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  • Foto do escritorRodolfo Brenner

#66 - O Caso dos McDonald's Boys | DESAPARECIDOS

Dois garotos desaparecem misteriosamente após irem para a escola, se tornando um dos casos mais comentados de Cingapura. Será que eles fugiram, foram vítimas de tráfico humano ou fizeram parte de uma trama complexa de vingança?


Essa é a versão escrita do episódio #66 - O Caso dos McDonald's Boys:



O caso aconteceu em Cingapura, um país muito pequeno que fica localizado no sul da Ásia, entre a Indonésia e a Malásia. Cingapura, juntamente com Coreia do Sul, Hong Kong e Taiwan, formam o grupo dos Tigres Asiáticos, países que tiveram um rápido crescimento econômico, com alta industrialização e investimento externo. Hoje, Cingapura é um país altamente desenvolvido, com a economia baseada na exportação de alta tecnologia, investimento bancário e turismo comercial (diferente do turismo convencional que foca em conhecer pontos turísticos e históricos, o turismo comercial é voltado para viagens de trabalho, visitação a empresas, etc).

É em Cingapura que moravam os estudantes Keh Chin Ann e Toh Hong Huat. Os dois eram melhores amigos e frequentavam a mesma turma na Escola Primária Owen. Keh Chin Ann nasceu no dia 22/03/1974, em Cingapura. Ele era filho de Tay Mee Na e Keh Cheng Pan, e tinha duas irmãs mais velhas.- Toh Hong Huat nasceu na Malásia, algumas fontes dizem que foi em 18/05/1974, outras que foi em 05/06/1974. Ele era filho de Tan Geok Kuan e Toh Hoo Don, mas seus pais eram separados: ele morava somente com a mãe, Tan, enquanto o pai tinha ficado na Malásia.

Cingapura


No dia 14/05/1986, Keh Chin Ann foi de ônibus até a escola, como fazia normalmente. Lá ele encontrou com um colega de sala, Wang Piwei, e os dois ficaram conversando na entrada. Keh Chin Ann disse que iria até uma loja próxima, então o colega se ofereceu para levar a sua mochila para dentro, e foi isso que ele fez.

Enquanto isso, na casa do Toh Hong Huat, sua mãe, Tan, estava se preparando para levar o filho para a escola, quando ele avisou que ela não precisava ir junto. Tan achou estranho porque o filho não gostava de sair sozinho, mas ele disse que iria junto com Keh Chin Ann. A mãe não chegou a ver se os meninos realmente se encontraram, entretanto, uma testemunha disse que viu os dois juntos próximo de 12h30, e essa foi a última vez que eles foram vistos.

Toh Hong Huat e Keh Chin Ann


Wang Piwei, o colega de sala, informou aos professores que os meninos tinham saído para matar aula, mas aparentemente ninguém fez nada a respeito. Horas depois, uma professora notou a ausência dos dois em sala e informou aos pais, que imediatamente começaram a procurar, já que eles eram conhecidos por serem ótimos alunos e muito responsáveis. A polícia foi chamada por volta das 19h e iniciou uma busca pelas propriedades ao redor da escola, mas não conseguiu encontrar nada. Também foram distribuídos milhares de cartazes com informações sobre os dois.

A primeira pista concreta só veio em agosto de 1986, quando uma ligação anônima contou que os meninos estariam em Pulau Ubin, uma pequena ilha que fica no nordeste de Cingapura. Mais de 100 policiais foram enviados para lá, em uma operação que procurou por toda a ilha. As famílias dos meninos também foram para o local, entretanto, nenhuma pista foi achada. Em novembro de 1986, um programa policial chamado Crimewatch reencenou o caso, trazendo entrevistas com os pais dos meninos e diversos apelos para a liberação de novas informações sobre o caso. Apesar da boa audiência, nada novo apareceu.

Com a ajuda de parentes e amigos, as famílias ofereceram uma recompensa de 1.000 dólares cingapurianos para quem fornecesse novas informações sobre o paradeiro deles. Essa recompensa aumentou para 5.000 e posteriormente para 20.000. Em outubro de 1986, Robert Kwan, diretor-geral do McDonald’s de Cingapura, anunciou que a empresa ofereceria uma recompensa de 100.000 dólares cingapurianos por qualquer informação sobre o paradeiro das duas crianças. O McDonald’s também foi responsável por distribuir posters dos dois por toda Cingapura. Por conta dessa divulgação, Keh Chin Ann e Toh Hong Huat ficaram conhecidos como os “McDonald’s Boys”.

Em novembro de 1988, o jornal The Straits Times enviou um pedido de ajuda a uma empresa americana para recriar uma foto de como Chin Ann se pareceria fisicamente com 14 anos, algo inédito em Cingapura. O pedido foi atendido e a foto foi publicada no mesmo mês. Em 1994, foram divulgadas projeções dos garotos com 20 anos de idade. Em 1990, a mãe de Toh Hong Huat procurou a Associação Chinesa da Malásia para obter ajuda. Essa associação conseguiu com que as autoridades procurassem os meninos pela Malásia, além de enviar informações para a Interpol. Essa nova busca se estendeu para países vizinhos, mas sem sucesso.


