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  • Foto do escritorRodolfo Brenner

#79 - Irmãos Sodder: Desaparecidos no Fogo | DESAPARECIDOS

Os Sodder eram uma típica família americana antiga, cheia de filhos e com a esperança de um futuro melhor após a Segunda Guerra. No natal de 1945, um incêndio misterioso atinge a casa da família, e dos dez filhos, somente cinco escaparam com vida. Entretanto, quando os pais vão buscar pelos restos mortais, não encontram nada. O que teria acontecido com as crianças?


Essa é a versão escrita do episódio #79 - Irmãos Sodder: Desaparecidos no Fogo.



Giorgio Soddu V nasceu em 23/11/1895 na comuna de Tula, região da Sardenha, no sudoeste da Itália. Quando ele tinha 13 anos, ele imigrou para os Estados Unidos junto com um irmão mais velho. Pouco tempo depois de terem chegado em Nova york, esse irmão decidiu voltar para a Itália, deixando Giorgio sozinho. Ele arrumou um emprego em uma ferrovia na Pensilvânia onde ficou até conseguir um emprego como motorista e se mudar para Smithers, West Virginia. Após anos juntando dinheiro, ele abriu sua própria empresa de transporte, tornando-se um homem bem sucedido ainda muito cedo.

Em Smithers, Giorgio conheceu uma moça chamada Jennie Cipriani, que era filha de imigrantes que tinham uma loja na cidade. Os dois acabaram se casando e Giorgio Soddu mudou seu nome para George Sodder, sobrenome que foi adotado pela esposa. Após o casamento, eles se mudaram para a vila de Fayetteville, que era conhecida por ter vários imigrantes italianos. No total, o casal teve 10 filhos: John (22), Joseph (21), Mary Ann (19), George Jr. (16), Maurice (14), Martha (12), Louis (10), Jennie (8), Betty (6) e Sylvia Ann (2). Poderia ser a linda história de uma grande família, se não fosse o grande mistério que cerca o destino dos Sodder e que já dura quase 80 anos.


Smithers, West Virginia


Na véspera do natal de 1945, a família Sodder fez uma ceia, após a refeição, a filha mais velha, Mary Ann, entregou alguns presentes que ela tinha comprado na loja em que trabalhava no centro de Fayetteville. As crianças mais novas perguntaram se podiam ficar até mais tarde brincando, e a mãe concordou, apenas pediu para que os filhos Maurice e Louis lembrassem de colocar as vacas no celeiro e alimentar as galinhas antes de irem para a cama. Enquanto isso, George, John e George Jr. já estavam dormindo, pois tinham trabalhado o dia todo e estavam cansados. A última a ir dormir foi a mãe, junto com a filha mais nova, Sylvia, que dormia no quarto dos pais.

Perto da meia noite e trinta, o telefone tocou e a Jennie desceu para atender. Do outro lado da linha, uma mulher que ela não reconheceu pela voz, perguntou algo, mas ela, com sono, não conseguiu entender exatamente o que era. Ao fundo, a Jennie ouviu algumas risadas e sons de copos, como se a pessoa estivesse em uma festa ou em um bar. Jennie disse para a mulher que ela tinha ligado para o telefone errado e desligou. Antes de voltar para cama, ela percebeu que as luzes do andar de baixo estavam acesas e que as cortinas estavam abertas. Ao descer, ela encontrou Mary Ann dormindo no sofá e presumiu que os outros filhos já tinham ido para o sótão, onde as crianças mais novas dormiam. Ela apagou as luzes, fechou as cortinas e voltou para cama.

Meia hora depois, Jennie acordou novamente: dessa vez, por um barulho alto, como se algo tivesse sido jogado no telhado da casa. Jennie acordou o marido, mas como o barulho não voltou a acontecer, os dois voltaram a dormir. Perto da 1h30 da manhã, ela acordou pela última vez, agora por conta de um cheiro forte de fumaça. Ela desceu para o andar de baixo e viu que o escritório do George estava em chamas. George e Jennie saíram com a pequena Sylvia nos braços, além dos filhos mais velhos Mary Ann, John e George Jr, que dormiam em outros quartos. George tentou subir ao sótão para resgatar os filhos mais novos, mas não conseguiu porque as escadas já tinham sido tomadas pelo fogo.

Enquanto a família gritava para tentar alertar as crianças, Mary Ann foi até a casa de um vizinho para tentar ligar para a própria casa na esperança de que as crianças acordassem, mas o telefone dos Sodder não estavam funcionando. Ela então ligou para o corpo de bombeiros. Os filhos mais velhos foram até a lateral da casa pegar uma escada que a família tinha para tentar alcançar a janela do sótão, mas a escada, que sempre ficava ali, misteriosamente tinha desaparecido.

