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#112 - As Crianças do Planalto | DESAPARECIDOS

  • Foto do escritor: Rodolfo Brenner
    Rodolfo Brenner
  • há 2 dias
  • 16 min de leitura

- Entre 1998 e 2001, no bairro Planalto, periferia de Natal, no Rio Grande do Norte, um padrão macabro começou a se repetir. Crianças saíam de casa para brincar na rua, ir ao mercadinho, ou mesmo dormiam tranquilos em suas casas quando, sem nenhuma explicação, desapareciam. Cinco desaparecimentos, nenhuma testemunha, nenhum corpo, e nenhuma resposta.


Essa é a versão escrita do episódio #112 - As Crianças do Planalto.


O Planalto, na zona oeste de Natal, era, nos anos 1990, um bairro jovem, marcado pela expansão acelerada, por construções irregulares e ruas de terra. O cenário refletia a realidade comum de muitas periferias urbanas brasileiras: serviços públicos escassos, pouco policiamento, iluminação insuficiente e uma população majoritariamente formada por trabalhadores de um aterro sanitário que era vizinho ao bairro.-

Naquela época, o bairro era considerado o mais perigoso de Natal, e era comum que bandos de bandidos armados invadissem o local montados em cavalos e realizassem arrastões na região que já era carente.- A presença do Estado era praticamente inexistente em um bairro recém-criado para atender à crescente demanda por moradia da população carente de Natal. Na prática, a segurança do local e a manutenção das relações entre os moradores dependiam mais da própria comunidade do que das instituições públicas.

A partir de 1998, porém, a violência cotidiana deu lugar a algo ainda mais perturbador: crianças começaram a desaparecer. Crianças pequenas, que estavam a poucos metros de casa, com rotinas previsíveis, simplesmente sumiram sem deixar qualquer rastro.- Por anos, o caso não ganhou manchetes nacionais nem gerou comoção pública, permanecendo restrito à própria comunidade que, diante das limitações, pouco podia fazer. Justamente por isso, o episódio é até hoje citado como um exemplo de como a vulnerabilidade social pode comprometer uma investigação.


Planalto, Natal


A primeira criança a desaparecer, quando o bairro do Planalto ainda não havia completado seu primeiro ano de criação, foi Moisés Alves da Silva, de apenas 1 ano e 7 meses, em 9 de novembro de 1998.- Moisés era o caçula dos cinco filhos de Francisca da Silva Nascimento e vivia com os pais e irmãos em um barraco feito de tábuas e tapetes. Apesar da idade, ainda não havia sido registrado em cartório, pois sua declaração de nascido vivo emitida pelo hospital continha dados incompletos, o que exigia correção antes da emissão da certidão de nascimento. Para o Estado, Moisés não existia.

No único cômodo do barraco, os pais dormiam em uma cama, enquanto os filhos ficavam dispostos em redes pelo cômodo, estando a rede de Moisés acima da cama dos pais.- Entre 2h30 e 3h30 da manhã, a depender da fonte utilizada, o marido de Francisca, Djalma, acordou com o choro de uma das crianças e apalpou a rede de Moisés, que estava logo acima da sua cabeça, para verificar se era ele a fonte dos resmungos. Contudo, Moisés já não estava mais lá. Imediatamente, Djalma acordou Francisca e avisou que a criança havia desaparecido. Embora Moisés estivesse com 1 ano e 7 meses, ele ainda apresentava dificuldades para andar e precisava de apoio para percorrer longas distâncias, o que inviabilizava uma possível fuga do barraco.

As únicas pistas encontradas pela família naquele dia foram um rasgo no tapete que fazias as vezes de parede no barraco, marcas de pneu na areia de fora da casa, algumas pegadas humanas e o corpo do cachorro da família, que jazia morto no quintal, com sinais de envenenamento. Dias antes, Francisca já havia falado para o marido que havia visto um vulto dentro de casa durante a noite, todavia, considerando o contexto de onde moravam, não era uma situação excepcional. Francisca e Djalma precisaram esperar até a manhã seguinte para que a Delegacia, que funcionava apenas em horário comercial, abrisse. Após registrarem o boletim de ocorrência, foram acompanhados por policiais até sua casa, onde foi feita uma “investigação” sem ouvir vizinhos ou possíveis testemunhas.

