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  • Foto do escritorRodolfo Brenner

#1 - Horror em Cheshire, Connecticut | CRIMES REAIS

Um crime que chocou a comunidade de Cheshire, em Connecticut, quando dois bandidos invadiram a casa da família Petit e cometeram uma série de atos hediondos, nesse que ficaria conhecido como a invasão domiciliar mais brutal dos Estados Unidos. Além disso, a polícia, que não estava acostumada com crimes no local, cometeu uma série de erros que prejudicaram ainda mais a situação.


Essa é a versão escrita do episódio #1 - Horror em Cheshire, Connecticut:


O caso se passou em Cheshire, uma pequena cidade que, segundo o censo de 2010, possuí pouco mais de 29 mil habitantes. Ela é considerada uma “cidade-dormitório”, um termo que designa um município majoritariamente residencial, que não possui atividade industrial, sem grandes escolas, universidades ou escritórios, e por isso seus habitantes trabalham e estudam em outras cidades, apenas voltando para casa para dormir.

É nessa cidade que moravam William Petit e sua esposa Jennifer. William era médico endocrinologista e Jennifer era enfermeira pediátrica, e os dois se conheceram ainda na época de faculdade. O casal tinha duas filhas: Hayley de 17 anos e Michaela de 11 na época do caso. Hayley era descrita como muito determinada e inteligente. Quando sua mãe foi diagnosticada com Esclerose Múltipla ela tinha apenas 9 anos e criou com a ajuda da família e de amigos um fundo chamado Hayley's Hope, arrecadando mais de US$ 55.000 e realizando uma caminhada anual na cidade para conscientizar as pessoas sobre a doença. O sonho dela era seguir a carreira do pai, e inclusive ela já estava com tudo pronto para estudar medicina na Faculdade de Dartmouth, em New Hampshire. A Michaela era a irmã mais nova, e foi descrita pela família como muito carinhosa e gentil. Ela gostava muito de cozinhar e de jardinagem, além de ser muito apegada com seus avós. Quando Hayley fosse para a faculdade, ela já estava planejando abrir um novo fundo chamado Michaela’s Miracle para continuar o trabalho da irmã. Enquanto a família vivia normalmente, eles nem podiam imaginar que estavam sendo observados por dois homens, que estavam esperando todos irem dormir para entrar na casa.

Joshua Komisarjevsky, ou Josh, como era chamado, passou boa parte de sua vida entrando e saindo da prisão por acusações de roubo. Em 2007, ele tinha 26 anos e estava namorando uma jovem chamada Caroline Mesel, de 18 anos. O relacionamento deles era sério e eles até pensavam em se casar, porém o pai de Caroline não aprovava o namoro por considerar Josh uma péssima influência por causa da reputação dele como criminoso. Além disso, não gostava da diferença de idade entre eles, e considerava Josh “um pedófilo”, que só estava com interessado em sua filha porque ela parecia mais jovem.

Em 2006 Josh conheceu Steven Hayes enquanto estavam em uma casa de recuperação em Hartford: Josh era viciado em metanfetamina e Steven em crack. Segundo a ficha criminal dos dois, a especialidade de Josh era a invasão domiciliar, enquanto Steven preferia arrombar carros. Ambos roubavam itens de alto valor dos locais e fugiam. Na época, Steven morava com sua mãe e dois irmãos, cuja relação era péssima: ele era descrito pelos irmãos como manipulador, violento, astuto e calculista. Em 1992, Hayes teve uma filha de um rápido relacionamento. A filha de Steven vivia com a mãe, porém via o pai semanalmente. Em entrevistas, ela disse que ele sempre foi carinhoso com ela, e que nem passava por sua cabeça que ele poderia exibir um lado violento ou agressivo.

Um dia antes de invadirem a residência da família Petit, Josh convenceu Steven de que invasão domiciliar era uma forma fácil e rápida de ganhar dinheiro. Quando Steven viu Josh invadir uma casa e sair com objetos sem ser pego, ele concordou acreditando que ninguém sairia machucado, porém os planos do Josh eram outros...


Câmeras de segurança mostrando Jennifer e Michaela no supermercado


A tarde de 22 de julho de 2007 foi um domingo tranquilo para os Petit: a família tinha ido à igreja pela manhã, William jogou golfe com seu pai no período da tarde, enquanto Hayley estava com um grupo de amigos na praia. Enquanto isso, Jennifer e Michaela foram até um supermercado afim de comprar ingredientes para um jantar especial que Michaela planejava fazer para a família. Depois do jantar, todos assistiram TV e foram dormir, e William acabou dormindo no sofá da sala.

