top of page
  • Foto do escritorRodolfo Brenner

#22 - Suzane von Richthofen | CRIMES REAIS

Uma menina rica conhece um rapaz pobre e os dois se apaixonam. Poderia ser o começo de um conto de fadas, mas é a história de um dos crimes mais famosos do país, quando Suzane von Richthofen planejou o assassinato dos próprios pais.


Essa é a versão escrita do episódio #22 - Suzane von Richthofen:



A família von Richthofen era descendente direta de membros da aristocracia alemã do século XIX. Manfred Albert von Richthofen nasceu na cidade alemã de Erbach, e era filho de um alemão e uma brasileira. Sua família perdeu bastante poder em decorrência da participação da Alemanha na Primeira e na Segunda Guerra Mundial, o que ocasionou a vinda deles para o Brasil.

Manfred foi descrito por um amigo como um homem reservado, com um comportamento um tanto “frio”, típico para um alemão. Porém, com pessoas mais próximas, ele tinha ótimo senso de humor. Manfred também fazia questão de falar sobre sua família, sobre a Alemanha e especialmente sobre um parentesco dele com o Barão Vermelho, herói alemão da Primeira Guerra Mundial que desenvolveu as primeiras táticas de guerra aérea. Essa é uma questão um tanto polêmica, e o real parentesco é ainda debatido.


Manfred Albrecht Freiherr von Richthofen, o Barão Vermelho


Quando estava cursando engenharia civil na Universidade de São Paulo, Manfred conheceu a estudante de medicina Marísia Silva Abdalla. Os dois começaram um relacionamento e depois se casaram. Ele arrumou um emprego na Dersa, uma estatal, que na época cuidava das estradas do estado de São Paulo, ocupando o cargo de diretor de Engenharia. Manfred foi responsável pelo projeto de construção do Rodoanel de São Paulo. Marísia era médica psiquiátrica e mantinha um consultório no bairro Campo Belo. Era considerada muito extrovertida e simpática.

O casal tinha dois filhos: Suzane, que na época tinha 18 anos, e Andreas, que tinha 15. A família morava em uma mansão no bairro do Brooklin. Suzane foi descrita como muito estudiosa e uma garota que gostava de cuidar da aparência. Ela era faixa preta de karatê e falava inglês, francês e alemão com fluência. Andreas era mais tímido e contido que a irmã, tinha poucos amigos e costumava passar boa parte do tempo no seu quarto assistindo televisão. Segundo relatos ele era muito apegado ao pai, mas principalmente a irmã.


A família von Richthofen: Suzane, Andreas, Marísia e Manfred


Em agosto de 1999, a família von Richthofen foi até uma feira de aeromodelismo no Parque Ibirapuera. Lá eles conheceram Daniel Cravinhos, que na época era competidor, professor e trabalhava fabricando aviões da categoria. Para quem não conhece, o Aeromodelismo é uma prática que consiste em planejar, construir e utilizar miniaturas de aeronaves, e as competições consistem na manipulação e a manobra desses aviões. Andreas se interessou pela prática e pediu para que os pais pagassem Daniel para dar algumas aulas para ele. Depois de algum tempo, os dois ficaram muito amigos, com Andreas considerando Daniel um irmão mais velho.

Suzane começou a se interessar por Daniel, e pediu ajuda para o irmão para se aproximar dele. Depois de alguns encontros, os dois começaram um relacionamento. Manfred e Marísia não se importaram com o namoro no início, porque acharam que era algo passageiro.


Suzane e Daniel


Daniel era filho do casal Astrogildo e Nadja Cravinhos, e tinha dois irmãos: Marco, o mais velho, casado e que não morava mais com eles; e Cristian, o do meio. Cristian era considerado um garoto problema, dependente de cocaína e já tendo contraído dívidas com traficantes. Suzane adorava ir até a casa dos Cravinhos, porque tinha muito mais liberdade do que na própria casa. Além disso, sentia que os pais do namorado eram muito mais carinhosos do que os seus.

Na vizinhança onde moravam, os Cravinhos eram chamados de "família do barulho", porque viviam fazendo barulho enquanto consertavam carros, motos e testavam os aeromodelos que Daniel construía. Inclusive, essa era uma carreira que ele se dedicava desde os 13 anos, tendo sido campeão estadual, nacional, pan-americano e chegando a ser o quinto melhor do mundo em 1998, em um mundial disputado na Ucrânia. A sua renda vinha do conserto e principalmente da venda dos aviões, que chegavam a custar R$ 1.400 a unidade (mais de R$ 7.000 ajustados com a inflação). Daniel chegou a cursar seis meses de Direito na Universidade Paulista (UNIP), mas largou o curso.