Em desespero, George tentou escalar uma das paredes da casa, e ao quebrar uma janela, acabou cortando gravemente o seu braço. Em uma última tentativa, George decidiu trazer dois caminhões da sua frota para subir até a janela, mas nenhum dos carros deu partida, mesmo não apresentando nenhum problema no dia anterior. Não havia mais o que fazer, e restou a família observar enquanto sua casa pegava fogo e 5 dos seus filhos padeciam nas chamas..


O único registro da casa dos Sodder


O corpo de bombeiros só chegou na manhã seguinte, quando a casa já tinha queimado totalmente. A demora foi porque o efetivo de bombeiros naquela época era mínimo, não só em Fayetteville, como em todo os Estados Unidos: 1945 foi o último ano da Segunda Guerra Mundial, e a grande maioria do contingente estava servindo. Para piorar, o chefe do corpo de bombeiros local, F.J. Morris, não sabia dirigir o caminhão.

Um dos bombeiros chamados foi o irmão de Jennie, que, junto com os outros agentes, começou a vasculhar as cinzas e os escombros para encontrar os restos mortais dos filhos mais novos da família Sodder. Foi aí que algo inexplicável aconteceu: não havia sinal dos esqueletos das crianças. Morris pediu para os Sodder procurarem um lugar para ficar enquanto bombeiros estaduais fariam uma investigação completa sobre o incêndio. Sem conseguir lidar apropriadamente com os fatos, George decidiu demolir o que tinha restado da casa para converter em um jardim memorial para Maurice, Martha, Louis, Jennie e Betty Sodder.

Um legista local foi chamado para fazer um inquérito sobre as causas do incêndio, e concluiu que teria sido um acidente causado por uma fiação defeituosa. A causa foi corroborada por um grupo de jurados.- No dia 30, foram emitidas as certidões de óbito das cinco crianças. E no dia 2 de janeiro de 1946, foi realizado um funeral simbólico. Segundo matérias da época, George e Jennie estavam destruídos, contando com o apoio unicamente dos seus filhos mais velhos.


Reportagem da época sobre o caso


Pouco tempo depois do enterro, George e Jennie começaram a questionar as respostas que tinham recebido anteriormente sobre a tragédia. A primeira coisa a ser questionada foi a verdadeira causa do incêndio: segundo o que foi apurado, o fogo começou por causa de um problema na fiação. Entretanto, todos os sobreviventes viram as luzes de natal funcionando durante todo o incêndio, e se realmente fosse um problema elétrico, a energia teria acabado.

Um motorista de um ônibus posteriormente alegou ter visto algumas pessoas jogando algo em chamas na direção da casa dos Sodder. Alguns meses depois, quando a neve derreteu, Sylvia, a filha mais nova, encontrou no terreno uma bola de borracha dura, parecida com uma bola de tênis. George examinou o objeto e disse que poderia ser parte de um artefato incendiário usado na guerra, e que o barulho que Jennie ouviu no telhado horas antes do incêndio poderia ser do momento em que esse objeto foi jogado na direção da casa. Lembram da escada que sumiu na hora do incêndio? Posteriormente, ela foi encontrada no fundo do terreno, e nenhum dos Sodder sabia como ela foi parar lá, já que ela sempre ficava ao lado da casa. Já quanto ao telefone da casa, um técnico fez uma verificação e constatou que a linha telefônica não havia sido queimada no incêndio, mas sim cortada diretamente do poste, em uma altura maior do que 4 metros.

Poucos dias depois, as autoridades apreenderam um homem que tinha sido visto roubando algo na propriedade dos Sodder enquanto o incêndio acontecia. Esse homem, que nunca foi publicamente identificado, teria admitido que ele teria cortado a linha telefônica, embora o motivo nunca tenha ficado claro. George também passou a acreditar que seus caminhões tinham sido sabotados antes do incêndio, para impedir que eles fossem usados de alguma forma, embora eles não tenham sido periciados. Por fim, as autoridades localizaram a mulher que fez a ligação responsável por acordar Jennie pela primeira vez, e ela confirmou que realmente tinha sido um engano.