Na Comissão Parlamentar de Inquérito do Desaparecimento de Crianças e Adolescentes, realizada no ano de 2009, Francisca disse ao Senador Geraldo Pudim:


“Então, até hoje (choro), eu e todas as mães aqui sofremos, porque a gente não tem alegria pra nada. Eu tenho 4 filhos em casa, mas sem ele eu sinto muita falta. Ele era meu caçula. Então, quando chega o dia da gente, o Dia das Mães, o Dia dos Pais, dia dele, que foi agora em outubro, eu não tenho alegria. Pra mim, tudo é tristeza. Agora, só digo uma coisa: a minha esperança de encontrar ele nunca morreu. Tenho fé em Deus que eu ei de encontrar, tanto eu como as outras mães. É só isso que eu tenho pra dizer.”


Mas o que é uma comissão parlamentar de inquérito, ou CPI, e por que ela aparece nesse caso? As CPIs são um instrumento investigativo temporário do Poder Legislativo, ou seja, dos deputados ou senadores, em que eles, de forma bem resumida, realizam o trabalho da polícia, investigando o caso, ouvindo testemunhas, autoridades de estado, indiciados, etc. Ao final da CPI, os membros do Poder Legislativo podem propor um projeto de lei ou encaminhar as conclusões deles ao Ministério Público para prosseguimento, da mesma forma que a Polícia faz.


Moisés Alves da Silva


Dois meses depois, na noite de 30 de janeiro de 1999, mais uma criança desaparecida no bairro Planalto. Joseane Pereira dos Santos tinha apenas nove anos de idade quando foi levada da casa de uma vizinha, para onde costumava ir à noite assistir televisão.- Joseane era filha de Lindalva Florêncio da Costa e de Geraldo Pereira dos Santos. Para os vizinhos, Joseane era superprotegida pelos pais, que não a deixavam andar pelo bairro sozinha, além de estar com a chupeta na boca o dia inteiro, tirando apenas para ir à escola. Diferentemente do que aconteceu com Moisés, o desaparecimento da menina não está envolto em total mistério, mas há personagens, relatos e alertas ignorados.

A vizinha que frequentemente atraía Joseane para sua casa era Sandra Aparecida. Ela não era bem vista por muitos moradores do Planalto, mas exercia uma influência forte sobre as crianças do bairro. Sua casa era uma das poucas com televisão, e Sandra costumava convidar os filhos dos vizinhos para assistir aos programas com ela. Anos depois, Lindalva relataria à deputada Bel Mesquita, durante a CPI das Crianças Desaparecidas, que Sandra chegou a dizer que levaria Joseane para sua casa “por bem ou por mal”.

Na noite do desaparecimento de Joseane, entre oito e nove horas da noite, Lindalva já estava deitada quando foi surpreendida por uma batida na porta. Era Sandra, a vizinha que havia levado Joseane para sua casa logo após a menina chegar da escola, ainda naquele dia. Sem aviso, Sandra entrou na casa dizendo que estava com fome. Naquele bairro, marcado pela pobreza extrema, não era incomum que vizinhos procurassem uns aos outros em busca de refeições, mas ainda assim era estranho que Sandra estivesse em sua casa tão tarde sem Joseane. Quando Lindalva a questionou, Sandra respondeu que Joseane havia ficado dormindo em sua casa, e não havia nada para se preocupar. Lindalva aceitou a explicação e respondeu que só tinha frango torrado. Mesmo assim, Sandra pediu um pedaço para comer com farinha e acabou jantando ali mesmo, na casa da mãe de Joseane.


