Capturing the Killer Nurse, Murderpedia, Fortune.com, U.S.News.

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