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  • Foto do escritorRodolfo Brenner

#23 - Nicholas Barclay e o Impostor | DESAPARECIDOS

O desaparecimento de um parente é uma das maiores dores que uma família pode enfrentar, afinal, a dúvida do que aconteceu com essa pessoa é uma constante: estaria viva ou morta? Fugiu ou foi raptada? Essa foi a situação em que se encontrava a família de Nicholas Barclay, que desapareceu misteriosamente em 1994. Mas, de repente, ele voltou. Era para ser um momento de festa. Mas ele voltou muito estranho. Não parecia Nicholas, parecia uma outra pessoa.


Essa é a versão escrita do episódio #23 - Nicholas Barclay e o Impostor:



Nicholas Patrick Barclay nasceu em San Antonio, Texas, no dia 31 de dezembro de 1980. Ele era filho de Beverly e de um pai que não teve seu nome divulgado. Ele tinha dois meios-irmãos: Jason e Carey. Ele era branco, tinha os cabelos loiros-escuros e olhos azuis, e na época do caso ele tinha 13 anos e seus familiares chamavam ele de Nicky.

Nicholas era rebelde e temperamental, mostrava muita agressividade quando brigava com alguém, principalmente com a mãe. Quando era contrariado, o garoto saía de casa e chegava a ficar um ou dois dias fora. Para tentar diminuir esse comportamento, Beverly pediu para que Jason fosse morar com eles, mas segundo relatos, isso piorou ainda mais porque Jason era tão agressivo quanto ele. Ele também tinha ficha criminal, com acusações por ameaça, invasão e roubo. Mais de uma vez ele chegou em casa acompanhado da polícia. Nicholas era muito fã de Michael Jackson, colecionava todos os discos e tinha uma jaqueta de couro vermelha que lembrava a do videoclipe Thriller. Uma curiosidade: com 13 anos ele já tinha 3 tatuagens.

A família Barclay era bastante disfuncional, e a polícia foi chamada diversas vezes por causa das brigas. Beverly usava heroína enquanto Jason era viciado em cocaína.


Nicholas mostrando uma de suas tatuagens


No dia 10 de junho de 1994, Nicholas, saiu para ir até uma quadra de basquete que ficava aproximadamente 1km e meio da casa dele para encontrar um grupo de amigos. Eles ficaram no local até o pôr do sol, quando os amigos foram embora e deixaram ele sozinho. Nicholas então ligou para casa de um telefone público para pedir que alguém fosse buscá-lo. Quem atendeu foi Jason, que repreendeu o garoto por ligar na hora que sua mãe estava dormindo antes do turno da noite em uma loja da franquia Dunkin' Donuts. Jason disse para o irmão vir andando, porque ele não queria acordar a mãe com o barulho do carro. O telefonema foi a última notícia de Nicholas.

Assim que o Nicholas não voltou, a família pensou que ele tinha fugido de casa, como já tinha acontecido anteriormente. Inclusive a primeira coisa que a família pensou foi que ele estava tentando fugir de uma audiência marcada no dia 14 de junho, na qual um juiz decidiria se ele continuava morando com a família ou iria para um abrigo para jovens infratores. Mas a família achou estranho porque, diferente das outras vezes, ele não levou uma mala com roupas e nem o dinheiro que ele guardava.

3 dias depois, entendendo que essa vez era diferente das demais, a mãe relatou o desaparecimento. Por causa do histórico de fuga, a polícia não levou o caso muito a sério. Quanto desapareceu, Nicholas estava vestindo calças roxas e uma mochila rosa. Depois de alguns dias, quando finalmente resolveram investigar, a polícia não conseguiu encontrar nenhuma testemunha ou filmagem de câmera de segurança que tinha visto o garoto.

A primeira pista só apareceu 3 meses depois, quando Jason ligou para a polícia para relatar que alguém tinha tentado invadir a garagem da família, e ele acreditava que era o irmão. Os policiais checaram a garagem, mas não encontraram nenhum sinal de Nicholas ou de arrombamento. A casa dos Barclay nunca foi um ambiente calmo, mas o desaparecimento de Nicholas fez muito mal para a família: tanto a mãe quanto o irmão se afundaram ainda mais nas drogas.