Joseane Pereira dos Santos


Cerca de meia hora depois de sair dali, Sandra voltou correndo, visivelmente nervosa. Foi então que anunciou que Joseane havia desaparecido junto com a coberta da cama. Lindalva se lembra de ter xingado Sandra naquele instante. Em seguida, sem perder tempo, começou a procurar desesperadamente pela filha.- As duas correram para a rodoviária de Natal para colar fotos de Joseane por lá, com o objetivo de impedir que alguém levasse ela para fora da cidade de ônibus, além de pedir para o motorista de um ônibus que iria até Lagoa d’Anta, outro município do Rio Grande do Norte, avisasse a irmã de Joseane sobre o desaparecimento da menina.

Acontece que o cobrador do ônibus reconheceu Sandra e perguntou o que ela estava aprontando dessa vez, mas a mulher desconversou. Lindalva conversou com o homem naquele momento, que disse que era primo de Sandra e gostaria de saber onde ela estava se escondendo. Sem nenhuma necessidade de proteger Sandra, Lindalva contou que ambas moravam próximo ao Lixão do Planalto. Ao chegar em casa, Lindalva pediu ao seu marido que fosse até a casa do Sub-Secretário de Segurança Pública do Rio Grande do Norte, o delegado Maurílio Pinto de Medeiros, para pedir ajuda no caso de Joseane. Maurílio mandou um policial para vistoriar a casa de Sandra, que saiu do local presa, mas não deu nenhuma informação relevante para o caso e acabou sendo solta após 11 dias.

Durante a CPI das Crianças Desaparecidas, Lindalva relatou que circulavam no bairro Planalto boatos graves envolvendo Sandra. Segundo ela, comentava-se que Sandra teria envenenado a própria avó, que teria agredido a esposa de um policial na cidade de Nova Cruz e que costumava bater em Joseane com frequência.- Sobre o envenenamento da avó, a polícia apurou que Sandra morava com sua irmã, o cunhado e a avó em outro bairro de Natal. Na época do crime, Sandra e a irmã teriam tentado envenenar a comida do cunhado/marido, mas a avó das duas acabou comendo o alimento e falecendo.- Ainda na CPI, Geraldo, pai da menina, acrescentou um detalhe perturbador. Ele contou que, durante uma reportagem exibida no bairro após o desaparecimento, Sandra pediu que a pessoa que tivesse levado Joseane ao menos devolvesse a coberta levada junto com a criança, uma coberta que, segundo ela, era sua.

O que chama ainda mais atenção é que, no mesmo dia em que essa reportagem foi ao ar, Sandra foi até Felipe Camarão, uma região conhecida pela presença de diversos criminosos, e retornou com a coberta que havia desaparecido na mesma noite em que Joseane sumiu. Até a própria sogra de Sandra desconfiava de sua conduta e chegou a incentivar a família de Joseane a confrontá-la sobre o assunto, já que Sandra utilizou seu telefone fixo para realizar diversas ligações para outros estados do país, o que, segundo ela, poderia significar o contato com uma rede criminosa. Para os moradores, era difícil ignorar a estranheza da situação: a mesma mulher que atraía crianças para sua casa, que deixou Joseane sozinha na noite do desaparecimento, também parecia ter influência suficiente para recuperar um objeto levado durante o crime.

A última informação conhecida naquela época é a de que Sandra recebia sacolão, uma espécie de cesta básica, de Arlete, uma mulher conhecida no bairro por já ter levado uma criança de Natal para morar com uma família adotiva fora do país. O que se sabia sobre a relação das duas é que Sandra faria qualquer coisa para continuar recebendo a ajuda de Arlete, e que esta, por sua vez, possuía várias demandas.- Anos mais tarde, em uma briga entre Sandra e o ex marido Mauro - lembrando que as casas do bairro eram vizinhas e muito pequenas - Lindalva teria escutado o homem dizer “Vai dar conta da menina da Dona Lindalva, sua sequestradora de crianças!”.