Com o passar do tempo, o relacionamento de Daniel e Suzane estava cada vez mais intenso, e os dois não se desgrudavam mais: eram vistos sempre juntos, um acompanhando o outro em todas as situações, com Daniel chegando a ir junto com Suzane nas visitas técnicas da faculdade.

No quarto de Daniel havia um painel com várias fotos dos dois, além de um travesseiro estampado com uma foto de Suzane. Os amigos de ambos disseram que eles mudavam totalmente suas rotinas para ficar um ao lado do outro, uma relação quase obsessiva. Suzane também confessou que perdeu a virgindade com Daniel, e eles passaram a frequentar motéis e a fumar maconha quase todos os dias, além de experimentar outras drogas.


Suzane e Daniel eram sempre vistos juntos e tiravam muitas fotos juntos


No final de 2001, Manfred e Marísia começaram a tentar convencer a Suzane a terminar o relacionamento: eles descobriram o envolvimento de Daniel com drogas e passaram a rejeitar a entrada do genro em casa. Além disso, Manfred era muito exigente em relação aos estudos, e não queria que ele atrapalhasse os estudos da filha. Para evitar brigas, os dois começaram a se encontrar escondidos, e os amigos e o irmão passaram a encobrir o casal.

Em abril de 2002, Suzane disse que iria dormir na casa de uma amiga, mas foi encontrar Daniel. Marísia telefonou para essa amiga e acabou descobrindo que a filha não estava lá. Quando a garota voltou para casa, ela exigiu explicações e Suzane contou que havia passado a noite em um motel com Daniel. Depois desse dia, os pais resolveram proibir o namoro definitivamente.

No Dia das Mães daquele ano, estava combinado que a família iria almoçar juntos em um restaurante, mas Suzane se recusou a ir. Uma briga começou entre ela e o pai: ela xingou Manfred e ele reagiu dando um tapa nela. Ela saiu de casa dizendo que não voltaria mais, porém voltou depois dizendo que tinha terminado o namoro. Na realidade, ela tinha conversado com Daniel e os dois combinaram de continuar o namoro escondido.

Em julho, Manfred e Marísia viajaram para a Europa e ficaram um mês fora. Durante esse tempo, Daniel se mudou para a casa dos Richthofen e eles aproveitaram esses dias na piscina, se embebedando e usando drogas. Suzane posteriormente disse que aquele mês foi “como um sonho”. Quando os pais voltaram, Suzane pediu para que o pai comprasse um apartamento, na esperança de que ela se mudasse com Daniel, mas Manfred negou e disse que a filha deveria se formar primeiro e comprar com o próprio dinheiro. Nessa época o relacionamento de Suzane com os pais piorou muito, e as brigas ficaram cada vez mais frequentes.


A casa da família von Richthofen em 2012


Em setembro de 2002, a polícia militar foi chamada para apartar uma briga por volta das 2h da manhã: Manfred estava brigando com Daniel no portão de casa, enquanto Suzane tentava acalmar os dois. Segundo Daniel, a briga começou porque Manfred descobriu que eles ainda estavam namorando e ameaçou bater na filha. Ele chegou a dizer para os policiais: “Qualquer dia desses ainda quebro esse moleque” para um dos policiais antes de ir embora.

Dias antes do crime, Suzane e Daniel chegaram a testar uma arma calibre .38, atirando em direção a uma pedra envolta num pano de chão, para conferir se o barulho do tiro seria ouvido do lado de fora. O som foi muito alto, então os dois descartaram esse método.

Pensando em uma forma de evitar vestígios, os dois alugaram DVDs da série CSI (Crime Scene Investigation) e assistiram a primeira e a segunda temporada para “estudar” como não deixar impressões digitais e fios de cabelo na cena do crime. O casal então passou a persuadir Cristian a cometer crime. No começo, ele ficou com medo de ter problemas ainda maiores com a polícia, mas acabou sendo convencido pelo dinheiro que iria receber.


Suzane e Daniel assistiram vários episódios de CSI (Crime Scene Investigation) para estudar como não deixar vestígios na cena do crime


No dia 30 de outubro de 2002, tudo ocorreu de forma normal na casa. Suzane combinou com Andreas de levar ele a até uma lan house para que ele jogasse com alguns amigos. Por volta das 21h, Andreas colocou travesseiros embaixo das cobertas para simular que estava dormindo e saiu escondido com a irmã e o cunhado.

Algumas horas depois, o vigia Francisco Genivaldo Modesto Diniz estava assistindo a um jogo de futebol de dentro da guarita que ficava na rua dos von Richthofen, quando viu o carro de Suzane entrar na rua e seguir até sua casa. Depois de fechar as portas da garagem, Suzane, Daniel e Cristian repassaram as etapas do plano. Os dois vestiram luvas cirúrgicas e pegaram as armas que usariam do crime: dois bastões feitos com perfilados de ferro.

