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  • Foto do escritorRodolfo Brenner

#78 - O Sequestro do Voo 375 | CRIMES REAIS

Brasil, setembro de 1988: um voo da Vasp com destino ao Rio de Janeiro é sequestrado, e o responsável é um homem simples de 28 anos, descontente com a situação econômica do país. E o seu objetivo? Matar o presidente da época, jogando o avião contra o Palácio do Planalto.


Essa é a versão escrita do episódio #78 - O Sequestro do Voo 375



Raimundo Nonato Alves da Conceição nasceu em Vitorino Freire, no Maranhão. Sua família tinha vindo do interior do Pará, e foram descritos como pessoas muito simples, mas que levavam uma vida reservada, não bebiam, fumavam ou tinham outros vícios. Já adulto, Raimundo trabalhava como tratorista em várias empresas de construção, entre elas, a empreiteira Mendes Júnior, uma das maiores do país na época.

A título de curiosidade, a Mendes Júnior realizou diversas obras importantes no Brasil, como a Usina Hidrelétrica de Furnas, a Transamazônica e a ponte Rio-Niterói. A empreiteira inclusive fez obras em outros países: em 1978, ela foi responsável pela construção da Ferrovia Baghdad-Akashat-Alqaim no Iraque. Naquela época, 10 mil trabalhadores brasileiros ficaram alojados no país, entre eles, Raimundo. O reinado da Mendes Júnior ruiu em 2014, quando o vice-presidente, Sérgio Cunha Mendes, e outros executivos da empresa foram presos na operação Lava Jato. Segundo a polícia federal, a empresa era uma das construtoras envolvidas no esquema de corrupção da Petrobras, além de pagar propina para parlamentares para ganhar licitações.


Raimundo da Conceição


Em 1988, quando Raimundo tinha 28 anos, ele foi demitido de uma obra e começou a passar por sérias dificuldades financeiras. Aliás, não era só ele: na década de 80, o Brasil passou pela sua pior fase econômica, com a inflação aumentando, em média, 17,7% ao mês. O presidente da época, José Sarney, tentou implementar o Plano Cruzado, criado pelo então ministro da Fazenda Dilson Funaro, com o objetivo de conter o processo de inflação. Dentre as medidas desse plano estavam: a transformação da moeda Cruzeiro em Cruzado; o congelamento dos preços do varejo pelo prazo de um ano e um adiantamento de 33% do salário mínimo.

A ideia era elevar a taxa de juros, desaquecer o consumo e incentivar que os brasileiros poupassem dinheiro, mas não deu certo: por causa do congelamento dos preços, quem produzia não podia reajustar os preços, inviabilizando a produção de muitos bens, que acabaram sumiram das prateleiras. Quando um apareciam, quem tinha condições comprava o máximo que podia, aumentando ainda mais o consumo. O desemprego também era alto, variando entre 9 e 11%. Para efeito de comparação, em outubro de 2023 a inflação cresceu apenas 0,24%, enquanto a taxa de desemprego é de 7,7%.

Raimundo não conseguia mais emprego e viu seus parentes próximos passando por sérias dificuldades. Desempregado e sem nada a perder, ele decidiu cortar o mal pela raiz e planejou algo para acabar com todos os problemas do país de uma única vez: sequestrar um avião e jogar no Palácio do Planalto, matando aquele que ele considerava culpado por toda sua desgraça, o presidente José Sarney.


José Sarney quando era Presidente


Nos dias anteriores ao sequestro, Raimundo fez diversas viagens de avião para conhecer os aeroportos e ver qual era o menos seguro. No dia 29 de setembro de 1988, ele foi até o Aeroporto de Confins, em Belo Horizonte, e embarcou no voo 375 da extinta empresa VASP armado com um revólver calibre 32 e mais noventa balas na sua bagagem de mão. O voo saiu de Porto Velho com destino ao Rio de Janeiro e já tinha feito escalas em Cuiabá, Brasília e Goiânia, e estava com 98 passageiros e 7 tripulantes: o piloto Fernando Murilo de Lima e Silva, o co-piloto Salvador Evangelista, o chefe de cabine José Pinho e os comissários Ângela, Valente e Ronaldo, além de outro co-piloto chamado Gilberto que estava apenas pegando uma carona naquele dia.

Após 20 minutos no ar, Raimundo se levantou e andou até a cabine do piloto. O comissário Ronaldo achou que o passageiro estava confuso e disse que aquilo não era a porta do banheiro, mas o homem sacou o revólver e atirou duas vezes: um dos tiros acertou a orelha do Ronaldo e o outro a perna do Gilberto. Temendo a queda do avião, o comandante mandou o co-piloto abrir a porta. Enquanto tentavam manter a calma e conversar com Raimundo, o comandante inseriu o código 7500, que informa ato de interferência ilícita, ou seja, um sequestro. O código foi recebido pelo Centro Integrado de Defesa Aérea e Controle de Tráfego Aéreo – o Cindacta – que pediu uma confirmação da situação. Quando o aviso chegou no painel de controle, o co-piloto Salvador tentou responder o contato, mas foi baleado na nuca pelo sequestrador e morreu no local.


