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  • Foto do escritorRodolfo Brenner

#27 - Carla Vicentini | DESAPARECIDOS

Fazer intercâmbio é o sonho de muitos estudantes universitários: conhecer outro país, morar sozinho, aprender outra língua na prática e ver outra cultura de perto. Esse era o sonho da Carla Vicentini, uma universitária que, com muito esforço, conseguiu juntar dinheiro para ir para os Estados Unidos. Entretanto, o sonho virou pesadelo quando ela desapareceu misteriosamente.


Essa é a versão escrita do episódio #27 - Carla Vicentini



Carla Vicentini nasceu em 29 de abril de 1983 e era filha de Tânia e Orlando Vicentini, e ela tinha duas irmãs mais novas. A família morava em Goioerê, uma pequena cidade no Paraná, e Carla era estudante do curso de Engenharia Têxtil. Na época do caso ela tinha 22 anos. Ela foi descrita como uma jovem extrovertida, inteligente e bastante educada.

A família conta que Carla sempre teve o sonho de fazer intercâmbio, tanto que juntou dinheiro por um bom tempo para conseguir tirar os documentos necessários e pagar a agência responsável pela viagem. Apesar de ser universitária, o intercâmbio que ela faria não era de estudo, mas sim do tipo “Intercâmbio de Trabalho”: nessa modalidade, o intercambista viaja para outro país com emprego garantido, às vezes com hospedagem e com curso de idiomas, mas no caso de Carla ela teria que estudar inglês por conta própria. A agência contratada garantia todas as permissões legais para que ela ficasse por quatro meses trabalhando, além da passagem e seguro saúde, mas a moradia também seria por conta dela.

Carla embarcou para os Estados Unidos no dia 18 de janeiro de 2006, e tirou diversas fotos com a família no aeroporto.


Tânia, Carla e Orlando Vicentini


Durante o voo, Carla conheceu Maria Eduarda Ribeiro, apelidada de Duda, que também estava fazendo intercâmbio pela mesma agência. Aqui existe uma divergência nas matérias que relatam o caso: algumas fontes dizem que elas foram para Dover, capital do estado de Delaware, e outras dizem que era Dover, em Nova Jersey. Independente disso, elas trabalhariam como atendente de uma rede de lanchonetes. Carla ficou bastante insatisfeita com as condições de trabalho e também com a hospedagem, que, segundo reportagens, consistia em um quarto pequeno que ela dividia com várias as mulheres, incluindo Duda.

Após duas semanas, ela e a Duda, que também não estava gostando do lugar, conversaram e decidiram se mudar para Newark, em New Jersey, procurar outro emprego e dividir um imóvel. Newark é conhecida pela grande concentração de brasileiros, chegando a 2% da população total da cidade. Eles estão presentes principalmente no bairro de Ironbound, que é conhecido como “Little Brazil”.

Infelizmente, Newark também é uma cidade bastante violenta: segundo dados do NeighborhoodScout, plataforma especialista em análise de segurança pública, a chance de se tornar vítima de crimes violentos ou contra a propriedade é de 1 em 49, maior que a média nacional e muito maior que a média do estado, já que Nova Jersey é considerado um dos melhores estados para se viver.


Newark, NJ


Sem avisar a agência de intercâmbio, Carla e Duda foram para Newark, onde ficariam temporariamente em um apartamento que pertencia a um amigo do pai de Carla, um francês naturalizado americano chamado José Fernandes. José cedeu o espaço para elas como forma de compensar uma dívida financeira que ele tinha com Orlando Vicentini, que trabalhava como contador em um posto de gasolina que pertencia a ele.

Assim que chegaram, Carla conseguiu emprego de garçonete em um restaurante português e Duda em um bar da região. É comum que bares e restaurantes contratem estrangeiros sem muita experiência e com inglês básico, já que existem muita mão-de-obra disponível e o salário era baixo. Apesar da possibilidade de ganhar gorjetas altas dos clientes, havia os riscos de trabalhar até de madrugada.