Os 3 entraram na casa e Suzane subiu para verificar se seus pais realmente estavam dormindo. Depois, fez sinal para que os dois entrassem no quarto e se posicionassem. Ela acendeu a luz e desceu para o andar debaixo, vestiu uma luva cirúrgica, foi até despensa, pegou sacos de lixo e deixou em cima de um tapete. Depois, foi até a biblioteca e tapou os ouvidos para não ouvir a brutalidade que estava acontecendo.


Suzane bagunçou a biblioteca para fingir um latrocínio


No quarto, os irmãos começaram a bater em Manfred e Marísia. Ele não conseguiu se defender, mas ela teve tempo de tentar se proteger com uma das mãos e teve alguns dedos quebrados. Eles acharam que os dois morreriam na hora, mas não foi isso que aconteceu: quando alguém sofre um traumatismo craniano grave, o corpo começa uma tentativa desesperada de respirar, produzindo uma espécie de ronco alto.

Os dois acabaram se desesperando com aquela cena, Daniel correu para o banheiro, pegou toalhas de rosto, molhou e os dois colocaram elas sobre o rosto das vítimas, mas não funcionou. Ele então foi até a cozinha, pegou uma jarra, encheu com água da torneira do banheiro e despejou sobre o rosto de Manfred, e o barulho cessou. Cristian tentou fazer o mesmo com Marísia, mas o barulho não parava. Ele então desceu, pegou os sacos de lixo e usou para sufocá-la.

Os 3 então começaram a simular um cenário de latrocínio: vasculharam armários e gavetas, espalharam joias, livros, documentos e colocaram uma arma na mão de Manfred. Suzane abriu uma pasta de couro do pai e retirou o dinheiro que ele guardava. Daniel percebeu que essa pasta precisava estar cortada e fez isso com uma faca de cozinha. Eles quase esqueceram os bastões no quarto, mas Daniel voltou para buscá-los e lavou o sangue na água da piscina. Eles trocaram de roupa e guardaram todas as “provas” do crime dentro de um dos sacos de lixo.

Daniel deixou o irmão perto do apartamento onde ele morava com a avó e o casal foi para um motel na zona sul. Antes de saírem, Daniel pediu uma nota fiscal na tentativa de comprovar que eles estavam longe na hora do crime. Depois, os dois passaram na lan house para buscar Andreas e foram para casa de Daniel, onde ficaram até as 4h.

Suzane e Andreas chegaram em casa e se depararam com a porta da frente destrancada e a janela da biblioteca aberta. Ele quis subir as escadas para ir até o quarto do casal, mas foi impedido por Suzane. Os dois foram para a frente da casa e ela telefonou para Daniel, que orientou para que eles chamassem a polícia.

O primeiro policial que chegou no local estranhou o comportamento de Suzane, que perguntou quais seriam os procedimentos que a polícia iria seguir. Ele entrou na casa e encontrou o casal morto, mas não disse nada para Suzane e Andreas. Daniel chegou no local e perguntou se alguém tinha levado o dinheiro que a família guardava, dizendo os valores exatos das quantias guardadas. O policial pediu para Daniel contar sobre os assassinatos para a namorada e o cunhado, que foram consolados pelos pais dele. Andreas nitidamente ficou em estado de choque, enquanto Suzane se limitou a perguntar para o policial “O que eu faço agora?”.


Imprensa e curiosos na frente da casa da família von Richthofen


A perícia chegou na casa dos Richthofen por volta das 7h30. Os responsáveis foram os peritos Ricardo da Silva Salada e Agostinho Pereira Salgueiro, além do chefe dos investigadores Robson Feitosa. Na primeira geral pela casa eles perceberam que não havia sinais de arrombamento, que alguns cômodos estavam revirados, mas a grande maioria estavam intactos. Isso indicava que, quem quer que tenha feito aquilo, sabia o que estava procurando.

No quarto, os peritos removeram o saco de lixo da cabeça de Marísia e viram a brutalidade do ataque. Logo eles já descartaram que aquela arma na mão de Manfred tinha sido a arma do crime. Os peritos também notaram a toalha no rosto dele. Isso era um indicio de que o assassino cobriu o rosto para não ver o que tinha feito, porque talvez ele conhecesse as vítimas. Também ficou claro que havia dois assassinos, um batendo em cada vítima, que que a força aplicada nos golpes foi tanta que provavelmente se tratava de dois homens. O pai de Daniel chegou no local e foi questionado pelos policiais sobre a família von Richthofen. Ele contou diversos detalhes sobre o comportamento do casal e sobre o namoro de Suzane e Daniel.