O piloto Fernando Murilo de Lima e Silva e o co-piloto Salvador Evangelista


Mesmo tendo visto o colega e amigo pessoal morrer na sua frente, Fernando manteve a calma e virou o avião em direção à Brasília. Ele notou que Raimundo tinha pouquíssimo conhecimento de aviação, e aproveitou disso para enganá-lo: ele fingiu que conversava com a torre, simulando que o tempo em Brasília estava muito ruim para pousar. Raimundo disse que o objetivo não era pousar, mas sim se chocar contra o Palácio do Planato, e só nessa hora o Murilo entendeu que todos ali iriam morrer se ele não fizesse alguma coisa.

Enquanto isso, em Brasília, o presidente Sarney estava em uma reunião e nem sabia o que estava acontecendo, e nenhum prédio do governo foi evacuado. Em contrapartida, a Polícia Federal e outras forças de segurança já estavam se preparando para uma possível intervenção, inclusive um caça da Força Aérea Brasileira (FAB) que estava acompanhando o voo, com ordens para derrubar o avião caso fosse preciso. Nesse momento, Fernando viu que a aeronave estava com pouco combustível. Ele alertou Raimundo da situação, que ordenou a mudança de rota para São Paulo. Fernando disse que não daria para ir até lá, e sugeriu que eles pousassem em Goiânia.

Quando Raimundo estava distraído, o piloto executou um tonneau, ou barrel roll, uma manobra onde o avião realiza um giro completo sobre o eixo longitudinal da aeronave, mas Raimundo conseguiu se segurar e não caiu. Fernando então tentou uma mais arriscada: um parafuso com uma queda de 9.000 metros. Dessa vez, Raimundo ficou desacordado e caiu para fora da cabine, e o piloto conseguiu fechar a porta e pousar em Goiânia, com pouco combustível e um dos motores já falhando. No solo, o sequestrador recobrou a consciência e voltou a ameaçar todos à bordo.

Raimundo liberou os passageiros que estavam feridos após as manobras do piloto, mas manteve mais de 90 reféns, iniciando uma negociação que duraria mais de 5 horas. Raimundo não desistiu e exigiu outra aeronave para ir até Brasília. A PF concordou e colocou outro avião na pista, mas era apenas uma isca para Raimundo, e ele caiu: por volta das 18h, ele saiu do avião, mas levou o piloto e dois comissários como escudo. Ele foi com os reféns até o outro avião, mas chegando lá, foi surpreendido por um agente da PF, e os dois começaram a trocar tiros. Agentes de elite da Polícia Federal conseguiram atirar e acertar Raimundo duas vezes, enquanto uma terceira bala atingiu a perna do piloto.

O sequestrador foi encaminhado a um hospital, onde passou por uma cirurgia de emergência e foi anunciado que não corria risco de vida. Entretanto, alguns dias depois (algumas fontes dizem 2 e outras dizem 5), ele morreu no hospital. Segundo o laudo, Raimundo faleceu devido a um quadro agravado de anemia falciforme, uma doença hereditária rara. Essa morte repentina gerou especulações de que Raimundo teria sido envenenado.


Agentes retiram um dos feridos após o avião pousar


O caso foi considerado um marco para a aviação brasileira e o início de uma melhoria de segurança nos aeroportos que só foi consolidada após os ataques de 11 de setembro. Hoje os aeroportos contam com revistas, máquinas de raio X e detectores de metais, as portas das cabines são blindadas e a tripulação é treinada para uma interferência desse porte. A atuação da Polícia Federal foi muito criticada na época, uma vez que o Palácio do Planalto e os prédios adjacentes não foram evacuados, e não havia protocolos para negociar com em um caso como aquele. Algo parecido aconteceu com o FBI no caso do D. B. Cooper, o único sequestro de avião comercial nos Estados Unidos que até hoje segue sem solução.

Fernando, o piloto, demorou 1 mês para voltar a pilotar. Pelo seu ato de bravura, ele foi condecorado com a Ordem do Mérito Aeronáutico na época do acidente, mas nunca recebeu um agradecimento oficial do presidente José Sarney. Ele ficou mais um tempo trabalhando na VASP, mas foi demitido quando ela foi privatizada em 1993. Em 2001, Fernando recebeu um troféu do Sindicato Nacional dos Aeronautas por sua contribuição em evitar uma tragédia maior naquele dia. Ele faleceu em 26 de agosto de 2020, aos 76 anos.

Familiares do co-piloto Salvador Evangelista entraram com uma ação indenizatória contra a Infraero, a empresa estatal responsável pela administração dos aeroportos brasileiros. Essa ação se arrastou por anos, e foi só em 2011 que a Infraero foi condenada a pagar uma indenização de R$250 mil para a filha do co-piloto, Wendy Evangelista. Segundo os autos do processo, a justiça considerou que a entrada de um passageiro com um revólver foi causada pela falta de normas de segurança na época.

No dia 07/12/2023, estreou o filme “O Sequestro do Voo 375”, dirigido por Marcus Baldini, mais conhecido pelo filme Bruna Surfistinha de 2011. O elenco conta com Danilo Grangheia, Jorge Paz, Roberta Gualda, César Mello e Juliana Alves nos papéis principais.


Reportagem sobre o sequestro no Jornal Nacional


• FONTES: BBC, O Globo, AERO Magazine, CNN Brasil.

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