Os irmãos de Nicholas: Carey e Jason


Em outubro de 1997, o departamento de polícia de San Antonio recebeu um telefonema: do outro lado da linha, um policial da cidade de Linares, na Espanha. Ele disse que haviam encontrado um jovem vagando pela cidade, assustado, que foi levado para um abrigo juvenil local. Quando as autoridades perguntaram sobre sua identidade, ele tinha muita dificuldade em se comunicar em espanhol e parecia não se lembrar de quem era. Depois de algum tempo, eles conseguiram obter um nome e um local de nascimento dele: o jovem disse que se chamava Nicholas Barclay, desaparecido desde 1994.

Os policiais de San Antonio ligaram para a casa de Nicholas e passaram as informações para Carey. Ela ligou para o abrigo e ficou muito emocionada em falar com o irmão, porque a família já tinha perdido as esperanças de encontrá-lo vivo.

Enquanto isso, a polícia da Espanha tentava tirar novas informações para entender como Nicholas havia saído do Texas e ido parar em um lugar à 8000 km de distância. Com muita dificuldade, ele contou que havia sido sequestrado por um grupo de militares e vendido como escravo sexual. Ele conseguiu escapar quando um dos guardas deixou uma porta destrancada. Ele fugiu para o mais longe que conseguiu até chegar em Linares.


Distância entre San Antonio e Linares


Nos Estados Unidos, o patrão de Carey ficou comovido com a história e se ofereceu para comprar a passagem dela para buscar o irmão. Quando ela chegou ao abrigo, Nicholas se trancou no banheiro e se recusava a sair, dizendo que estava nervoso demais. Depois de algumas horas, ele saiu do banheiro e ficou cara a cara com a irmã, que na mesma hora reconheceu Nicholas. Depois de 3 anos ele estava mais velho, usava boné, óculos escuros e cachecol.

A polícia pediu para que ela deixasse o irmão mais confortável, então Carey começou a mostrar álbuns de fotos da família para que ele se lembra-se dos parentes, mas o garoto não dizia uma palavra. - Depois de muito tempo, ele perguntou: “O vovô ainda é um idiota?”. Para Carey essa foi a prova definitiva que era Nicholas. Ela ligou para casa e informou que realmente era ele e que levaria o irmão para casa. Os dois tiveram ajuda do consulado dos Estados Unidos na Espanha para emitir os documentos que precisavam e embarcaram de volta para o Texas.

Quase toda a família Barclay foi receber Nicholas no aeroporto, com exceção de Jason. Eles gravaram o momento em vídeo: todos estavam muito felizes, especialmente a mãe. Nicholas foi morar com Carey e seu marido em Spring Branch, uma área a cerca de 56 km de San Antonio. Ele iria dormir no quarto do filho do casal. A irmã e o cunhado levaram vários objetos que eram do garoto como brinquedos, roupas e cartões de beisebol.


Nicholas e Beverly no aeroporto


Todos já esperavam que o processo de ressocialização do garoto não seria fácil. Aos poucos ele começou a contar dos horrores que sofreu na Europa: a rede de pedofilia era grande e articulada; ele era abusado sexualmente e espancado como punição por diversas coisas, como falar outro idioma além do francês. Ele foi obrigado a se virar e aprender francês com outros garotos. Depois de tanto tempo sem falar inglês, ele sentia que não conseguia mais falar sem sotaque francês. Para evitar o reconhecimento dele, pintaram seu cabelo e usaram um produto químico para mudar a cor dos seus olhos de azul para castanho.

No início, Nicholas estava com dificuldades de interação e começou a apresentar episódios de automutilação, e foi preciso a ajuda de um psiquiatra. Ele foi entrevistado por uma agente do FBI chamada Nancy Fisher, que queria descobrir mais sobre a rede de pedofilia que tinha sequestrado o garoto. Depois de um tempo ele começou a se recuperar, conseguiu voltar para a escola e fazer alguns amigos. Um episódio marcante foi quando toda a família foi até a igreja, depois de anos afastados, para agradecer pela volta de Nicholas.