A investigação foi comandada pela delegada Dra. Cíntia Tucunduva, que pediu para dois investigadores buscarem Suzane, Andreas e Daniel e levasse eles para a delegacia para o interrogatório. Assim como os outros policiais, a Dra. Cíntia também achou que a casa estava pouco bagunçada para um latrocínio, e os bandidos levaram dinheiro, mas não levaram nenhum aparelho eletrônico. Um ponto muito importante foi sobre como os bandidos teriam entrado na casa: os muros eram muito altos, não havia sinal de arrombamento ou entrada pela casa de algum vizinho, além do portão estar trancado.


O perito Ricardo Salada (à esquerda) e a delegada Drª Cíntia Tucunduva (à direita)


Na delegacia, Suzane e Daniel estavam tranquilos, muito diferente de Andreas. Ele deu seu depoimento acompanhada de uma advogada designada pela empresa que o pai trabalhava. Nesse primeiro momento ele basicamente relatou sua rotina durante aquele dia, contou sobre as almofadas usadas para fingir que estava dormindo e sobre a ida até a lan house.

Os policiais acharam o depoimento um tanto vago, e sentiam que o garoto estava escondendo algo. Eles até tentaram colher o depoimento em outro local na delegacia para que ele se sentisse mais acolhido, mas o resultado foi o mesmo. O delegado então foi duro com o garoto, dizendo que se ele estivesse envolvido no crime, iria para a Febem (atual Fundação Casa).

Andreas então contou que ele e Suzane fumavam maconha, e que a irmã e o namorado frequentavam motéis com certa regularidade. Inclusive contou que uma vez ele foi escondido ao motel com eles para fumar maconha. Depois, ele falou sobre a relação de Suzane e Daniel, a revolta dos pais com o namoro e a cobertura que ele dava para as mentiras da irmã. Por fim, falou que a irmã tinha pedido para ele não falar sobre Daniel para os policiais porque ela tinha medo de que o namorado fosse tratado como suspeito.

Enquanto Andreas deu um depoimento vago, o depoimento de Suzane parecia ensaiado previamente: ela contou que chegou em casa por volta da meia-noite para pegar um dinheiro no seu quarto e seguiu com o namorado para um motel. Quando foi perguntada se ela suspeitava de algo, ela contou que ela e a mãe haviam sido seguidas por um Escort azul de vidro escuro dias antes. Também relatou que suspeitava de uma antiga empregada da casa, que tinha sido demitida por ter furtado dinheiro.

Logo no primeiro depoimento de Suzane já apareceram algumas inconsistências: na primeira vez ela disse que não havia entrado na casa e comentou sobre o dinheiro roubado na mala cortada. Acontece que nem a própria perícia tinha visto o corte ainda, provando que Suzane precisava estar dentro da casa para saber desse detalhe. A hora aproximada do crime também não batia com o depoimento de Suzane: ela disse que passou em casa por volta da meia-noite e visto os pais dormindo, mas o legista disse que as mortes teria sido antes disso. Suzane também mentiu sobre a relação dela com seus pais, e disse que eles apoiavam seu namoro com Daniel.

O depoimento de Daniel foi rápido, porém, tinha várias contradições com o depoimento da namorada. Também foram ouvidos empregados da casa e o irmão de Marísia, que contou sobre os problemas que o casal estava tendo com a filha e com o namorado dela.


A mala cortada: dinheiro roubado estava dentro dela


Quando falaram com os vizinhos sobre a família, eles contaram sobre a reclusão dos Richthofen, mas alertaram sobre a presença da polícia em mais de uma ocasião. Enquanto isso, os médicos-legistas Dr. André Ribeiro Morrone e Dr. Antonio Carlos Gonçalves Ferro realizaram a necropsia do casal e concluíram o que já era bem visível: a causa da morte foi traumatismo cranioencefálico causado por um objeto contundente.

Suzane e Andreas iriam para a casa dos Cravinhos, mas a polícia convenceu que era melhor que os namorados ficassem separados, isso porque os telefones deles foram grampeados e isso estragaria os planos da polícia. Infelizmente eles não escutaram nada suspeito, apenas um diálogo em que Daniel avisa Suzane: “Não vamos conversar por telefone porque pode estar grampeado”.

No dia 1º de novembro ocorreu o enterro de Manfred e Marísia von Richthofen, e juntou muitos familiares, amigos, curiosos e jornalistas. Suzane foi muito criticada pela roupa que usou no enterro e por “chorar pouco”.


O enterro de Manfred e Marísia von Richthofen: Suzane foi criticada pela forma como estava vestida


Um dia depois, dois delegados foram até a casa em uma viatura descaracterizada e encontraram Suzane e Daniel na piscina, fumando, bebendo cerveja e ouvindo música. Ela conduziu as autoridades pela casa e levou eles até o quarto do casal, apontou para a cama e disse: “Aqui morreram meus pais”.