Seis anos depois do desaparecimento de Joseane, Lindalva encontrou um bilhete às vésperas do dia das crianças. O bilhete era simples, dizia apenas que Joseane estava sendo mantida em uma casa na zona norte da cidade de Natal.- Lindalva ligou para a polícia e para a imprensa, que chegou a sua casa antes mesmo dos policiais. O bilhete foi entregue para Genésio Pitanga e Elizabeth Venturini, jornalistas da TV Ponta Negra do Rio Grande do Norte. Os três circularam pelo bairro, mas não encontraram o endereço que constava no papel. Genésio prometeu que entregaria o bilhete à polícia, mas esse nunca foi juntado ao inquérito policial.

Em 16 de Julho de 2024, o G1, vinculado à rede Globo do Rio Grande do Norte, noticiou que a Polícia Civil estaria investigando se uma moradora de rua que aparece em um vídeo gravado na Vila Guilherme, em São Paulo, é Joseane Pereira dos Santos. Ao jornal, o pai de Joseane disse: "Como pai, eu acho que é ela. O que a gente quer é que ela viesse pra nossas mãos, pra gente cuidar dela, para ficar em família de novo". Todavia, no dia seguinte, Luciano Costa entrou em contato com a TV Ponta Negra, afiliada do SBT no Rio Grande do Norte, e informou que a mulher do vídeo é Camila Silva Costa, sua irmã que havia fugido de Natal para São Paulo e estaria morando nas ruas após se viciar em drogas.- Atualmente, Joseane teria 35 anos de idade.


Pai de Joseane segura uma simulação feita através de tecnologia para simular como a filha poderia estar nos dias atuais.


Yuri Tomé Ribeiro tinha apenas dois anos e três meses quando desapareceu. Filho de Maria Sueli Tomé Ribeiro e de Severino de Lima Cardoso, separados há 9 anos na época do ocorrido, Yuri foi levado de dentro da sua casa em 4 de janeiro do ano 2000. A família morava ao lado da casa de Moisés, no bairro do Planalto.- Yuri vivia com a mãe, Maria Sueli, com a irmã mais velha de 14 anos, que não foi identificada nos documentos oficiais, e com sua tia, Eva, em um dos barracos precários da região.

Naquela madrugada de janeiro, Maria Sueli acordou por volta da uma da manhã para alimentar o filho e trocar sua fralda, já que Yuri despertava religiosamente a cada duas horas durante a noite. Por volta das três da manhã, ela despertou novamente, quase no automático. Mas, dessa vez, a criança não estava mais ali. Yuri havia sido levado nu, e suas roupas permaneciam no mesmo lugar, ao lado da cama. Maria Sueli entrou em completo estado de desorientação. O nervosismo era tanto que ela precisou da ajuda da irmã, Eva, para conseguir se levantar e começar a procurar por Yuri nos arredores da casa.

Depois de vasculharem tudo sem encontrar qualquer sinal do menino, surgiu uma hipótese desesperada: talvez Severino, pai de Yuri, tivesse levado a criança durante a noite, sem avisar ninguém. Ao ser informado do desaparecimento do filho, Severino montou em um cavalo e percorreu as ruas do Planalto em busca de pistas. Pouco tempo depois, voltou chorando, de mãos vazias. Nada havia sido encontrado.

Foi só então que a família decidiu procurar a Delegacia de Satélite, a mesma que havia sido procurada no caso de Moisés. E, assim como antes, o policial de plantão afirmou que não havia nada a ser feito, dessa vez orientando que buscassem a delegacia da Candelária.- A família seguiu, então, de carroça até a Delegacia da Candelária. Lá, recebeu uma resposta que beirava o absurdo: o caso deveria ser atendido justamente pela Delegacia de Satélite.