A agente do FBI Nancy Fisher


Cerca de um mês após seu retorno, um programa de TV chamado Hard Copy ficou sabendo da história e tentou marcar uma entrevista com a família. Os produtores contrataram um investigador chamado Charlie Parker para ajudar na investigação do sequestro. Charlie entrou em contato pessoalmente com a família Barclay, que inicialmente não queria que o irmão falasse com a imprensa com medo de que traumas fossem desenterrados. Para a surpresa de todos, o próprio Nicholas disse que queria contar a sua história.

A equipe de produção instalou câmeras na sala da casa e gravaram a matéria. Charlie Parker disse que o garoto estava muito calmo, não demonstrava nada. Duas coisas chamaram a atenção de Charlie: o sotaque francês de Nicholas e uma foto do garoto de quando ele tinha 13, que era muito diferente do Nicholas atual. Charlie sussurrou para o cinegrafista que desse um zoom nas orelhas de Nicholas, e depois que a entrevista acabou, ele escondeu pegou uma foto dele e escondeu no bolso. Quando chegou no escritório, Charlie escaneou a imagem em seu computador e comparou com a filmagem. Para ele, as orelhas eram diferentes e aquele não era o Nicholas.


A entrevista de Nicholas (legendado em espanhol)


Quanto a história do sotaque, Charlie conversou com o psiquiatra que estava acompanhando o garoto, e ele comentou que também achava estranho que Nicholas tivesse perdido a capacidade de falar da maneira que falou nos primeiros 13 anos de sua vida. Charlie também conversou com um especialista em dialeto da Trinity University que confirmou que era impossível alguém adquirir um sotaque estrangeiro ao falar a língua materna. Ele conversou com um tio de Nicholas, que concordava que seu sobrinho estava muito estranho desde o seu retorno. Por fim, ligou para vários oftalmologistas e perguntou se era possível mudar a cor dos olhos por meio de alguma substância química, e todos disseram que não. Hoje até existe uma cirurgia para mudar a coloração da íris, mas não naquela época.

Charlie passou a seguir Nicholas quando ele saía de casa para visitar a sua mãe em San Antonio. Quanto mais ele via o garoto, mais tinha certeza de que tinha algo muito errado com aquele garoto. Por causa disso, resolveu que era melhor chamar as autoridades, e levou o caso para o FBI.

Charlie Parker


Depois disso, o estado mental de Nicholas piorou: ele parou de frequentar a escola, roubou o carro da irmã foi para Oklahoma. No caminho, foi preso por excesso de velocidade e levado de volta para casa. Depois, a irmã o encontrou cortando o próprio rosto com uma navalha de barbear, e a família resolveu internar o garoto em uma ala psiquiátrica, onde passou alguns dias até ser liberado.

A família foi procurada novamente pela investigadora Nancy Fisher, e ela pediu a permissão de Beverly para fazer um teste de DNA com Nicholas. A resposta da mãe foi negativa porque ela tinha medo de que o filho fosse tirado dela novamente. Em fevereiro de 1998, a agente Fisher voltou com um mandado para a obtenção de impressões digitais e uma amostra de sangue.

Alguns dias depois, Charlie Parker recebeu um telefonema de Beverly sobre Nicholas. Ele marcou um encontro com o adolescente em um restaurante em San Antonio. Parker quis conversar sobre Beverly, mas ele respondeu:

- Ela não é minha mãe e você sabe disso.

O investigador perguntou:

- Você vai me dizer quem você é?

E ele respondeu:

- Sou Frédéric Bourdin e sou procurado pela Interpol.

Aquele não era Nicholas, era um francês de 24 anos que tinha roubado a sua identidade.


Frédéric Bourdin, o impostor


Frédéric Bourdin nasceu em 13 de junho de 1974 em Nanterre, na França. Filho de Ghislaine Bourdin, ele nunca conheceu o pai, que segundo informações era um imigrante argelino e era casado quando se envolveu com a mãe dele. Ghislaine criou Frédéric até os 2 anos e meio, quando o serviço social retirou a guarda dela e entregou para os avós. Ghislaine teve o filho com apenas 18 anos, e foi descrita como um pouco desajustada: ela bebia muito, passava a noite fora de casa e deixava o filho sozinho. Quando Frédéric tinha 5 anos ele foi com os avós para Mouchamps, uma vila a sudeste de Nantes.