No dia 4 de novembro foi colhido o segundo depoimento de Suzane. Ela contou para a delegada, Dra. Cíntia, que notou a falta da chave mestra da casa, do controle remoto do portão, de algumas joias e dinheiro. Ela novamente negou que os pais não gostassem de Daniel, e também negou que tinha apanhado do pai em algum momento, mas disse que os pais tinham o hábito de ingerir bebida alcoólica diariamente, com Manfred escondendo garrafas de bebida pela casa. Ainda segundo ela, o pai tinha vários casos extraconjugais, o que causava diversas brigas entre ele e Marísia. Extraoficialmente, em conversa com a delegada Cíntia, Suzane fez algumas alegações sobre a sexualidade da mãe, alegando que ela teria tido um caso com uma amiga.

Quem também depôs foi o Sr. Astrogildo, que ele falou diversa informações que contrariaram o que todos tinham dito anteriormente. Ele disse não saber de qualquer proibição do namoro de Suzane e Daniel, e disse que o relacionamento da família Cravinhos com os Richthofen era bom, com uma família frequentando a casa da outra. Os policiais também ouviram amigos da faculdade de Suzane, que disseram que ela se queixou de que o pai não iria fazer uma festa para comemorar o seu aniversário de 19 anos devido ao seu comportamento, o que deixou ela muito revoltada. 3 dias após a morte dos pais, ela fez uma festa no sítio da família.

Depois de tantas inconsistências, o cerco estava fechando contra Suzane e os irmãos Cravinhos. Agora eles precisavam que alguém confessasse. O que ninguém esperava é que uma denúncia anônima deu a dica final que os policiais precisavam.


Cristian Cravinhos, o irmão de Daniel


O delegado da Equipe Especial de Investigação de Homicídios Múltiplos, Dr. Ismael Lopes Rodrigues, recebeu uma denúncia anônima dizendo que Cristian Cravinhos havia comprado uma moto cara em condições “suspeitas”.

As investigações descobriram que, no dia 31 de outubro, Cristian procurou um amigo chamado Jorge Ricardo March dizendo que gostaria de comprar uma moto, mas precisava que ele retirasse em seu nome. Os dois foram até uma loja no bairro do Brooklin onde Cristian comprou a moto e pagou em dólar. Jorge achou a situação muito estranha, porque sabia que o amigo vivia de bicos e constantemente estava sem dinheiro.

A polícia então começou a apertar Cristian para saber a origem do dinheiro da moto: primeiro ele disse que tinha ganhado do pai, depois, que tinha vendido alguns itens pessoais. Os policiais disseram que, se ele não dissesse a verdade, acabaria preso enquanto Suzane e Daniel ficariam livres. Cristian ficou visivelmente abalado, foi algemado e então resolveu confessar tudo em detalhes, dizendo que Suzane e Daniel planejaram os assassinatos para ficarem juntos.


A moto adquirida por Cristian: pista foi essencial para a prisão dos acusados


A próxima pessoa que confessou foi Suzane: segundo seu relato, a família tinha um relacionamento perfeito, até que sua mãe começou a implicar com Daniel. Ela contou sobre o tapa que tinha recebido do pai, sobre o mês que Daniel passou na sua casa, sobre a confecção das armas e sobre o plano. Suzane queria passar uma ideia de que Daniel fez o plano, e quando ela viu, já era tarde demais. Ela negou que havia dinheiro envolvido no crime.

Os policiais chamaram Daniel e disseram que Cristian e Suzane já tinham confessado, só restava ele. A confissão de Daniel batia com as outras, porém, tinha duas diferenças importantes: segundo ele, foi Suzane que teve a ideia de matar os próprios pais; e que havia sim planos de usar o dinheiro da herança.


Cristian, Daniel e Suzane presos após as confissões


Suzane, Daniel e Cristian foram presos e transferidos: ela para a Penitenciária Feminina do Carandiru, enquanto Daniel e Cristian foram levados ao Belém 1 e Belém 2, respectivamente. A cela de Suzane tinha cama, televisão, chuveiro e vaso sanitário. Ela recebeu a visita da advogada Claudia Bernasconi e de dois outros defensores, e pediu para receber a visita do irmão e de sua avó materna.

No Carandiru, Suzane foi ameaçada de morte por integrantes do PCC, e durante uma rebelião chegou a ter que se esconder. Após isso, ela foi transferida para o Centro de Ressocialização Feminino de Rio Claro. Enquanto o julgamento não foi marcado, ela entrou com um pedido de habeas corpus, mas foi negado. Uma nova tentativa foi feita em junho de 2005, e ela foi solta no fim do mês.