O prédio onde Carla estava morando com Duda - imagens da reportagem do Fantástico


Na noite de 9 de fevereiro, Carla deixou o restaurante onde trabalhava e pegou carona com um amigo até o bar em que Duda estava trabalhando, onde ficou por um tempo conversando com ela e com esse amigo. Depois, ele deixa ela no apartamento que ela dividia com Duda, e pouco tempo depois ela sai e volta para o mesmo bar. Lá ela conheceu um homem e os dois começaram a conversar e a beber juntos. Duda relatou que achou estranho o fato deles estarem conversando, já que Carla não falava inglês muito bem e o homem não estava falando em português. Ainda segundo ela, a amiga bebeu demais, ao ponto de vomitar, e o gerente do bar disse que as bebidas foram todas pagas por esse homem.

Antes de sair, Carla entregou para o gerente um pedaço de papel e pediu para que ele desse esse papel para Duda. O gerente entregou para ela, e aqui existe mais uma divergência nas matérias: a grande maioria diz que não se sabe ao certo o que estava escrito nesse bilhete, mas poucas fontes falam que estaria escrito um nome e um número de telefone, provavelmente do homem que estava acompanhando Carla. Mas infelizmente parece que o bilhete acabou se perdendo.

Por volta das 2:30 da manhã, Carla disse para Duda que iria até o carro do homem para olhar uma fotografia e pediu as chaves do apartamento. Depois que saiu ela não foi mais vista. Quando viu que a amiga não estava no apartamento, Duda comunicou o desaparecimento à polícia.


Duda conversando com um investigador - ela não quis mostrar o rosto porque estaria com medo


A mãe de Carla, Tânia, disse que a filha telefonava todos os dias, às vezes mais de uma vez. Não fica claro se foi no mesmo dia ou no dia posterior, mas Duda ligou para a ela e informou sobre o desaparecimento. Segundo Tânia, Duda parecia bastante assustada.

Assim que o desaparecimento foi registrado, cartazes com fotos e informações sobre Carla foram divulgados: ela era loira, olhos castanhos e 1,70 de altura. Ela tinha várias tatuagens e piercings, estava usando uma camisa branca, jaqueta azul, jeans e bota marrom de salto alto.


Cartaz informando o desaparecimento de Carla


Em uma primeira revista no apartamento, foram encontrados os documentos de Carla, incluindo seu passaporte, além do casaco que ela usava, o que indicava que ela realmente voltou ao apartamento. Era estranho que ela saísse sem casaco, já que nevava muito naquela noite.

A investigação inicial foi feita pelo detetive Hubert Henderson, do Esquadrão de Crimes Graves da Polícia de Newark. Esse grupo era especialista em casos que demandavam mais atenção, como sequestro e tráfico de pessoas, e incluía dois detetives que falavam português para auxiliar na coleta de depoimentos. Duda prestou depoimento no dia 23: ela disse que não conhecia o homem que saiu com Carla naquela madrugada, mas o descreveu como “estranho”, com olhos azuis, cabelos ruivos e que estava na casa dos 30 anos. Com as informações que ela passou, foi feito um retrato falado do suspeito.


Retrato falado do homem que teria conversado com Carla naquela noite


Mesmo com a polícia oferecendo US$ 2 mil por informações, muitas pessoas que moravam ou trabalhavam próximas do bar evitaram falar com a polícia, isso porque tinham medo de serem deportados pela imigração devido a situações de irregularidade.

Tânia viajou para os Estados Unidos quando o desaparecimento de Carla completou um mês. Um empresário chamado Peter Pantoliano se solidarizou com o caso e ofereceu mais US$ 3 mil. Tânia fez questão de agradecer pessoalmente o gesto, e Peter disse que fez isso por causa do seu filho, que era descendente de brasileiros por parte da mãe.

A polícia de Newark foi até o bar e teve acesso às fitas do circuito interno de câmeras, mas estranhamente ela não é vista em nenhum momento. A mãe de Carla levantou a suspeita de que o material poderia estar editado.