Por volta das 3h da manhã de 23 de julho, Josh e Steven invadiram a residência com uma pistola e um taco de beisebol. Logo quando eles entraram, encontraram William dormindo. Josh acertou várias vezes a dele cabeça com o taco, amarrou ele no sofá e disse para ele não gritar ou chamar a atenção, pois eles só queriam dinheiro. Josh perguntou onde estava o cofre da casa, mas William disse que a família não tinha um.

Os dois bandidos subiram as escadas, acordaram as mulheres e amarraram cada uma em seu quarto, colocando uma fronha de travesseiro sobre suas cabeças. Novamente elas foram alertadas a não fazerem barulho, garantindo que ninguém sairia machucado e que eles só queriam dinheiro.

Depois de amarrar as mulheres, os dois desceram e levaram William para o porão e o amarraram em um pilar. Por causa da perda de sangue, William estava parcialmente inconsciente. Josh e Steven vasculharam a casa atrás do dinheiro, porém, assim como William tinha dito, não havia cofre. Ao invés disso, eles encontraram alguns estratos bancários que mostravam que a família tinha dinheiro guardado em um banco. Então o plano de Josh mudou: eles levariam Jennifer ao banco assim que ele abrisse e obrigariam ela a sacar US$ 15.000.

Antes do banco abrir, Steven foi até um posto de gasolina com dois galões que tinha encontrado na casa da família. A ideia era levar a família para o carro e queimar a casa afim de tirar qualquer vestígio da presença dos dois.

Quando o banco abriu, Steven levou Jennifer até lá. Ela foi até o caixa e passou uma nota para atendente pedindo o dinheiro. A atendente percebeu que se tratava de um sequestro, porém Jennifer disse que os bandidos estavam “sendo gentis e só queriam dinheiro”. Depois de dar o dinheiro, a mulher do caixa passou a nota para o gerente do banco, que ligou imediatamente para a polícia.

A polícia foi enviada ao endereço usando veículos não identificados. Ao invés de invadirem o local para libertar os reféns, eles preferiram se esconde e observar a casa de uma certa distância. Enquanto Steven estava com Jennifer no banco, Josh estuprou Michaela e tirou fotos explicitas dela com seu celular. Quando os dois voltaram, Josh disse para Steven estuprar Jennifer, e ele seguiu as ordens. Josh então foi até o porão para assegurar que William estava amarrado, mas percebeu que ele tinha conseguido escapar. Além disso, os dois viram carros parando próximos de casa e concluíram que a polícia já estava no local.

Enquanto Josh e Steven cometiam os estupros, William, mesmo gravemente ferido, conseguiu chegar até a casa de um vizinho. Esse vizinho quase não o reconheceu de tanto sangue que havia escorrido pelo seu rosto. Ele chamou a polícia, mas foi informado que ela já estava no local. Infelizmente, já era tarde demais para as mulheres da família Petit: Steven matou Jennifer estrangulada depois do abuso. Depois, um dos dois jogou gasolina por todos os lugares e um ascendeu fogo, e isso incluiu Hayley e Michaela, que ainda estavam amarradas às camas. Os dois tentaram fugir, mas assim que saíram da garagem foram pegos pela polícia.

Da esquerda para a direita, as vítimas: Hayley (17), Jennifer (48) e Michaela (11)


Quando os bombeiros chegaram, já era tarde: o fogo já havia tomado conta da casa. No total, 3 pessoas morreram: Jennifer, que foi estrangulada, Hayley e Michaela que morreram por inalação de fumaça no andar de cima. A perícia concluiu pela posição do corpo de Hayley que ela foi queimada viva e tentou se livrar das chamas, mas sem sucesso. William foi levado para o hospital e conseguiu sobreviver.

Na delegacia, Steven contou tudo em detalhes para os detetives. Os dois discordaram apenas sobre quem colocou fogo na casa, jogando a culpa um para o outro. Nesse momento, o caso já estava tomando repercussão nacional: a pequena Cheshire estava abalada com tudo o que aconteceu, e os moradores fizeram uma vigília pelas mortes de Jennifer, Hayley e Michaela. Os dois criminosos concordaram em tentar fazer um acordo judicial para pegar prisão perpétua sem liberdade de condicional, porém isso não foi aceito pelo estado, que decidiu buscar a pena de morte através de um julgamento contando com júri.


