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  • Foto do escritorRodolfo Brenner

#76 - O Mistério do Assassino do Alfabeto | SERIAL KILLER

Em um período de 3 anos, 3 garotas foram encontradas mortas próximas da cidade de Rochester. Além de diversas características em comum, algo no nome das vítimas e no local onde elas foram encontradas chamou a atenção das autoridades. Será que elas foram vítimas de uma infeliz coincidência ou do mesmo assassino sádico que escolheu elas pelos seus nomes?


Essa é a versão escrita do episódio #76 - O Mistério do Assassino do Alfabeto



O caso aconteceu na cidade de Rochester, cidade que fica no noroeste do estado de Nova York e, segundo o censo de 2020, tem 211 mil habitantes. Rochester foi fundada em 1788 e é uma cidade histórica, marcada pelos movimentos abolicionistas e do direito das mulheres. No século XX a cidade passou a ser conhecida como um dos polos tecnológicos da costa leste, e é o local de nascimento de diversas companhias como a Kodak e a Xerox. É lá que morava Carmen Colón, uma menina porto-riquenha que na época tinha 10 anos. Carmen era filha de mãe solteira e as duas moravam na casa dos seus avós. Segundo as poucas informações disponíveis, a Carmen foi descrita como sendo uma menina bem hiperativa e alegre.

No dia 16/11/1971, a irmã da Carmen precisou ir ao hospital por uma infecção no ouvido. Ao voltar para casa, Guilhermina, a mãe delas, pediu para Carmen ir até uma farmácia buscar o medicamento. Ela chegou lá às 16h20, mas foi avisada pelo farmacêutico que a receita ainda não tinha sido processada. Nesse momento ela disse que precisava sair e foi vista entrando em um carro que estava estacionado perto da farmácia.

A avó de Carmen estranhou quando ela não voltou para casa e alertou a polícia sobre o desaparecimento. Dois dias depois, dois adolescentes encontraram um corpo nu perto da Interestadual 490, na vila de Churchville, que foi confirmado ser da Carmen Colón. As suas roupas foram encontradas dias depois em locais próximos, incluindo a sua calça que estava dentro de um bueiro. A autópsia revelou que a causa da morte tinha sido estrangulamento, além disso, ela tinha sido abusada e sofreu um traumatismo na cabeça e na costela..


Rochester, NY


O caso da Carmen começou a chamar muito a atenção porque surgiu a informação de que, no dia que ela desapareceu, mais de 100 motoristas viram ela correndo de um veículo que estava andando pela Interestadual 490. A menina estaria gritando e tentando pedir ajuda para os veículos que passavam, mas foi pega por um homem e levada de volta para o carro, e ninguém fez nada para impedir.

Revoltados, parentes de Carmen começaram a pedir por justiça, o que chamou a atenção de dois jornais – o Times Union e o Democrat and Chronicle – que começaram a levantar fundos para oferecer uma recompensa para informações que ajudassem a solucionar o caso, que chegou a 6.000 dólares. A polícia triplicou o número de investigadores envolvidos no caso, e passou a procurar por pistas em tempo integral. Diversos suspeitos foram interrogados, mas nada concreto foi encontrado.

Em 21/12, pouco mais de um mês após o assassinato, somente três policiais continuavam a investigação, e o caso da Carmen foi praticamente esquecido. Inconformados, a família de Carmen espalhou 5 outdoors pelas rodovias de Rochester com uma foto da garota. Lá estava escrito “Você sabe quem matou Carmen Colón? Por favor, ajude antes que aconteça de novo. US$6.000 em recompensas por informações. Seja uma testemunha secreta – nenhuma pista é pequena”. Mesmo com esses esforços, nada de novo surgiu.