Além da inércia das autoridades policiais, da proximidade entre as casas e da pouca diferença de idade entre as vítimas, o caso de Yuri apresentava ainda uma semelhança inquietante com o desaparecimento de Moisés: o tio de Yuri criava cães de raça no quintal da casa de Maria Sueli, e a cadela que fazia a guarda da família não latiu, não reagiu, não alertou ninguém na noite em que a criança foi levada. Quando a família percebeu o sumiço de Yuri e foi verificar o animal, encontrou a cadela abatida, doente e estranhamente silenciosa. Três dias depois, ela também estava morta. Questionada, também na CPI, sobre possíveis suspeitos, Maria Sueli tinha apenas uma única: Sandra. Atualmente, Yuri teria 28 anos de idade.


Yuri Tomé Ribeiro


Gilson Enedino da Silva tinha um ano e três meses de idade. Ele era cuidado pela avó, Maria Enedina da Silva, na mesma casa onde vivia também a tia Janaína, ainda criança. A mãe de Gilson tinha uma deficiência, e por isso o menino foi criado pela avó desde muito pequeno, não como um neto, mas como um filho. Assim como acontecia na casa de Moisés, Maria Enedina costumava colocar as crianças para dormir em redes, penduradas acima da sua própria cama.

No dia 10 de abril de 2000, ela estava no quintal, enchendo vasilhas com água por meio de um cano ligado a uma mangueira externa. O processo era lento: a casa ficava na parte mais alta do bairro, e a água demorava a chegar. Enquanto realizava essa tarefa, Maria Enedina brincava com as crianças. Minutos depois, porém, foi tomada por uma tontura repentina. Sem perceber, acabou adormecendo. Mas, antes disso, viu um homem colocando a cabeça para dentro de sua casa segurando uma serrinha. Ao acordar novamente às 3h, Maria Enedina encontrou a rede de Gilson vazia.

Para a CPI, Maria Enedina disse:


“Aí pulei, aí olhei para um lado, para outro, pelo amor de Deus, acorde minha gente que meu menino não está não. Aí eu olhei debaixo de cama, olhei para o redor do barraco, que eu morava num barraco no pé do morro, perto do lixão, para todo canto, aí dei um grito. Fui fazendo isso e fui dando mão a um facão. E aí corri para um orelhão. Quando cheguei no orelhão telefonei para a polícia. Aí chegou um carro da polícia de Candelária. Aí disse: vamos lá na delegacia dar queixa. Não, vamos primeiro dar uma corra por aí, em torno do lixo, talvez tiraram meu menino e fugiram com ele. Aí ele disse: “Não, vamos primeiro na delegacia.” Aí nós fomos. Cheguei lá, prestei queixa, eles vieram, me deixaram no meu barraco e voltaram. Então, eu passei a noite todinha procurando pelos pés do morro, por tudo quanto era canto, com o facão na mão, uma foicinha e uma faca. Porque o que eu encontrasse na frente, fazia alguma coisa. Só que eu não encontrei nada. Até hoje eu sinto isso dentro de mim, esperando um dia, qualquer momento esse garoto chegar. Eu ainda tenho esperança, se Deus quiser, dessa criança aparecer, porque ali era a minha companhia, era o meu brinquedo, bem dizer, era coisa da minha vida, era meu neto, que eu tinha como um filho, eu criava com o maior amor.”


Maria Enedina passou o restante da noite e os dias seguintes procurando sozinha, sem dormir, percorrendo o pé do morro, o lixão, ruas, terrenos e delegacias. Ela afirma que não viu nenhuma investigação efetiva por parte da polícia, com exceção do delegado Elói, de Felipe Camarão, que investigou o caso junto à delegacia de polícia de Satélite. Mais tarde, Maria Enedina teria dito que o homem que enxergou entrando em sua casa antes que caísse no sono era Tomaz, um adolescente de 16 anos, líder de uma gangue de adolescentes problemáticos do bairro, que foram posteriormente assassinados enquanto organizavam uma investigação clandestina sobre o desaparecimento das crianças.- Atualmente, Gilson teria 26 anos de idade.