Suzane deixando o Centro de Ressocialização Feminino de Rio Claro após habeas corpus


A mídia ficou em polvorosa quando o julgamento dos 3 acusados foi marcado para 5 de junho de 2006. Em uma tentativa de ajudar sua cliente, o advogado-tutor de Suzane, Denivaldo Barni, concordou com uma entrevista exclusiva para o programa Fantástico. A gravação foi feita em 5 de abril: Suzane, na época com 22 anos, estava vestida com uma camiseta da Minnie, pantufas de coelho, usava uma franjinha e falava com voz infantil. Suzane chorou, culpou Daniel por tudo o que aconteceu, disse que ele destruiu sua família e que sentia ódio por ele, tudo isso enquanto era consolada pelo advogado.

O programa acabou explorando a ideia de que a entrevista fosse uma farsa da defesa para melhorar a imagem dela, isso porque, antes da entrevista, uma câmera registrou uma conversa entre Denivaldo e Suzane em que ele a orientava a chorar e se comportar como uma jovem fragilizada.

Se a ideia da entrevista era melhorar a imagem de Suzane, o resultado foi o oposto: depois da reportagem ir ao ar, a justiça pediu a prisão dela alegando que suas atitudes poderiam atrapalhar o julgamento, e que ela não poderia ter contato com o irmão, já que havia um desacordo entre os dois quanto a partilha dos bens da família.



O julgamento de 5 de julho foi adiado por alegações da defesa dos irmãos Cravinhos sobre falta de tempo para planejar a defesa e porque uma testemunha importante não compareceu. O julgamento foi remarcado para 17 de julho, e aconteceu no 1º Tribunal do Júri de São Paulo.

Logo no primeiro dia, surgiram algumas polêmicas e novas versões para os fatos: Suzane afirmou que Daniel era excessivamente ciumento e ameaçava se matar quando ela estava longe. Também disse que ele exigia dinheiro e presentes caros, e que era tratada como “a galinha dos ovos de ouro” pela família Cravinhos. Quanto a morte dos pais, ela disse que não tinha conhecimento do plano de Daniel, e que no dia dos fatos estava "muito maconhada", e só deu conta que os pais foram assassinados muito tempo depois.

Cristian, por sua vez, também apresentou novas informações: segundo ele, Suzane e Daniel armaram o plano, e foi o irmão que matou Manfred e Marísia, e ele apenas confessou o crime para livrar Daniel. Já Daniel disse que a mentoria do plano era de Suzane, mas alegou que a namorada sofria agressões físicas, verbais e até abusos sexuais do pai. A defesa se pautou bastante na ideia de que Suzane era mentirosa e manipuladora.


Suzane von Richthofen chega algemada para o julgamento


No segundo dia, o depoimento principal foi o de Andreas. Ele negou qualquer abuso do pai com Suzane e classificou a relação da irmã com os pais como normal, sem muitos conflitos. Ele também disse que não tinha perdoado a irmã, e que não acreditava no arrependimento dela. Andreas, que agora morava com um tio, disse também que se sentia ameaçado pela irmã e que ela estava complicando sua vida por conta das brigas judiciais pela herança.

O próximo depoimento importante foi a da delegada Cíntia Tucunduva. Ela desmentiu a versão de Cristian de que somente Daniel golpeou o casal, dizendo que seria impossível que Manfred ou Marísia não tivesse reagido enquanto o outro estava sendo atacado. Ela também ressaltou a frieza de Suzane desde o início, relatando um caso que aconteceu após a confissão: antes de ser fotografada e fichada no DHPP, Suzane teria penteado os cabelos e perguntado ao namorado se estava bonita.

No terceiro dia de julgamento aconteceu o depoimento de Nadja Cravinhos: ela chorou muito, disse que Daniel e Cristian estavam arrependimentos e envergonhados pelo crime, e pediu aos jurados punição para os 3. Ela também reforçou a teoria dos abusos que Suzane sofria dos pais e que classificou Manfred e Marísia como "extremamente agressivos" com os filhos. Depois do depoimento da mãe, Cristian confessou perante o júri que ele ajudou Daniel a golpear o casal.

Depôs também uma amiga e ex-colega de faculdade chamada Fernanda Kitahara, que confirmou que Suzane, Andreas e Daniel usavam maconha, ressaltou que os desentendimentos entre Suzane e os pais existiam, e que o casal era muito controlador. Fernanda também disse que Daniel era muito ciumento, ao ponto de proibir Suzane de ter amigos na faculdade, e que Daniel chegou a dizer que Suzane teria de escolher entre os pais e o namorado.

O quarto dia de julgamento foi reservado para os depoimentos da perícia, que mostrou imagens da cena do crime e o laudo do IML sobre as mortes. Os réus permaneceram todo o tempo de costas para o telão. Também foi exibido os vídeos da reconstituição do crime e lidas algumas cartas trocadas entre Suzane e Daniel. Nesse ponto, Daniel chorou muito, mas Suzane demonstrou estar constrangida.