Já quanto aos corpos das crianças, Morris disse que a única explicação possível é de que o fogo teria queimado tudo, inclusive os ossos. Entretanto, era algo impossível, uma vez que a temperatura de um incêndio doméstico é de aproximadamente 600°C e os ossos só se queimam em temperaturas acima de 1400°C. Jennie viu uma reportagem sobre um incêndio em que 7 pessoas morreram, mas todos os restos mortais foram encontrados. Ela também queimou pilhas de ossos de animais e constatou que, mesmo o fogo estando por um tempo prolongado, os ossos não queimaram. Isso abriu margem para um pensamento que dura até hoje: e se as crianças mais novas da família Sodder não morreram no incêndio, mas sim foram sequestradas?


As crianças que desapareceram: Jennie, Martha, Maurice, Betty e Louis


Uma mulher que não teve o nome revelado contou às autoridades que, na noite do incêndio, parou em uma estrada próxima para observar o fogo quando um carro com várias crianças dentro passou ao seu lado. Posteriormente ela revelou que se tratavam dos filhos mais novos dos Sodder. Outra mulher, que trabalhava em uma parada de descanso entre Fayetteville e Charleston, disse que serviu café da manhã no dia 25 de dezembro para um grupo de crianças que, posteriormente, ela identificou como sendo os Sodder. Ela também disse que, no mesmo dia, havia um carro desconhecido com placa da Flórida estacionado no local. O fato chamou a atenção dos funcionários, já que eles conheciam os carros de todos os clientes que costumavam comer no local.

Após tomarem conhecimento desses avistamentos, os Sodder contrataram um investigador particular chamado C.C. Tinsley para investigar o caso. Tinsley ouviu rumores de que, no dia em que os bombeiros revistaram os escombros atrás dos restos mortais, o chefe Morris teria encontrado um coração no meio das cinzas. Esse coração teria sido guardado e enterrado por ele. Tinsley conseguiu a confirmação disso através de um reverendo a quem o chefe Morris teria confessado. George Sodder e o investigador foram até o Morris para confrontar o que tinham descoberto, e ele concordou em mostrar aos dois onde estava a caixa. Ao abri-la, encontraram um fígado de boi fresco, que estava longe de ter passado por um incêndio.

Em 1949, George estava folheando uma revista quando viu uma foto de um grupo de bailarinas em Nova York e se espantou com a similaridade de uma das meninas com a Betty Sodden. Ele foi até a escola de balé, mas não pôde ver a menina por não ser um parente próximo. Após isso, George enviou diversas cartas para o FBI pedindo ajuda, dizendo que o caso se tratava de um sequestro. Entretanto, J. Edgar Hoover, diretor do FBI na época, respondeu dizendo que não poderia ajudar até que ele fosse solicitado pelas autoridades locais, o que nunca aconteceu.

Em agosto de 1949, George conseguiu contatar um patologista chamado Oscar Hunter para realizar uma nova busca no local, na esperança de encontrar qualquer resquício das crianças. Ele encontrou fragmentos de ossos, que posteriormente foram classificados como sendo parte de uma vértebra humana. Oscar enviou esses fragmentos para um especialista chamado Marshall Newman, que chegou a uma conclusão interessante: todos os fragmentos eram de vértebras lombares de uma mesma pessoa, que deveria ter entre 16 e 22 anos. Ele chegou nessa conclusão porque os centros das vértebras não estavam fundidos, algo que acontece aos 23 anos. Ele também concluiu que aqueles ossos nunca tinham sido expostos ao fogo. Isso foi um banho de água fria nos Sodder, uma vez que o filho mais velho que estava desaparecido, Maurice, tinha apenas 14 anos na época. Nunca se soube exatamente de onde aqueles ossos tinham vindo, embora o mais provável fosse da terra que o George tinha usado para construir o jardim memorial.

Essa investigação chamou a atenção de políticos da Virgínia Ocidental, que realizaram duas audiências sobre o caso em 1950, mas não chegaram a nenhuma conclusão. Um tempo depois, o governador do estado, Okey L. Patteson, disse que o caso não tinha solução e ele foi considerado oficialmente fechado pela polícia estadual. Pouco tempo depois, o FBI considerou o caso de interesse federal, uma vez que o sequestro poderia ter sido interestadual. Agentes passaram mais de dois anos procurando pistas e seguindo possíveis avistamentos, mas nada foi encontrado.


Okey L. Patteson


Com o fim dos esforços oficiais, os Sodder imprimiram centenas de panfletos com as fotos das crianças e saíram distribuindo pelo estado. Eles também ofereceram uma recompensa de US$ 5 mil por informações. Em 1952, foi colocado um outdoor na Rota 60, perto de onde a casa da família ficava. Ele continha as fotos e as informações das crianças que sumiram.

