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#108 - O Desaparecimento de Anthonette Cayedito | DESAPARECIDOS

  • Foto do escritor: Rodolfo Brenner
    Rodolfo Brenner
  • há 13 horas
  • 9 min de leitura

Em 1986, uma menina ouviu uma batida na porta durante a madrugada. Ao atender, teria sido levada por um homem. Um ano depois, a polícia recebe uma ligação perturbadora de alguém alegando ser a menina desaparecida. As investigações continuam, e quanto mais elas avançam, mais histórias e mentiras aparecem.


Essa é a versão escrita do episódio #108 - O Desaparecimento de Anthonette Cayedito.


Anthonette Christine Cayedito nasceu no dia 25/12/1976. Ela era filha do casal Theresa Cayedito, conhecida como Penny, e Larry Estrada. Larry era carpinteiro de ascendência italiana e hispânica, enquanto Penny era do povo Navarro, ou seja, Anthonette tinha uma ascendência multiétnica. Os pais acabaram se separando, e posteriormente Penny teve mais duas filhas: Wendy e Senida, conhecida como Sadie. Na época do caso, elas moravam em Gallup, no Novo México. Gallup fica no condado de McKinley, e tem uma população de 21.899 habitantes, segundo o censo de 2020. A grande maioria dos moradores de Gallup tem origem indígena americana, principalmente das tribos Navajo, Hopi e Zuni. A cidade também é conhecida pelo alto índice de criminalidade, sendo 5 vezes maior que a média nacional.

Tanto Penny quanto Larry descreveram Anthonette como uma menina alegre e que gostava de brincar com as irmãs. Ela também foi descrita como madura e independente para a sua idade, algo que se mostrou bastante controverso, já que, desde muito nova, ela tinha um papel fundamental na criação das irmãs.- Posteriormente Wendy disse em entrevistas que Anthonette cozinhava, passava roupa e limpava a casa desde os 6 anos de idade. Na época do caso, ela tinha 9 anos, e a família morava em um apartamento simples, e, apesar de terem seus próprios quartos, as meninas geralmente dividiam a cama com a mãe.

Se Anthonette já era praticamente uma adulta no corpo de uma criança, seus pais não poderiam ter um comportamento mais irresponsável: segundo as fontes, Penny vivia de bar em bar, geralmente deixando as filhas sozinhas pela maior parte do tempo. Larry, embora não tomasse parte no cuidado da filha, foi descrito como sendo um usuário de drogas.


Penny Cayedito


No dia 05/04/1986, Penny iria passar o sábado com alguns amigos em um bar chamado Talk of the Town, enquanto as meninas ficariam com uma babá. Penny teria voltado próximo da meia-noite, e passou um tempo com as filhas. Enquanto Sadie e Wendy foram para a cama, a mãe teria ficado conversando com Anthonette até próximo das 3 da manhã.

Agora existe uma pequena confusão na ordem das coisas segundo as entrevistas e relatórios policiais posteriores, mas é dito que, mais ou menos 3 da manhã, Anthonette e Sadie ouviram uma batida na porta. Segundo os relatos da Sadie, que tinha 7 anos na época, quem bateu na porta teria sido um homem que falou algo, mas como elas não reconheceram, decidiram não abrir a porta.- Penny teria acordado por volta das 7 da manhã do domingo para levar as meninas à escola dominical, mas não encontrou Anthonette. Ela achou que a garota estava preparando o café da manhã das irmãs, mas quando Penny foi até a cozinha, não havia sinais da filha. Ainda de acordo com Penny, ela e as filhas começaram a procurar por toda a casa e também na casa dos vizinhos, mas não havia nenhum sinal da Anthonette. O sinal mais preocupante foi ela ter encontrado a porta da frente do apartamento destrancada, mesmo tendo a certeza que ela havia trancado na madrugada anterior.

Uma das vizinhas disse que um grupo de crianças estava procurando por um cachorro perdido nas redondezas, então Penny achou que a filha pudesse estar junto na busca. Ela ligou para todos os vizinhos possíveis, inclusive para os pais das crianças que estavam na busca, mas ninguém sabia nada sobre a garota. Foi nesse momento que ela decidiu ligar para a polícia, mas foi informada que deveria esperar 24 horas para que as buscas fossem iniciadas.


A casa da família Cayedito


As investigações só iniciaram na segunda, quando a polícia interrogou a família de Anthonette e a Sadie contou sobre a batida na porta, embora a mãe dissesse que não tinha ouvido nada. Segundo as irmãs, ela estava usando um pijama rosa quando desapareceu. Durante a semana, equipes da polícia, voluntários e cães farejadores foram usados para procurar por Anthonette. Uma vizinha da família disse que, na madrugada que a garota sumiu, ela viu uma van antiga na cor marrom e placa do Novo México parada na frente do apartamento da família. Ela também teria visto um homem bater na porta da família. Apesar disso, a vizinha não achou estranho, pois, segundo ela, era comum ver pessoas saindo ou entrando durante a noite nas festas e reuniões que Penny dava em casa.