Tânia e Carla Vicentini


Como a polícia de Newark não estava conseguindo progredir nas investigações, o FBI entrou no caso. Um dos primeiros passos foi uma visita à Goioerê junto com Polícia Federal e a Interpol para colher alguns depoimentos, incluindo de José Fernandes e da ex-mulher dele. Não foram divulgadas informações do que foi descoberto nos depoimentos, mas os investigadores disseram que a viagem serviu para traçar o perfil da Carla e focar em algumas linhas de investigação.

Em entrevista para a Gazeta do Povo, Orlando Vicentini, pai de Carla, fez algumas declarações um tanto polêmicas quanto a José Fernandes: ele disse que José veio para o Brasil no dia 14 de fevereiro de 2006 e não procurou a família para comentar sobre o desaparecimento da estudante. Em uma acusação ainda mais grave, ele disse que José teria assediado sexualmente sua filha uma semana antes dela desaparecer.

José negou as acusações dizendo que falou com a família sobre o desaparecimento e que entrou com um processo contra Orlando pela acusação de assédio. Ele ainda disse que Carla usava drogas e que já tinha alertado ela sobre os perigos de sair à noite. Depois que o caso ficou conhecido, a Polícia Federal chegou a investigar José por envio ilegal de brasileiros aos Estados Unidos.

Em abril, Tânia se encontrou com o ministro da Justiça da época, Márcio Thomaz Bastos, em Brasília. Além deles, também estavam presentes o deputado federal Hermes Parcianello (PMDB-PR), o agente do FBI responsável pelo caso, Daniel Clegg, e Marcelo Crivella (PL-RJ), ex-prefeito do Rio, que na época era senador e debatia algumas questões em relação a imigração. Perguntado sobre as investigações, o agente do FBI disse que havia pessoas de interesse no caso, mas não suspeitos propriamente ditos.


Tânia Vicentini discursa em um encontro com parlamentares para tratar do caso


Em maio, o The New York Times entrevistou Karlos Kohlbach, o jornalista responsável por escrever sobre o caso para a Gazeta do Povo. Karlos reclamou sobre a falta de interesse da mídia norte-americana em noticiar o caso e teorizou que isso provavelmente seria pelo fato de que não havia familiares ou representantes da família no país, e que eles não falavam inglês, o que dificultaria a comunicação entre as partes.

Posteriormente a família contratou Renata Ribeiro, uma advogada fluente em inglês e que estava interessada no caso. Renata entrou em contato com Joan Petruski, presidente da Kristen Foundation, uma ONG que fornece apoio às famílias de pessoas desaparecidas. Joan se prontificou a entrar em contato com os meios de comunicação para divulgar o caso, e também criou um perfil para Carla no site da fundação, contendo informações importantes sobre ela.

Renata também criticou o Consulado do Brasil em Nova York, alegando que eles não estavam ativamente presentes no caso. O cônsul-geral brasileiro na época, José Alfredo Graça Lima, disse que havia quatro membros da equipe trabalhando no caso e que estavam em contato com a família e com as autoridades locais. No dia 19 de maio, a mãe de Carla, juntamente com Renata e o repórter Karlos, se encontraram com representantes do Consulado, que prometeram total apoio nas investigações, o que, segundo a própria família, não aconteceu.


Consulado brasileiro em Nova York


Depois que começaram a colher os depoimentos, os investigadores notaram que existiam algumas divergências sobre os últimos momentos de Carla: depois que ela saiu do bar, um segurança disse que viu quando ela se despediu do homem e caminhou sozinha em direção à sua casa. Entretanto, algumas matérias citam que uma testemunha relatou que ela teria saído de carro com ele.

No início das investigações, José Fernandes disse que estava dormindo no provável horário que Carla chegou no apartamento, porém, posteriormente, ele mudou seu depoimento dizendo que ouviu alguém entrando, subindo as escadas e depois descendo perto das 3h da manhã. Nesse mesmo depoimento, José contou que, um dia após o desaparecimento, ele recebeu de três a cinco chamadas em seu celular, e que ao fundo dava para ouvir uma voz feminina gritando por socorro. Apesar de ser uma pista bastante importante, ele não relatou para a polícia naquele momento. O FBI quebrou o sigilo telefônico de José, porém não foi encontrado nada sobre isso.