Suzane durante a reconstituição do crime


No último aconteceu o debate entre acusação e defesa: a advogada Gislaine Jabur tentou convencer os jurados de que Cristian não podia ser acusado de duplo homicídio, porque ele tinha matado apenas Marísia; e que não tinha ocorrido roubo ou furto, já que ele ficou com o dinheiro do casal a pedido de Suzane. Já a promotoria acusou a defesa de Suzane de “preconceito social”, pintando a família Cravinhos como delinquente e propensa a cometer os crimes, e tentar passar a imagem de que Suzane era ingênua e foi manipulada pelo namorado.

Os jurados se reuniram e decidiram a sentença, que foi lida pelo juiz Alberto Anderson Filho: Suzane Richthofen e Daniel Cravinhos foram condenados a 39 anos de reclusão, enquanto Cristian foi condenado a 38 anos pelo assassinato de Manfred e Marísia von Richthofen.

Após o julgamento, Suzane voltou para o Centro de Ressocialização Feminino de Rio Claro. Em setembro de 2006, ela foi transferência para a Penitenciária Feminina de Ribeirão Preto, isso porque outras detentas começaram a reclamar que Suzane recebia regalias como usar o computador da unidade prisional para acessar a internet e se comunicar com os amigos, e supostamente ter feito um perfil no finado Orkut. Em 2007, ela foi transferida novamente: dessa vez para o Complexo Prisional de Tremembé, prisão conhecida por abrigar criminosos de casos de grande repercussão como o casal Nardoni, Elize Matsunaga e Roger Abdelmassih.


Complexo Prisional de Tremembé


Em outubro de 2014, Suzane anunciou seu casamento com outra detenta chamada Sandra Regina Ruiz Gomes, conhecida como "Sandrão". Sandrão, inclusive, era ex-namorada de Elize Matsunaga, que foi presa por matar e esquartejar o marido, Marcos Matsunaga. Suzane e Sandrão assinaram um documento de reconhecimento afetivo, que é exigido para todas as presas que se casam na prisão, e foram transferidas para a cela das presas casadas.

Em fevereiro de 2015, Suzane deu mais uma entrevista polêmica: dessa vez, para o apresentador Gugu Liberato. Lá ela confessou que planejou o assassinato dos pais juntamente com os irmãos Cravinhos, disse estar arrependida do crime e que gostaria de receber o perdão do irmão. Suzane, supostamente, teria recebido R$ 120 mil pela entrevista.



O relacionamento das duas acabou pouco tempo depois da entrevista, isso porque Sandrão recebeu progressão do regime fechado e foi transferida para o Centro de Ressocialização Feminino de São José dos Campos. Em 2016 ela começou a namorar o empresário Rogério Olberg: os dois se conheceram através de uma detenta, depois que a justiça avisou Suzane que ela deveria ter um endereço fixo para migrar para o regime semiaberto. Assim, os dois iniciaram o namoro e a presidiária deu o endereço dele para poder passar as saídas no local. O relacionamento deles chegou ao fim em 2021.

Em fevereiro de 2017, Suzane foi selecionada para conseguir um empréstimo estudantil através do FIES (Fundo de Financiamento Estudantil) para cursar administração em uma faculdade particular em Taubaté. Ela conseguiu autorização da Vara de Execuções Criminais, mas acabou desistindo de cursar. Em 2020, ela conseguiu uma vaga pelo Sisu no curso de Gestão de Turismo, no Instituto Federal de Campos do Jordão. Ela chegou a se matriculou, mas não cursou por não ter sido autorizada pela Justiça para deixar o presídio.

Em setembro de 2021, ela conseguiu uma vaga no curso de Biomedicina. Dessa vez a Justiça autorizou a saída dela da prisão diariamente, das 17h até às 23h45. Ela precisa obrigatoriamente frequentar as aulas, e inclusive faz isso indo e voltando de ônibus.

Quanto aos irmãos Cravinhos, sabe-se que Daniel conseguiu passar para o regime semiaberto em 2013 e depois para o aberto, em 2018, cumprindo o restante da pena em liberdade por bom comportamento. Ele é casado e leva uma vida discreta. Cristian, por sua vez, chegou a passar para o regime semiaberto, mas foi preso novamente por ter agredido uma mulher em um bar em Sorocaba (SP). Na época, os policiais que atenderam a ocorrência declararam que ele chegou a oferecer dinheiro para não ser preso. Diferente do irmão, ele teve diversas faltas disciplinares na cadeira. Segundo algumas fontes, ele chegou a ter um relacionamento com outro detento.


Cristian foi preso novamente, enquanto Daniel está solto


A herança dos von Richthofen sempre foi um tema que circundou o caso. Na época dos assassinatos, os bens do casal estavam avaliados em mais de 11 milhões de reais. Uma investigação apontou que Manfred, em 2001, teria aberto uma conta na Suíça no nome de Suzane, com uma contia de 30 milhões de euros. Ninguém sabia a origem do dinheiro, mas existiam indícios de que era fruto de corrupção na Dersa, a empresa em que Manfred trabalhava.