Cartaz sobre a morte de Carmen


No dia 02/04/1973, Wanda Walkowicz, de 11 anos, foi até um comércio local para comprar alguns mantimentos para a sua mãe, em um percurso de ida e volta que não duraria mais que 30 minutos. Entretanto, Wanda não voltou para casa, e sua mãe saiu para procurá-la. A dona do comércio contou que tinha atendido a menina, mas garantiu que ela tinha saído do local por volta das 17h15. Com isso, Joyce, a mãe da Wanda, informou a polícia sobre o seu desaparecimento.

A polícia começou uma busca imediata em que quase 50 detetives procuraram por vários locais no caminho da casa até o comércio, além de locais onde ela costumava brincar e até ao redor do rio Genesee. Algumas testemunhas disseram ter visto Wanda andando pela avenida com as sacolas de compras, e também notaram um veículo marrom que teria parado próximo a ela.

No dia seguinte, um policial encontrou o corpo da Wanda próximo da cidade de Webster, a 11 km de Rochester. A autópsia revelou que a causa da morte tinha sido estrangulamento, e que ela tinha sido abusada sexualmente. No seu corpo foram encontrados sémem e pelos pubianos de adulto, além de pelos brancos de gato nas suas roupas. A mãe da Wanda foi questionada e contou que a família não tinha um gato, tornando aquilo uma pista importante.

Assim que o caso ficou conhecido, a população logo fez a ligação do caso da Wanda Walkowicz com o da Carmen Colón. A polícia queria tratar o caso com mais cautela, então foi disponibilizada uma linha anônima para o recebimento de informações, além de uma recompensa de US$10.000 por informações que levassem à prisão do assassino.

Alguns dias depois uma testemunha entrou em contato com a polícia e disse que tinha visto Wanda parada próximo de um carro marrom, conversando com o motorista. Essa testemunha não conseguiu ver a cara do suspeito, mas lembrava exatamente onde o carro estava, um local bem próximo da casa dos Walkowicz. Uma outra testemunha disse que viu uma menina com as descrições da Wanda sendo obrigada a entrar em um carro entre 17h30 e 18h00 na tarde que ela desapareceu.

O caso ficou meses em investigação, mas não parecia ir para frente. Em setembro de 1973, a rede de televisão local WOKR anunciou planos para transmitir uma reconstrução do sequestro e assassinato da Wanda Walkowicz, e o programa foi ao ar no dia 21 de outubro. Após a transmissão, a polícia de Rochester recebeu mais de 200 telefonemas, mas nenhuma pista útil foi obtida.


Wanda Walkowicz


No dia 26 de novembro de 1973, sete meses depois do assassinato da Wanda, houve mais uma vítima: Michelle Maenza, de 11 anos. Naquele dia, a mãe da Michelle, Carolyn, pediu para ela ir até uma loja próxima depois da aula para buscar uma bolsa que ela tinha esquecido lá no dia anterior. Alguns minutos depois, uma testemunha viu uma criança que ele acreditava ser a Michelle dentro de um carro bege ou marrom perto da Webster Avenue. Ainda segundo ele, a menina estava chorando. Às 17h30 do dia 26 de novembro, um homem viu um carro bege com o pneu furado parado na Rota 350 na cidade de Walworth. Esse homem estaria segurando uma menina que seria a Michelle pelo pulso. Quando o motorista foi oferecer ajuda, o homem foi tão ríspido que o motorista decidiu se afastar.

No dia 28, o corpo da Michelle foi descoberto em uma vala que ficava em uma uma estrada rural na cidade de Macedon, 24 km de Rochester. Sua autópsia revelou os mesmos sinais que a Carmen e a Wanda tinham: ela tinha sido estuprada e estrangulada até a morte, e novamente foi encontrado sêmen e pelos de um gato branco na sua roupa. Algumas pistas novas foram descobertas: uma impressão parcial de uma mão no pescoço e restos de um hambúrguer no seu estômago, que ela deveria ter consumido cerca de 1 hora antes de morrer.

Com base no relato das testemunhas, a polícia conseguiu fazer um retrato falado que correspondia a um homem branco, cabelos escuros, entre 25 e 35 anos, 1,80m de altura e pesando próximo dos 75 kg.