Gilson Enedino da Silva


A última criança a desaparecer foi Marília da Silva Gomes, de 2 anos, filha de Marcileide Enedino da Silva, em dezembro de 2001, durante a madrugada de uma quinta para sexta-feira.- Naquela noite, Marcileide voltou da casa da mãe por volta das dez horas. Marília estudava no CAIC, no berçário da creche, e a rotina das duas era sempre a mesma: a menina só dormia depois de mamar. Normalmente, tomava três mamadeiras de mingau ao longo da madrugada.

Naquela noite, entre duas e meia e três horas da manhã, Marcileide deu apenas duas mamadeiras. A terceira ficaria para o dia seguinte, antes de saírem para a creche. Em seguida, ela adormeceu. Marcileide só acordou às oito da manhã, um horário completamente fora do comum para quem estava habituada a despertar todos os dias às quatro. Segundo ela, abriu os olhos já com a certeza de que algo havia acontecido com Marília. Sem trocar de roupa, ainda de camisola, correu direto para a Delegacia do Satélite. Lá, registrou a ocorrência. Os policiais chegaram a ir até a casa, fizeram buscas, mas não encontraram absolutamente nada.

Desde o início, Marcileide aponta um nome: Dederô. Segundo ela, Dederô frequentava sua casa, tinha contato com pessoas da região e pedia insistentemente por Marília. Chegou a dizer que sua esposa não podia ter filhos e a insistir que a menina deveria ficar com ele. Naquelas ocasiões, Marcileide havia sido categórica: “Meus filhos eu só dou a Deus.” Em uma ocasião, durante uma festa, Dederô voltou a pedir a criança. Disse que conhecia uma médica que precisava de uma criança, e que a menina teria uma vida melhor se fosse entregue para outra família. Marcileide recusou todas as vezes. Pouco tempo depois, Marília desapareceu.

Após o desaparecimento de Marília, Marcileide afirma que nunca mais viu Dederô no bairro do Planalto. Segundo ela, pessoas próximas a ele, como Barão e Seu Horácio, foram assassinadas na própria região. Já Dederô, que antes não tinha recursos, teria passado a levar uma vida confortável em outro bairro. Marcileide levou essas suspeitas à polícia, por meio do delegado Maurílio Pinto. O que ouviu, no entanto, foi um diálogo que ela jamais esqueceria:


”Olha, a gente não tem recurso para isso. A gente conhece o Dederô, é velho conhecido da gente, e a gente já conhece ele. Ele já roubou cavalo”. Eu disse: “Mas Seu Maurílio, quem rouba um cavalo rouba uma criança!” Aí ele disse: “Não, mas não foi ele não, porque ele não ia se ocupar em roubar uma criança”.


Coincidência ou não, após a saída de Dederô do Planalto, nenhuma criança nunca mais foi raptada na região.- O caso de Marília possui um capítulo ainda mais triste. Em 2002, o delegado Francisco Quirino prometeu à mãe de Marília que o caso estava próximo de ser solucionado, chegando a dizer “Marcileide, se eu não entregar sua filha hoje, você pode mandar cassar minha farda e eu deixo de ser delegado.” Marcileide chegou a comprar roupas novas e um laço de cabelo para receber a filha, tamanha segurança passada pelo policial naquele momento.

Segundo o delegado, Marília estaria sendo mantida em uma chácara próximo ao rio do sangue, a menos de 6km do bairro do Planalto, e já havia um cerco programado para o seu resgate. Contudo, naquele mesmo dia, o delegado Francisco Quirino foi transferido para a Delegacia da Praia da Pipa e nunca prestou qualquer explicação à mãe de Marília, que havia usado o pouco dinheiro que tinha para comprar as roupinhas.- Sobre esse episódio, Iene Lopes Ferreira, uma das representantes do bairro do Planalto, conta que chegou a encontrar o delegado em outra ocasião e a questioná-lo sobre isso, tendo o delegado respondido que foi ameaçado de morte para desistir do caso.- Atualmente, Marília teria 26 anos de idade.