A casa da família depois do incêndio


O primeiro julgado foi Steven Hayes em outubro de 2010. Seu advogado disse ao júri que a prisão perpétua seria a pior punição para seu cliente, que seria obrigado a conviver para o resto da vida com a culpa pelas suas ações. Entretanto, o júri decidiu pela execução. Steven pediu desculpas pelos seus atos e disse “a morte para mim será um alívio bem-vindo, espero que traga um pouco de paz e conforto para aqueles que tanto fiz mal”.

Josh foi julgado um ano depois, em outubro 2011. Durante a audiência, ele disse que não tinha planejado matar ninguém naquela noite, e que tudo o que ocorreu foi uma invasão domiciliar que deu errado. Novamente o júri decidiu pela pena de morte. A defesa de Josh entrou com um recurso alegando que o julgamento não poderia ter acontecido em Cheshire, já que os membros do júri seriam moradores da cidade e estariam influenciados pelo ambiente e pela mídia. Além disso, eles alegaram que Josh foi sempre mostrado como o mentor do crime, quando na verdade os piores atos foram cometidos por Steven. O pedido foi negado e o juiz disse que ambos tinham igual responsabilidade pelo que aconteceu naquela noite.

Steven nunca tentou apelar da pena de morte. Em entrevista para o documentário The Cheshire Murders, Thomas Ullman, o advogado de defesa, disse que Steven queria morrer, porém seu trabalho, por mais difícil que fosse, era tentar reduzir a pena de seu cliente.

Em 2015, houve uma reviravolta quanto as penas dos acusados: Connecticut aboliu a pena de morte em todo seu território, incluindo casos que já haviam sido julgados. Por causa disso, Steven Hayes e Joshua Komisarjevsky passaram automaticamente para a prisão perpétua sem possibilidade de liberdade condicional. Os advogados dos réus culparam o Conselho de Liberdade Condicional de Connecticut, que concedeu liberdade para seus clientes alguns meses antes do crime. Segundo eles, os dois jamais poderiam estar nas ruas devido ao seu extenso registro de crimes.

A policia foi durante criticada por não ter entrado na casa antes: no documentário The Cheshire Murders, outros membros da família Petit, incluindo a irmã de Jennifer, disseram que se a policia tivesse feito algo, todos estariam vivos. Em resposta, a polícia disse que por estar lidando com uma situação de reféns, não poderia adentrar ao local até saber quantos agressores estavam lá dentro. Os policiais também foram instruídos a não abordarem Steven quando ele saísse do carro depois de levar Jennifer ao banco. Falando do banco, ele também foi acusado de negligência por ter deixado Jennifer sair do local, mesmo depois de saber que se tratava de um sequestro.

A ultima atualização do caso foi em 2021, quando a Suprema Corte de Connecticut rejeitou uma apelação de Joshua Komisarjevsky. Josh e Steven seguem presos.


Joshua Komisarjevsky e Steven Hayes


O que aconteceu com a família Petit mudou para sempre a cidade de Cheshire, antes um local considerado pacífico. Os fundos de Hayley e Michaela continuam existindo até hoje. Todos os anos é realizada uma vigília comandada pelo movimento “Luzes da Esperança de Cheshire” para lembrar da alma de Jennifer, Hayley e Michaela Petit.

A organização Petit Family Foundation também presta serviços para a população mais carente da cidade, que realiza diferentes serviços sociais, doa alimentos e oferece bolsas de estudos em nome da família Petit.

Como foi dito anteriormente, William Petit conseguiu sobreviver. Por anos ele tentou garantir que Josh e Steven cumprissem pena de morte pelo crime, mesmo depois que o estado aboliu essa sentença. William se casou novamente e tem um filho. Ele concorreu como Representante do Estado de Connecticut pelo partido republicano e ainda está a frente da fundação que leva o nome de sua família.


Luzes acesas na cidade de Cheshire em homenagem às vitimas


FONTES: Talk Murder With Me, USA Today, NBC, Oxygen, Murderpedia, Ranker, WFSB, The New York Times, The Cheshire Murders.

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