Frédéric contou que viu a mãe pouquíssimas vezes, que ela tinha uma necessidade extrema de atenção e fingia quadros de doença mortal para chamar a atenção dele e de outras pessoas. Mais tarde ela chegou a escrever uma carta para ele: “Você é meu filho, mas me foi roubado quando tinha 2 anos. Fizeram de tudo para nos separar, e viramos dois estranhos.”

Quando ele começou a frequentar a escola, inventava muitas histórias ao seu respeito, inclusive que que seu pai nunca aparecia porque era um agente secreto a serviço da Inglaterra. Todos se lembram dele como uma criança muito alegre e que tinha uma imaginação muito fértil. Com o passar do tempo o comportamento do garoto foi mudando: ele mentia muito, desobedecia aos professores e começou a cometer pequenos furtos. Quando ele tinha 12 anos, mandaram ele para um internato para jovens delinquentes, e lá ele fingia ter episódios de perda de memória.

Quanto ele tinha 16 anos, foi transferido para outra instituição e acabou fugindo para Paris. Ao ser abordado por um policial, ele disse que era um jovem inglês chamado Jimmy Sale e que estava perdido. Acabou que ele a mentira não colou e mandaram ele de volta para o internato. Depois que fez 18 anos e ficou livre, ele passou a adotar identidade atrás de identidade, indo até para outros países da Europa. Sempre que era descoberto, dava a mesma resposta: só queria amor e uma família. Dentro da França ele já estava um tanto conhecido, chegando até a participar de um programa de televisão para contar sobre as suas identidades. Ele ficou conhecido como “O Camaleão de Nantes” e já tinha uma longa ficha criminal.

A pergunta é: como um francês de 24 anos conseguiu se passar por um adolescente americano de 13 ao ponto de ser levado até os Estados Unidos e conviver com a família do verdadeiro Nicholas?


Frédéric quando era mais novo


Em outubro de 1997, Frédéric tinha conseguido se passar por um adolescente e estava no abrigo em Linares, na Espanha. A juíza que cuidava do seu caso disse que ele tinha 24 horas para provar quem ele era, ou tiraria suas digitais. Isso era um problema para ele, pois as suas digitais estavam cadastradas no sistema da Interpol. Ele conseguisse convencer a juíza de que era americano e pediu para usar o telefone do abrigo. Ele ligar para o Centro Nacional de Crianças Desaparecidas e Exploradas dos Estados Unidos, dizendo que se chamava Jonathan Durean e era diretor do abrigo de Linares.

Ele contou que havia aparecido um menino desconhecido que falava inglês e tinha sotaque americano. Ele deu uma descrição mais ou menos parecida com a sua – baixo, magro, queixo proeminente, cabelos castanhos – e perguntou se havia alguém parecido na base de dados do centro. A pessoa que atendeu disse que poderia ser um tal de Nicholas Barclay, de 13 anos, desaparecido desde 1994 em San Antonio, no Texas. O Centro disse que mandaria por fax a cópia da ficha de Nicholas. Quando chegou, Frédéric não conseguiu ver muito bem se eles eram parecidos, porque a foto não estava muito nítida. Mesmo assim, ligou de volta para os Estados Unidos e disse que Nicholas Barclay estava na Espanha.

Alguém passou o número do detetive da polícia de San Antonio encarregado do caso de Nicholas, e Frédéric conversou com ele fingindo ser um policial espanhol. O policial disse que entraria em contato com o FBI e a embaixada americana em Madri para enviar mais informações. No outro dia, ele recebeu um envelope remetido pelo Centro Nacional de Crianças Desaparecidas e Exploradas dos EUA com uma cópia nítida da ficha de Nicholas, e percebeu que na verdade eles eram bem diferentes. Frédéric então precisou improvisar: oxigenou o cabelo e pediu para um amigo improvisar uma tatuagem que Nicholas tinha na mão com uma agulha de costura e tinta de caneta.