Uma mulher chamada Ida Crutchfield, que trabalhava na administração de um hotel na capital do estado, procurou a família para dizer que tinha visto as crianças uma semana após o incêndio: segundo ela, por volta da meia-noite, os filhos do Sodder teriam chegado no hotel acompanhados de dois homens e duas mulheres de ascendência italiana. Ela tentou conversar com as crianças, mas um dos homens teria olhado para ela de maneira hostil e ela recuou. Todos teriam ido embora na manhã seguinte.

Nos anos seguintes, George recebeu duas dicas de possíveis avistamentos: uma mulher de St. Louis, Missouri, que afirmou ter visto a Martha Sodder em um convento; e outra que teria conversando com um homem em um bar em Houston, no Texas, que teria se identificado como Louis Sodder. Esse homem também teria dito que morava com outro dos irmãos, o Maurice. Ele seguiu as duas pistas, mas as pessoas identificadas como sendo os Sodder negaram ter conhecimento sobre o assunto.


Outdoor com informações sobre as crianças desaparecidas

Em 1967 veio a pista que até hoje é considerada a mais confiável: os Sodder receberam uma carta com carimbo de Central City, Kentucky. Dentro do envelope havia a foto de um homem na casa dos 30 anos que lembrava muito o Louis Sodder. Além disso, no verso da foto estava escrito:


Louis SodderI

love brother Frankie

Ilil boys

A90132 or 35


Apesar de acreditarem que realmente poderia ser um dos seus filhos desaparecidos na foto, eles não conseguiram decodificar a mensagem. Além disso, não havia endereço do remetente. A família contratou outro detetive particular para ir até Central City investigar, mas ele deu um golpe e sumiu com o dinheiro que tinha recebido.


A foto e a mensagem recebida: seria Louis Sodder?


Mas afinal, por que alguém sumiria com os filhos dos Sodder? Como falamos anteriormente, George tinha vindo da Itália e morava em uma comunidade com uma grande quantidade de italianos. E além de ser um próspero comerciante, George tinha opiniões fortes sobre a política do seu país natal, sendo um opositor ao ditador fascista Benito Mussolini, que governou a Itália de 1922 até 1945. Alguns meses antes do incêndio, um vendedor foi até a casa dos Sodder oferecer seguros, mas George não estava interessado. Antes de partir, o homem teria dito “sua casa vai virar fumaça e seus filhos serão destruídos”, atribuindo aos comentários que ele fazia sobre Mussolini.

Outra coisa que posteriormente foi relacionada com o desaparecimento foi a visita de um homem que supostamente estava procurando emprego. Ao dar uma volta pela casa com George, ele teria apontado para a caixa de fusíveis e dito “algum dia causaria um incêndio”. Para George, aquele comentário não fazia nenhum sentido, uma vez que a fiação tinha sido liberada pela própria companhia elétrica. Ainda antes do incêndio, alguns dos filhos mais velhos teriam visto um carro estranho estacionado perto de casa, com alguns ocupantes observando seus irmãos mais novos quando eles voltavam da escola.

A principal teoria é que, por conta dos seus comentários antifascistas, italianos que não gostavam de George se juntaram para sequestrar seus filhos e incendiar a sua casa na noite de natal. A escada fora do lugar, o fio telefônico cortado e os veículos que não funcionaram foram parte desse plano. As crianças então teriam sido levadas para outro lugar, e as autoridades, que sabiam do que estava acontecendo, fizeram de tudo para que os Sodder acreditassem que as crianças tinham morrido no incêndio. Existem teorias que falam sobre o envolvimento da máfia e que as crianças poderiam ter sido levadas de volta para a Itália, por isso nunca apareceram, mas novamente, são apenas teorias.

Os Sodder nunca desistiram de tentar encontrar os seus filhos. George faleceu em 1969, aos 73 anos, enquanto a Jennie faleceu em 1989, aos 85 anos. Todos os irmãos também já faleceram, sendo a Sylvia tendo falecido por último, em 2021, aos 79 anos. Em uma entrevista que ela deu para o jornal Charleston Gazette-Mail em 2013, ela disse que a sua primeira lembrança era justamente dela saindo junto com o pai do incêndio. Hoje a filha dela, que também se chama Jennie, é quem cuida da divulgação do caso.


Memorial da família Sodder


• FONTES: Medium, The Huffington Post, The Casual Criminalist, Missing Void, Cold Case Detective, Find a Grave, Charleston Gazette-Mail, National Public Radio.

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