Quando a família foi perguntada sobre isso, ninguém conhecia nenhum dono de van marrom. Por conta desse detalhe, no dia 10, o responsável pelo caso, o detetive Frank Gonzales, oficialmente elevou o caso de Anthonette para um possível sequestro. Tanto o pai quanto a mãe estavam bastante frustrados com a polícia: Larry disse que conseguia mais informações com gangues na rua, enquanto Penny foi até uma curandeira da tribo Navarro por respostas, mas não conseguiu nada.

Posteriormente, apareceu um primeiro suspeito, um homem de 62 anos chamado Wesley Daniels. Pelo menos 4 meninos disseram para a polícia que Wesley convidou eles em ocasiões separadas para picnics, mas eles acabavam sendo abusados sexualmente.- Wesley foi preso e pegou uma pena de 32 anos por crimes sexuais. Essa pista acabou esfriando porque Wesley tinha uma clara preferência por meninos, o que não era o caso de Anthonette. Penny também disse que a garota jamais abriria a porta para um desconhecido.


Anthonette Cayedito


Em 08/04/1986, uma testemunha relatou acreditar ter visto Anthonette em San Antonio, no Texas. Ele se lembrou de ter visto uma garota de aparência hispânica, vestindo um longo vestido rosa, junto com uma mulher loira à beira da estrada. Em 19/04/1986, uma mulher afirmou ter visto uma caminhonete marrom em um posto de gasolina. Quando a caminhonete passou, a mulher acreditou ter ouvido uma voz infantil "Socorro, socorro!". A testemunha acreditava que poderia ter sido Anthonette. Em 30/06/1986, uma testemunha afirmou ter visto Anthonette em uma rodoviária em El Paso, Texas, na presença de dois homens hispânicos. Ele alegou que a garota usava um vestido rosa, sapatos brancos e tinha uma marca visível na bochecha, semelhante a uma que Anthonette tinha.

No dia 12/04/1987, a polícia de Gallup recebeu um telefonema perturbador. Nesse telefonema, uma garota diz "eu sou Anthonette Cayeditto e estou em Albuquerque". Quando a atendente pergunta aonde em Albuquerque, uma voz masculina grita "quem disse que você podia usar o telefone?", e a menina é ouvida gritando. O telefonema não pode ser rastreado na época.- O áudio original teria 44 segundos, mas apenas 20 foram liberados para o público. Algo interessante foi que a ligação foi feita especificamente para a polícia de Gullap, não para o 911. Quando a ligação foi mostrada para Penny, ela disse ter certeza que realmente se tratava de Anthonette. Após a divulgação da ligação para o público, muitas pistas começaram a aparecer. Uma recompensa de 500 dólares também foi oferecida, mas nenhuma pista levou a algo concreto.



Em 04/11/1989, o jornal Independent noticiou que um homem do Missouri alegou ter visto Anthonette uma semana antes em um posto de gasolina na Interestadual 70, em Waynesfield, e relatou o encontro à polícia. Ele reconheceu a garota de um cartaz de pessoa desaparecida e disse que ela estava sozinha, usando calça jeans rasgada, uma camiseta branca suja, uma bandana vermelha e um relógio grande. A testemunha também afirmou que a garota agiu “como se tivesse medo de pessoas”.

Quatro anos depois, em 1991, uma garçonete de um restaurante em Carson City, Nevada, encontrou uma adolescente que correspondia à descrição de Anthonette na companhia de um casal. A garota derrubava seus talheres no chão repetidamente, aparentemente tentando chamar a atenção da garçonete.- Segundo a garçonete, a menina agarrou sua mão e a apertou com firmeza cada vez que a garçonete devolvia os talheres. Depois que elas saíram, a garçonete limpou a mesa e encontrou um guardanapo embaixo do prato do qual a menina estava comendo. Nele havia duas mensagens curtas escritas: "Me ajude" e "Chame a polícia".

Devido a esse encontro bizarro em Carson City, um detetive chamado Marty Escabel juntamente com o agente do FBI Kevin Miles decidiram reentrevistar Wendy, que na época do caso tinha 5 anos. Agora, com 10 anos, ela contou que, na noite do desaparecimento, houve uma segunda batida na porta depois das 03:30. Wendy viu quando Anthonette perguntou quem era, e uma voz masculina respondeu "é o tio John". Quando Anthonette abriu a porta, um homem rapidamente a agarrou, cobriu sua boca com as mãos e a levou para fora. Em algumas fontes é descrito que havia um segundo homem. Quando Wendy foi perguntada porque ela não contou sobre isso antes, ela disse que não queria deixar sua mãe mais triste do que ela já estava. Com o passar do tempo, Penny foi se afundando cada vez mais no álcool e nas drogas, e acabou morrendo em 1999.