Michelle Maenza


Após a morte de Michelle, a polícia começou a trabalhar com a hipótese de todas as mortes terem sido cometidas pela mesma pessoa: as três meninas tinham idades próximas, vinham de famílias católicas, eram de uma camada mais pobre e desapareceram após serem vistas próximas de um mesmo carro, todas no período da tarde. Além disso, foi revelado que as três tinham poucos amigos e sofriam bullying na escola. A autópsia de todas elas também mostrou que elas tinham sido violentadas e mortas da mesma forma.

A pista mais intrigante entretanto era a relação do nome e sobrenome das três vítimas com os locais onde os seus corpos foram encontrados: Carmen Colón foi encontrada em Churchville, Wanda Walkowicz em Webster e Michelle Maenza em Macedon. Se os casos realmente tinham sido cometidos pelo mesmo assassino, a polícia estava buscando por alguém extremamente organizado, que poderia inclusive sofrer de transtorno obsessivo-compulsivo. Após essas diligências, o caso de Carmen, Wanda e Michelle ficou conhecido como “Alphabet murders” – as mortes do alfabeto.

Uma das coisas que mais incomodavam os investigadores era o fato dele selecionar as vítimas pelo nome e sobrenome, o que indicaria que ele provavelmente conhecia elas antes dos raptos. Se fosse também considerar as outras semelhanças que envolviam a escola, era provável que ele frequentasse ou trabalhasse lá.


Desenho baseado no relato das testemunhas


• SUSPEITOS:


➔ MIGUEL COLÓN:

O primeiro suspeito estava muito mais ligado com o caso de Carmen: era o seu tio paterno, Miguel Colón. Após a separação dos pais da Carmen, Miguel se casou com a mãe dela, tendo duas filhas. Ou seja, o padrasto da Carmen também era seu tio, e suas duas irmãs também eram suas primas. A maior pista contra Miguel é que ele, não muito tempo antes da morte da Carmen, tinha comprado um carro parecido com aquele visto sequestrando ela no dia do desaparecimento. Um amigo de Miguel disse para a polícia que, dois dias depois do crime, ele contou sobre planos de sair dos Estados Unidos. Perguntado sobre o motivo, ele disse que “tinha feito algo de errado em Rochester”. Miguel realmente voltou para Porto Rico e precisou ser extraditado de volta para ser interrogado.

Foi realizada uma busca no carro de Miguel, mas o carro tinha sido limpo com fortes produtos de limpeza, especialmente no porta-malas, destruindo qualquer pista de DNA. Entretanto, foi achada uma boneca que pertencia a Carmen caída atrás do banco, mas a mãe dela disse que isso não era anormal, porque a filha sempre andava de carro com o tio e frequentemente esquecia um brinquedo lá. Mesmo que Miguel não tivesse um álibi para o crime, todas as pistas contra ele eram circunstanciais. Ele também foi submetido a um teste de polígrafo e passou, por isso foi liberado e não foi ligado oficialmente a nenhum dos 3 casos. Ele cometeu suicidio em 1991, aos 44 anos.


➔ DENNIS TERMINI:

Como dito anteriormente, Miguel era um forte suspeito no caso envolvendo a Carmen Colón, mas não foi ligado aos assassinatos da Wanda e da Michelle. A primeira pessoa a ser ligada aos três casos foi um bombeiro chamado Dennis Termini, que na época do caso tinha 25 anos. Dennis era um estuprador em série já conhecido das autoridades: entre 1971 e 1973, ele tinha cometido 14 crimes desse tipo com adolescentes e mulheres jovens, o que lhe rendeu o apelido de “Estuprador de Garagem”. O carro que ele dirigia também batia com a descrição do veículo visto próximo das vítimas antes de elas terem sido levadas. Ele também morava bem próximo da casa da Michelle Maenza e provavelmente a conhecia.