José ainda apontou dois rapazes que ele teria visto com Carla no dia que ela chegou na cidade como possíveis suspeitos. O FBI conversou com esses dois rapazes e constatou que eles eram intercambistas, e inclusive que um deles era colega de trabalho dela.


José Fernandes depondo na CPI instaurada para apurar o caso


A hipótese de que Carla teria sido escravizada em uma rede criminosa de prostituição existia, mas foi descartada pelo FBI, porque, segundo eles, ela não teria o “perfil” ideal para ser uma vítima. Também foi levantado que ela poderia ter fugido por conta própria, inclusive apareceram relatos de que Carla teria sido vista em Newark, em Boston e até no Arizona, mais de 3800 km de distância. Esses relatos foram investigados, mas não deram em nada.

Em entrevista para a revista Marie Claire, Tânia disse A polícia achava um corpo e me telefonava. Eu ficava dois, três dias em conversa, tentando chegar a uma conclusão. No fim, a moça tinha uma tatuagem a mais, uma a menos, um sinal que indicasse que não era minha filha. Vários exames de sangue meu e do meu marido foram enviados para lá na tentativa de ajudar a reconhecer o cadáver. A gente ficava esperando o resultado diante de um corpo distante. Enterrei muitas meninas com as mesmas características físicas de Carla. Chorei por todas elas”.

A família ficou bastante abalada com o desaparecimento de Carla: o pai, Orlando, entrou em depressão e passou a ter crises nervosas; as irmãs tinham medo e não queriam sair de perto da mãe; e a própria Tânia disse que parou tudo para procurar pela filha, passando dias e noites ao lado do telefone e do computador, aguardando alguma pista. Se Carla ainda estiver viva, hoje ela estaria com 39 anos.

Dados de 2008 relataram que havia 25 brasileiros oficialmente desaparecidos nos Estados Unidos, sem contar os imigrantes ilegais. É o segundo país com mais casos depois do Japão, com 45 registros. O caso de Carla Vicentini continua aberto, e o FBI oferece uma recompensa de US$ 20 mil por informações que ajudem a encontrá-la.


Poster do FBI com informações sobre Carla


Eu entrei em contato com a Tânia Vicentini, mãe da Carla, porque eu queria saber alguns detalhes sobre como estava o caso hoje. Inclusive eu quero agradecer publicamente porque ela foi bastante solicitada, e eu confesso que eu estava um pouco nervoso porque foi a primeira vez que eu entrei em contato com alguém que esteve presente nos casos que a gente conta aqui.

As últimas matérias sobre o caso relatam que os parlamentares que interrogaram José naquela CPI tinham a intenção de fazer uma acareação entre ele e a Maria Eduarda. A acareação é uma técnica usada pelo jurídico, na qual se coloca duas pessoas previamente interrogadas frente a frente para conferir se o depoimento deles bate. Tânia disse que a acareação acabou não acontecendo.

Quanto a Duda, ela se mudou para a costa oeste dos Estados Unidos depois do caso. A dona Tânia disse que ela acabou voltando para o Brasil, que elas tiveram alguns contatos por telefone e que a Duda sempre ajudou bastante a polícia. Quanto ao José, ela confirmou que ele já faleceu.

Por fim, ela disse que gostaria muito de ter uma resposta do que aconteceu, e que é desumano para ela viver sem saber o que aconteceu com a Carla, mesmo depois de 16 anos. Ela sente que ela não está mais viva, porque se ela estivesse ela daria um jeito de deixar uma pista para encontrá-la.


Reportagem do jornal Brazilian Voice relembrando o desaparecimento de Carla


• FONTES: FBI, Estadão, NeighborhoodScout, The New York Times, Gazeta do Povo, The Charley Project, Marie Claire, G1.

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