Coincidência ou não, as meninas realmente tinham um tio chamado John, pois a irmã da Penny era casada com um homem com esse nome. John foi entrevistado pela polícia, forneceu um álibi sólido e acabou sendo descartado como suspeito. Mas isso acabou trazendo mais dúvidas do que respostas: como o suspeito sabia que elas tinham um tio chamado John? Será que o sequestrador era então uma pessoa conhecida? Penny chamou outra curandeira, que dessa vez foi até a casa da família. Essa mulher disse que acreditava que Anthonette estava viva e sendo mantida em cárcere contra a sua vontade por alguém que ela conhecia. O caso acabou ganhando bastante repercussão em 1992, quando foi exibido no programa Unsolved Mysteries. Infelizmente não houve muitas pistas novas trazidas pelo programa.



A próxima pista só veio em 1996, quando restos mortais de uma mulher não identificada foram encontrados perto do cruzamento da 98th Street com a Tower Road, em Albuquerque, Novo México. O corpo estava envolto em sacos plásticos, com a parte superior do saco amarrada com um fio elétrico. A parte inferior do saco estava amarrada em volta das pernas com uma corda branca. O corpo tinha múltiplas fraturas no crânio esquerdo e na parte inferior da perna esquerda. Foi feito um teste de DNA que descartou que o corpo fosse de Anthonette.

Em 2010, o detetive Marty Escabel deu uma entrevista para o jornal Gallup Herald, Marty disse que tinha certeza que Penny sabia mais informações sobre a filha e acabou levando com ela coisas importantes. Ele contou que Penny falhou em um teste do polígrafo, embora não tenha sido revelado quando esse polígrafo foi feito. Penny morreu de câncer em 1999.


Matéria de jornal sobre o desaparecimento de Anthonette


Mais de 3 décadas depois, a jornalista Crystal Gutierrez, que apresenta o programa policial online “Beyond the Case” trouxe novas informações sobre o caso, informações que nunca tinham sido reveladas para o público. As novas informações giram em torno de 3 pessoas: Penny, a mãe de Anthonette, e dois amigos dela, Ronald e Emilio, cujo apelido era Emo. Ronald era um amigo de longa data de Penny, e foi ele que apresentou Emo para a família. Emo, um homem adulto, começou a apresentar um comportamento predatório em cima de Anthonette, e isso incluiu presenteá-la com flores e um colar.

De acordo com Sadie, Emo teria aparecido na casa da família na noite que a menina desapareceu, e a sua presença deixou ela muito desconfortável.-Sadie também disse que sua mãe teve um comportamento estranho naquela noite: ela mandou Sadie e Wendy dormirem mais cedo, e a mãe teria ficado jogando cartas com a filha até as 3 da manhã. Essas informações entram em conflito com o que Penny disse para a polícia da época. Sadie também confessou que ouviu a primeira batida na porta, pois todas as filhas estavam dormindo com a mãe no quarto dela, mas Penny teria dito que se tratava apenas de um vizinho. Realmente foi confirmado que se tratava de um vizinho chamado Roger Plummer, que teria dito “vamos Penny, me deixe entrar”. Roger confirmou que queria falar com a Penny, pois eles teriam brigado no bar naquela noite, mas que ele acabou indo para a casa de um amigo depois.

Vocês lembram que Wendy e Penny disseram que houve uma segunda batida na porta, mas Sadie não se lembra desse detalhe. Ela também disse que Wendy parecia ter sido forçada a contar essa história anos depois para livrar a mãe da investigação. Segundo ela, Anthonette era uma pessoa muito cuidadosa e jamais abriria a porta para um desconhecido no meio da noite. Perguntada sobre Ronald ou Emo, Sadie disse que os homens nunca mais apareceram na casa da família após o desaparecimento de Anthonette. A própria Penny só falou sobre os amigos dias depois que a investigação começou, e que ela não achava que ele estivesse envolvido.

Quando o FBI entrou no caso 8 anos depois, foi quando Penny passou a ser tratada como uma suspeita do desaparecimento, e ela teria perguntado se iria para a prisão dependendo do que ela teria feito. Segundo ela, quando disse que queria começar uma nova vida fora de Gallup, Emo teria se oferecido para cuidar da menina. Ela também confirmou sobre os presentes que Emo deu para sua filha. A nova e assustadora teoria é que Penny pode ter vendido a filha ou pelo menos um encontro com ela em troca de dinheiro, álcool ou drogas. Após isso, ela inventou que a garota foi sequestrada e usou Wendy para confirmar essas informações. Após a morte de Penny, ficou praticamente impossível rastrear informações que ela tinha. Também foi impossível verificar o que aconteceu com Emo ou Ronald após as investigações, apenas que Emo faleceu no dia 12/05/2016.

A última informação do caso veio após Crystal Gutierrez soltar os episódios do seu programa sobre o caso: uma mulher chamada Michelle Ann Martinez, que morava em San Antonio, no Texas, entrou em contato com Sadie para dizer que acreditava que ela poderia ser Anthonette. Foi realizado um teste de DNA, e embora as fotos de Michelle quando era criança realmente lembravam Anthonette, mas o resultado foi negativo.


• FONTES: FBI, Crime Junkie, Crystal Gutierrez TV, Gallup News, Trace Evidence, Unsolved Mysteries, NBC News.

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