Quando Carey mostrou as fotos de família, ele se familiarizou com todos os rostos e nomes que precisava. Depois que chegou nos Estados Unidos, ele passou a estudar todo o material da família Barclay, fotos, vídeos e relatos, incorporando cada detalhe na sua farsa.


O passaporte de Frédéric já se passando por Nicholas


Com todas as provas de sua investigação, Charlie Parker entrou em contato com a família e disse que aquele garoto que estava morando com eles não era Nicholas, mas Beverly se recusava a acreditar. Ele contou em entrevista que recebeu um telefonema de Frédéric, que em tom muito irritado perguntou: “Quem você pensa que é?”. Ele respondeu dizendo que não acreditava que ele fosse Nicholas, e ele devolveu dizendo: “O governo acha que sou. A família acha que sou.”

Charlie até pensou em deixar as coisas como estavam, que talvez ele estivesse errado sobre Nicholas e que qualquer mãe seria capaz de reconhecer o próprio filho, mas ele pensou que as intenções daquele impostor poderiam ser mais sérias e resolveu continuar com a investigação.

Depois que Frédéric confessou que não era Nicholas, Charlie ligou para a agente Fisher e comunicou a descoberta. Ela tinha acabado de receber a mesma notícia da Interpol e estava tentando conseguir um mandado de prisão. Frédéric contou para ele como assumiu a identidade de Nicholas, e ele foi anotando cada detalhe. Parker o levou até o apartamento que Beverly estava morando e logo ele foi preso por Nancy Fisher e outros policiais. Beverly reagiu a prisão perguntando: “Por que vocês demoraram tanto?”.


Beverly Dollarhide


Mas afinal, o que aconteceu com o verdadeiro Nicholas? Esse é um mistério ainda sem resposta. Charlie Parker fez algumas buscas e descobriu algumas coisas relevantes sobre o meio-irmão, Jason: ele era bastante solitário e tinha muitas dificuldades em conhecer pessoas. Ele também tinha uma cicatriz de queimadura no rosto, que o deixava ainda mais envergonhado.

Charlie Parker descobriu vários relatórios da polícia sobre chamadas policiais na casa dos Barclay depois do desaparecimento de Nicholas: no dia 12 de julho, a polícia foi ao local e Jason disse que sua mãe estava “bebendo e gritando com ele porque o filho dela tinha fugido de casa”.

Algumas semanas mais tarde, Beverly chamou a polícia e disse que ela e Jason brigaram e trocavam insultos, inclusive pediu a Jason que passasse um dia inteiro fora de casa. O comportamento de Jason foi ficando cada vez pior, e ele chegou a ser detido por agredir um policial e foi colocado para fora de casa pela mãe. Segundo a família, o desaparecimento de Nicholas deixou Jason profundamente perturbado, se culpando por não ter buscado o irmão naquele dia.

No final de 1996, Jason se internou em uma clínica de reabilitação e conseguiu se afastar das drogas. Ele permaneceu no local atuando como conselheiro e trabalhando para a empresa de jardinagem operada pela clínica. Frédéric contou para Charlie que desconfiava que Jason tinha feito algo com Nicholas: Jason foi o único membro da família que não foi buscá-lo no aeroporto, não foi visitá-lo nas primeiras semanas e o olhava com desconfiança. Ele também desconfiava da mãe, Beverly, lembrando de um episódio em que ela estava muito bêbada e acabou gritando para ele: “Eu sei que Deus me castigou mandando você para cá. Não sei quem você é. Por que está fazendo isso comigo?”


Frédéric Bourdin se passando por Nicholas em 1997


Jack Stick foi o procurador responsável pelo caso junto com Nancy Fisher. Os dois queriam entender alguns pontos: porque Beverly teria resistido às tentativas do FBI de investigar o suposto sequestro de Nicholas, porque ela demorou para entregar o impostor se ela sabia que não era ele, e porque ela não levou o próprio filho para morar com ela assim que ele chegou. Segundo Carey, Beverly disse que a presença de Nicholas era “perturbadora demais”.