No começo de 1974, Dennis tentou sequestrar uma adolescente, mas ela começou a gritar e ele fugiu. Ele procurou outra vítima e conseguiu levar ela, mas foi emboscado pela polícia e acabou se matando com um tiro na cabeça. Após isso, o carro dele passou por uma perícia e foram encontrados pelos de gato branco no estofamento. Na época dos casos não existia exame de DNA, então não foi possível investigar aquele semen encontrado nas vítimas. Em 2007, o corpo do Dennis foi exumado para a obtenção de uma amostra de DNA para comparar com o caso da Wanda Walkowicz, mas o resultado foi negativo.


➔ KENNETH BIANCHI E JOSEPH NASO:

O último suspeito é o serial killer Kenneth Bianchi. Na época do caso, Kenneth trabalhava como vendedor de sorvete em Rochester, em locais próximos da casa da Carmen e da Wanda. Ele permaneceu na cidade até 1976, quando se mudou para Los Angeles. Lá, ele e seu primo Angelo Buono Jr. atacaram, estupraram e mataram 10 mulheres entre 12 e 28 anos. Todas as vítimas foram estranguladas, e deram aos dois a alcunha de Hillside Stranglers (Estranguladores de Hillside).

Kenneth Bianchi foi oficialmente interrogado pelos assassinatos das três meninas em Rochester, mas negou conhecer o caso. Na época dos crimes, ele dirigia um carro bege parecido com aquele visto perto das vítimas, mas essa era a única pista circunstancial contra ele. Por conta das investigações contra Kenneth Bianchi, a polícia acabou chegando em um outro serial killer, um homem chamado Joseph Naso, preso em 2011 pelo assassinato de 4 mulheres na Califórnia entre 1977 e 1994. Apesar de todas as vítimas serem adultas, as iniciais do nome e do sobrenome delas começavam com a mesma letra, assim como Carmen, Wanda Michelle.

Joseph virou uma pessoa de interesse no caso e foi pedido um teste de DNA para comparação com os casos em Rochester, mas novamente o teste deu negativo. Ele acabou sendo julgado apenas pelos casos na Califórnia e foi condenado a pena de morte em 2013.


Joseph Naso e suas 4 vítimas


Em 2007, uma TV de Rochester fez um especial sobre o caso das mortes do alfabeto. Uma das pessoas entrevistadas foi a Guilhermina Colón, mãe da Carmen. Ela conta que sentiu que o caso da sua filha foi ignorado por serem imigrantes pobres, além da dificuldade em lidar com as autoridades da época por não falar inglês. Esse documentário também conta com entrevistas com parentes da Wanda e da Michelle.

Em 2009, o jornal “Democrat and Chronicle” publicou vários artigos relembrando o caso. Após essa divulgação, a polícia de Rochester recebeu 20 novas pistas sobre os assassinatos. Todas foram checadas, mas nenhuma resultou em algo concreto. Segundo o porta-voz do Departamento de Polícia de Rochester, os casos de Carmen, Wanda e Michelle continuam abertos e seguem sob investigação. Também foram lançados três livros sobre o caso: “Alphabet Killer: The True Story of the Double Initial Murders” da autora Cheri Farnsworth, “Unsolved Child Murders: Eighteen American Cases” da autora Emily Thompson e “Nightmare in Rochester: The Double-Initial Murders”, do autor Donald Tubman.

Existe também um filme de ficção de 2008 chamado “O Assassino do Alfabeto”, baseado na história real dos crimes em Rochester. Embora a história base seja a mesma, todos os nomes foram trocados. O filme foi dirigido por Rob Schmidt e conta com Eliza Dushku, Bill Moseley e Cary Elwes nos papéis principais. Esse último é mais conhecido pelo papel do Dr. Lawrence Gordon na franquia jogos mortais.


Poster do filme "O Assassino do Alfabeto"


• FONTES: Alphabet Killer: The True Story of the Double Initial Murders, RNews, Oxygen True Crime, Medium.

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