Marília da Silva Gomes


Arlete Cury Mahs, a mesma mulher que dava sacolões para Sandra, envolvida no desaparecimento de Joseane, era conhecida pela filantropia que envolvia as famílias do lixão e pelo alto número de crianças que moravam e frequentavam a sua casa. Arlete era brasileira, mudou-se para Los Angeles na década de 70 e estudou psicologia, tendo se tornado Doutora em Psicologia, professora e especialista em combate ao terrorismo, além de ter casado com o americano Jeffrey Alan Preuss, piloto de aviões.

Apesar de toda a formação na área da saúde, Arlete era diretora de uma empresa de eficiência energética, a Guardian, que prestava serviço de redução de consumo de energia elétrica em prédios e condomínios. Segundo ela, os rendimentos da empresa eram voltados 100% para trabalhos filantrópicos com crianças, e seu sustento pessoal advinha de suas aulas. Arlete inclusive possui um filho adotado nos anos 2000, de um dos lixões em que realizava filantropia, na mesma época em que as crianças do planalto desapareceram.

Três semanas depois do desaparecimento de Gilson, Maria Enedina, sua avó, estava no ponto de ônibus quando iniciou uma conversa sobre o desaparecimento das crianças com uma desconhecida, sem avisar que se tratava da avó de uma das vítimas. Na ocasião, a desconhecida teria dito que sabia de uma casa onde haviam várias crianças muito magras, mal cuidadas, todas sob a tutela de uma professora.- Maria Enedina relatou o fato ao delegado Elói Carvalho Xavier, da delegacia de Satélite. A autoridade policial dirigiu-se imediatamente ao local para investigar; contudo, ao identificar o imóvel como sendo de Arlete, constatou que a casa já se encontrava vazia.

Segundo Maria Enedina, o Dr. Elói procurou Arlete e as crianças no aeroporto da cidade, mas também não encontrou nada. Acontece que Arlete de fato tinha uma viagem marcada, e teria adiado as passagens para São Paulo para o dia seguinte. O Dr. Luis Heleno, delegado de fato responsável pelo caso, brigou com o Dr. Elói por se envolver em um caso que não era seu e convocou Arlete para prestar depoimento na delegacia.- Acontece que, por já possuir viagem marcada, Arlete não compareceu à delegacia e deixou um número de telefone caso precisassem contato imediato com ela. Em 06 de maio de 2000, Arlete Cury Mahs deixou o Planalto com sete crianças não identificadas a tiracolo em direção à São Paulo. Quando a delegacia enfim ligou para o telefone deixado por ela, este era falso.

Durante as investigações, Arlete e Jeffrey foram assistidos pela advogada Ariane dos Santos, a mesma defensora de Marcos Herbas Camacho, conhecido como Marcola do PCC. Em 2012, o delegado Elói prestou depoimento da CPI das Crianças Desaparecidas, onde falou que a última informação que sabia sobre Arlete é que ela estaria morando com o marido, o americano Jeffrey Allan Preuss, no interior de São Paulo. Na ocasião, o delegado se queixou muito de ter sido expulso do caso, deixando bem claro que não foi permitido que se aproximasse da investigação novamente. Em 2014, a polícia descartou suspeitas sobre o casal depois de constatarem que a viagem realizada com sete crianças logo após o desaparecimento de Gilson, em maio de 2000, foi feita com o acompanhamento dos pais delas.


Arlete Cury Mahs


Vocês já devem ter visto no mercado que as caixas de leite Piracanjuba agora trazem em sua lateral o destaque para uma pessoa desaparecida e a reconstrução, com inteligência artificial, de como ela deve aparentar hoje em dia. Trata-se do Projeto Piracanjuba Desaparecidos, realizado junto com a Associação Mães da Sé, instituição que ajuda famílias na busca por seus entes desde 1996. O projeto teve início em outubro de 2024 e desde então já divulgou 19 desaparecidos e foi responsável por encontrar 8 pessoas.


Projeto Piracanjuba Desaparecidos


• FONTES: TJRN - Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte, G1, Café com Crime.

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