Nancy Fisher e Jack Stick também desconfiavam da suposta invasão da garagem, e que poderia ser uma tentativa de Jason de reforçar a ideia de que Nicholas tinha fugido de casa. Eles também descobriram que funcionários da escola de Nicholas alertaram o serviço de proteção a menores por causa de manchas suspeitas em seu corpo, que poderia indicar maus-tratos.

A agente Fisher pediu para que Beverly se submetesse a um detector de mentiras, e a ideia foi reforçada por Carey, que acreditava que isso livraria a mãe de qualquer suspeita. Uma das perguntas do teste foi se ela sabia onde Nicholas estava naquele momento, ela respondeu que não, e o resultado foi interpretado como verdadeiro. A agente Fisher desconfiou que ela poderia estar sobre o efeito de alguma droga relaxante e o teste foi refeito horas depois, mas dessa vez ela falhou na mesma pergunta.

Quando foi informada que tinha falhado, Beverly disse que não precisava aturar aquilo e tentou correr para fora do prédio. Nancy foi atrás dela e perguntou por que ela estava indo embora daquele jeito, e ela respondeu: “É típico mesmo do Nicholas, olhe só o inferno que ele está me fazendo atravessar”. Nancy também quis entrevistar Jason, mas ele negou, só comparecendo semanas depois para dar um depoimento, que foi bem vago.

Os dois suspeitavam que mãe e filho sabiam o que tinha acontecido com Nicholas, mas não tinham nenhuma prova para mantê-los sob custódia. Depois disso, Jason não falou mais com a polícia. Charlie Parker também acreditava que Jason tinha algo a ver com o desaparecimento do irmão, e em um encontro na casa da família ele chegou a acusá-lo dizendo “Acho que foi você”. Jason não respondeu, apenas ficou encarando o investigador. Um tempo depois, ele ficou sabendo através de Beverly que Jason tinha morrido de overdose. Depois de perder dois filhos, Beverly parou de usar drogas e se mudou para Spring Branch para morar perto de Carey.


Progressão de idade de Nicholas Barclay com 26 anos


No dia 9 de setembro de 1998, Frédéric Bourdin foi levado a julgamento num tribunal de San Antonio e se declarou culpado dos crimes de perjúrio e posse de documentos falsos. A sua defesa disse que ele estava apenas à procura de amor e começou uma história que foi longe demais.

Uma das testemunhas de acusação foi Carey, que disse em tribunal: “Ele mentiu e continua mentindo até hoje. Ele não sente remorso.” Beverly também depôs: “Sinto pena dele. Acabamos conhecendo bem o rapaz e sabemos que ele passou por um verdadeiro inferno”. O juiz o condenou a seis anos de detenção. Frédéric pediu desculpas e antes de ser preso disse que era um prisioneiro dele mesmo.


Foto de Frédéric na prisão


Ele saiu da prisão em outubro de 2003 e foi deportado para a França. Lá ele chegou a assumir mais identidades, mas sempre foi descoberto. Ele foi avaliado por um psiquiatra e foi descrito como um “serial impostor”. No total, ele assumiu mais de 500 personalidades durante seu período de atividade. Em agosto de 2007, Frédéric se casou com uma mulher chamada Isabelle. O casal morava na França e tinha cinco filhos. Aparentemente eles se separaram em 2017, e inclusive foi ele que ficou com a guarda dos filhos.

Muitos materiais já foram feitos baseados no caso de Frédéric e também sobre o desaparecimento de Nicholas: um episódio da série Law & Order: Special Victims Unit, o filme “The Chameleon” lançado em 2010 e também um documentário chamado “The Imposter”, que conta com entrevistas de Frédéric, Nancy Fisher, Charlie Parker e alguns membros da família, incluindo Carey e Beverly.

No final do documentário, Charlie Parker, com a ajuda dos novos donos da casa onde a família Barclay morava, fez uma busca no jardim da casa para tentar encontrar algo enterrado, mas não acharam nada. Infelizmente o caso de Nicholas foi arquivado por falta de evidências.


Poster do documentário "O Importor" de 2012


• FONTES: Piauí, The Charley Project, Grunge, The New Yorker, BBC, The Imposter, The Casual Criminalist, KSAT.com, All That's Interesting.

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