Cartaz contendo informações de Keh Chin Ann e Toh Hong Huat no McDonald’s de Cingapura


A primeira teoria do que aconteceu com os garotos é a de que Toh Hong Huat e Keh Chin Ann poderiam ter fugido de casa. Os pais disseram que isso seria pouco provável, uma vez que os dois eram bem comportados e viviam em lares funcionais, onde não faltava nada. Além disso, eles não levaram roupas, alimentos ou economias que eles guardavam.

Apesar de recusar a teoria de que o desaparecimento seria voluntário, não foi descartado que os dois poderiam ter sido enganados por alguém mal intencionado ou ainda, raptados: uma das possibilidades de rapto é de que eles teriam sido levados para outros países e colocados para pedir esmolas, um tipo de crime que não era tão incomum naquela época. Foram investigados registros de imigração de crianças em países vizinhos, além de buscas feitas pela polícia de Cingapura, mas nada foi encontrado.

Em setembro de 1986, o pai de Keh Chin Ann recebeu um telefonema anônimo dizendo que ele deveria parar de procurar as crianças, pois elas teriam sido usadas como sacrifício em um ritual religioso. Ele ficou tão abalado com o telefonema que sofreu um derrame e precisou ser hospitalizado. A mãe de Hong Huat recebeu um telefonema semelhante, que dessa vez foi investigado pela polícia, mas sem resultados.

Também foi levantada a possibilidade de sequestro, porém, os pais dos meninos não ganhavam muito e também não foi feita uma ligação pedindo resgate. Além disso, nenhum dos pais tinha qualquer tipo de problema ou atrito com alguém. Em 1994, houve um possível avistamento dos dois meninos na Tailândia. Os pais deles foram até o local para procurar, mas não encontraram os filhos.


A mãe de Keh Chin Ann segurando um cartaz com informações dos McDonald’s Boys


Em 1993, Hong Huat e Chin Ann foram declarados legalmente mortos pelas autoridades, isso porque, de acordo com a lei de Cingapura, uma pessoa deve ser considerada legalmente morta após ficar 7 anos desaparecida. O caso foi reaberto em 1994, quando a polícia de Cingapura liberou um relatório conectando o caso dos McDonald’s Boys com o desaparecimento de outro menino décadas antes: Wong Weng Boon, também de 12 anos, que desapareceu após sair da mesma escola em que os meninos estudavam, em novembro de 1975. Após a liberação do relatório, parentes de Wong Weng Boon fizeram um apelo público em busca de novas informações que pudessem levar aos paradeiros dos 3 meninos. Apesar disso, ele também continua desaparecido.

Em 1996, dez anos após o desaparecimento dos McDonald’s Boys, um investigador particular chamado Henry Tay liberou um novo relatório com base em uma extensa investigação que ele fez por contra própria. Segundo ele, era possível que o desaparecimento de Keh Chin Ann e Toh Hong Huat tivesse relação com Toh Hoo Don, pai de Toh Hong Huat: ele vivia na Malásia, era ex-membro de uma gangue e tinha uma empresa de ônibus com Tan, a mãe de Toh Hong Huat. Após a separação e ida da ex-mulher para Cingapura, Toh precisou vender a empresa. Além disso, eles também tinham problemas quanto a guarda e as visitas, sendo relatado que Toh visitava seu filho constantemente na escola onde ele desapareceu.

Segundo a teoria de Henry Tay, Toh já estava com tudo planejado para levar o filho embora para a Malásia, porém, naquele dia, os dois meninos realmente foram para a escola juntos, e ele precisou levar os dois para não haver testemunhas. Ainda segundo o detetive, Tan não seria a mãe biológica de Toh Hong Huat: na verdade, ele seria filho de Toh Hoo Don com uma amante (algumas fontes dizem ex-namorada) conhecida apenas como Samsu. Samsu teria rejeitado a criança, que foi adotada por Tan. Após a liberação desse relatório, Toh foi preso como suspeito pelo desaparecimento dos McDonald’s Boys. Ele foi interrogado, mas liberado por falta de provas. Tan comentou as acusações de Henry Tay e negou que não fosse a mãe biológica do seu filho.

Em 2004, 18 anos após o desaparecimento, o caso novamente ganhou a atenção depois que apareceu na série documental "Missing", mas foi só em 2010 que outra pista apareceu: uma pessoa que não foi identificada afirmou que, no dia do desaparecimento, viu os dois meninos brincando com uma menina em um jardim que ficava atrás de um hospital local. De repente, um homem passou e levou Toh Hong Huat à força. Keh Chin Ann foi atrás do amigo e perguntou quem era aquele homem, que teria respondido ser o pai de Toh Hong Huat. Essa informação batia com a teoria de que os meninos teriam sido levados pelo pai. Além disso, também corria um boato de que os meninos estariam vivendo em uma vila rural na Malásia, e teriam entrado para a mesma gangue que o pai de Toh estava antes.

Tan Geok Kuan voltou para a Malásia por acreditar que teria uma chance maior de encontrar o seu filho por lá, mas ela nunca mais falou sobre o caso. Já a família de Keh Chin Ann mudou de casa, mas continua morando em Cingapura. Em 2020 a mãe, Tay Mee Na, que estava com 80 anos, disse que o marido havia morrido alguns anos antes, e que a família nunca superou o desaparecimento do filho.


• FONTES: The Straits Times, Cafezinho Investigativo, Aria Inthavong, Mothership, TheHomeGround Asia, Goody Feed.

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