Os debates começaram porque, depois que cumprisse pena, Suzane poderia ter acesso a esse dinheiro, já que a conta estava em seu nome. O MP não conseguiu comprovar que as contas de fato existiam, e o caso ficou por isso mesmo.

Quanto a herança propriamente dita, depois de várias tentativas de receber o dinheiro, a justiça decidiu em 2011 que Suzane é indigna de receber a herança, visto que sua condenação foi justamente pelo assassinato de seus pais. Em outubro de 2014, Suzane procurou a Justiça abrindo mão de toda a herança em benefício do irmão, que não via desde 2006. Em março de 2015, a Justiça de São Paulo determinou que o único beneficiário da herança era Andreas.

Sobre o irmão de Suzane, sabe-se que ele foi morar com um tio chamado Miguel Abdalla. Enquanto a irmã estava presa, visitou ela pouquíssimas vezes. Em uma dessas, o advogado da irmã divulgou um bilhete supostamente escrito por ele, em que perdoava a irmã. Após a divulgação do bilhete, Andreas foi bombardeado pela mídia, o que acabou chamando a atenção do Centro de Apoio Operacional das Promotorias da Criança e Adolescente, que enviou uma notificação ao advogado de Suzane.

Em 2005, quando Suzane foi solta, ele procurou a justiça após ver a irmã próxima da casa em que ele vivia com o tio e a avó, e os três disseram que não iriam acolhê-la, mesmo ela ligando semanalmente para eles. Ele não deu entrevistas ou falou sobre o caso até 2015, quando divulgou uma carta negando o suposto caso de corrupção do pai. Sobre a irmã, se limitou a dizer "Escrevo-lhe esta mensagem por vias igualmente públicas às quais o Sr. se vale para comentar o caso da minha família. Entendo que sua raiva e indignação para com estes três assassinos seja imensa e muito da sociedade compartilha esse sentimento. E eu também. É nojento".

Andreas cursou Farmácia e Bioquímica na Universidade de São Paulo entre 2005 e 2009. Ingressou no doutorado em Química Orgânica em 2010. A avó faleceu em 2006, porém, ele continuou morando com o tio até 2011, quando se mudou para a Suíça.

Em 2017, 3 casas foram invadidas na rua Engenheiro Alonso de Azevedo, na zona sul de São Paulo. Uma mulher chamada Sônia Maria dos Santos foi avisada por uma vizinha que havia uma pessoa no seu quintal. Ela e o marido se depararam com um homem deitado no terreno e chamaram a polícia. Esse homem foi levado para Hospital Municipal do Campo Limpo, estava sujo, com as roupas rasgadas e machucado. Lá ele foi reconhecido: era Andreas, então com 29 anos, assustado e dizendo frases desconexas. Seu tio foi à unidade para buscá-lo, mas foi informado que ele tinha sido transferido para a clínica São João de Deus, especializada na recuperação de usuários de drogas. Essa foi a última vez que ele foi visto.


Andreas von Richthofen


O assassinato de Manfred e Marísia von Richthofen é considerado como um dos crimes mais emblemáticos da história do país. Foi abordado nos livros “O Quinto Mandamento” e “Casos de Família”, escrito pela criminóloga Ilana Casoy. Em 2019, o jornalista Ullisses Campbell escreveu “Suzane: assassina e manipuladora”. No livro, o escritor garante que pesquisou durante anos o comportamento de Suzane na cadeia, e que ela é uma pessoa manipuladora, que utiliza sua astúcia e sedução para conseguir o que quer. O advogado de Suzane entrou com um pedido de proibição do lançamento ao Tribunal de Justiça de São Paulo, e que foi acatado. A obra ficou censurada por pouco mais de um mês, quando a decisão foi derrubada pelo Supremo Tribunal Federal.

Em 2021, foram lançados dois filmes baseados no caso: “A Menina que Matou os Pais” e “O Menino que Matou Meus Pais”, dirigidos pelo cineasta Maurício Eça. Os filmes mostrariam o julgamento do ponto de vista de Daniel e de Suzane, respectivamente. Como os roteiros foram escritos baseados nos autos do processo, nenhum dos acusados receberia qualquer valor pelo uso de imagem. Suzane foi interpretada pela atriz Carla Diaz e Daniel pelo ator Leonardo Bittencourt.


Poster dos filmes baseados no caso de Suzane von Richthofen


• FONTES: Casos de Família (Ilana Casoy), Investigação Criminal, Folha de S. Paulo, G1, Estadão, Estado de Minas, BBC, O Correio, Exame, Terra, O Globo.

27.952 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Comments


bottom of page