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  • Foto do escritorRodolfo Brenner

#69 - Sarah Everard: Crime na Pandemia | CRIMES REAIS

No meio do caos da pandemia de COVID, o desaparecimento de uma mulher chama a atenção na Inglaterra. Para piorar, o suspeito era um policial, um agente da lei que deveria zelar pela vida dos britânicos. O caso causou uma série de protestos por todo o país, chamando a atenção para a violência contra as mulheres e o despreparo da polícia.


Essa é a versão escrita do episódio #69 - Sarah Everard: Crime na Pandemia:



Sarah Everard nasceu em 14/06/1987 em Surrey, um condado no sudeste da Inglaterra. Filha mais nova de Jeremy e Sue Everard, ela tinha um irmão chamado James e uma irmã chamada Katie. Ela cresceu na cidade de York e estudou na Fulford School. Seu ensino superior foi na Durham University, de 2005 a 2008, onde ela estudou Geografia Humana. Ela foi descrita como muito inteligente, bonita e gentil. Todos os amigos frisaram o quanto Sarah era excepcional e que dava muito suporte para as pessoas que ela gostava. Ela também era uma exímia corredora e tinha medalhas nessa categoria.

Sarah começou a trabalhar em 2009 e acumulou bastante experiência como gerente e diretora em agências de marketing e de relações públicas até chegar no seu emprego atual na Flipside Group, uma agência de mídias digitais. Na época do caso, Sarah estava morando em Brixton Hill, no sul de Londres.


Sarah Everard


No dia 03/03/2021, Sarah visitou uma amiga que morava na Leathwaite Road, em Clapham Junction. A Inglaterra é conhecida por ter um transporte público muito eficiente, onde você consegue ir para qualquer lugar de metrô ou de trem, porém, devido as restrições da COVID da época, ela preferiu voltar a pé. Ela saiu da casa da amiga perto das 9 da noite, em uma caminhada que duraria cerca de 50 minutos, mas nunca chegou em casa.

No dia seguinte ela tinha um encontro marcado com o seu namorado, um homem chamado Josh Lowth, mas ela não apareceu. Seus colegas de trabalho também ficaram preocupados quando ela não compareceu para uma reunião importante logo no começo do dia. Como ela não atendeu o telefone, Josh foi até a sua casa no início da noite e como ela não atendeu, ele decidiu chamar a polícia. Quando desapareceu, Sarah estava vestindo uma capa de chuva verde, calça azul marinho com desenhos de diamantes brancos, tênis laranja e turquesa e gorro de cor clara. Josh avisou a família de Sarah, que veio de York para Londres quando a investigação começou. Em comunicado, a família de Sarah disse: “A cada dia que passa estamos ficando mais preocupados com Sarah”.

No dia 05/03, a Scotland Yard liberou imagens de uma câmera de segurança que mostrava Sarah caminhando perto de um cruzamento em Tulse Hill, e possivelmente falando ao telefone por volta das 21h30. Essa ligação foi confirmada como sendo do namorado. Apesar de algumas suspeitas, ele tinha um álibi para aquela noite e também estava sendo bastante colaborativo nas buscas e nas divulgações.


Cartaz de desaparecida com fotos e informações de Sarah Everard


As buscas se concentraram em Clapham Common, Cavendish Road, New Park Road, Brixton Hill e Brixton Water Lane. No parque de Clapham Common, a polícia usou cães farejadores para buscar nos mais de 800 mil m² e três lagos que existem no local, mas nada foi encontrado. No dia 8, uma pessoa encontrou um gorro da cor creme em um arbusto em Clapham Common e chamou a polícia. Amigos e famíliares reconheceram a peça como sendo de Sarah.

No dia 9, a polícia fez buscas na Poynders Road em Tulse Hill, o local onde Sarah foi filmada pela última vez nas câmeras de segurança. Essas buscas se concentraram em um bloco de apartamentos e chamaram a atenção da mídia e dos curiosos. Embora o caso já tivesse ganhado a mídia, a polícia estava sendo cautelosa na divulgação dos detalhes da investigação.

Enquanto a polícia buscava respostas, a família de Sarah torcia para que ela pudesse voltar com segurança, mas infelizmente as notícias que chegavam não eram boas: foram anunciados que restos mortais encontrados em uma área isolada poderia ser de Sarah, além da prisão de um homem chamado Wayne Couzens como suspeito.


A família Everard


Wayne Couzens nasceu em 1972 em Dover, condado de Kent, cidade que fica a 2 horas de carro de Londres. Ele começou sua vida profissional em 1990 consertando carros na garagem da sua família. Em 2006, ele se casou com uma ucraniana chamada Elena Sukhoreba e passou a se interessar muito pelo país, aprendendo a língua e visitando a Ucrânia todos os anos. Em 2008, ele se tornou um oficial de trânsito em Folkestone, Kent, onde ficou até 2011, quando ingressou na Civil Nuclear Constabulary. Ele conseguiu juntar dinheiro suficiente para mudar com a esposa e dois filhos para uma casa grande na cidade de Deal. Posteriormente os vizinhos da época disseram ter lembranças de Wayne como um homem gentil e confiável.

Em 2015 ele foi suspeito de exposição indevida por estar dentro do carro com as calças abaixadas, mas o caso foi arquivado por falta de provas. Em 2018 ele foi transferido para o Serviço de Polícia Metropolitana, tornando-se membro do esquadrão de elite de Proteção Parlamentar e Diplomática. Houveram mais casos de exposição: em novembro de 2020, durante um dos seus plantões, ele foi acusado de se masturbar na frente de uma ciclista em uma trilha perto de Deal. Em 2021 ele se expôs para funcionárias de McDonald’s no sul de Londres nos dias 14 e 28 de fevereiro. Posteriormente foi constatado que Wayne não tinha passado por treinamentos e verificações obrigatórias que deveriam ser parte do seu recrutamento, além de um período de estágio de dois anos para entrar na divisão de Proteção Parlamentar.


Wayne Couzens


No dia 28/02/2021, 3 dias antes do crime, Wayne reservou um carro Vauxhall branco em uma locadora de veículos em Dover. No dia 3 de março, após ter trabalhado em um turno de 12 horas, ele saiu de Londres e foi até Dover pegar o carro alugado. Ele então voltou para Londres e andou pelas regiões de Earl's Court e Battersea Bridge, à procura de uma vítima, até encontrar Sarah caminhando na Poynders Court às 21h30. Ele a abordou, mostrou o seu distintivo e prendeu ela sob a alegação de ter violado as diretrizes de COVID da cidade. Essa abordagem foi capturada pelas câmeras de segurança de um ônibus que passava no local.

Sarah foi algemada, colocada dentro do veículo e levada até Dover. Lá, Wayne colocou ela no seu carro pessoal e foi até a área de Sibertswold. Entre meia noite e 1h da manhã, ele estuprou e estrangulou Sarah até a morte.- Após o crime, ele foi até um posto de gasolina comprar algumas bebidas. Depois, dirigiu até Hoad's Wood onde ficou estacionado por quase 3 horas até trocar para o carro alugado às 08h26. Posteriormente ele foi até a cidade de Sandwich para descartar o celular de Sarah. Kent, descartando o celular de Everard em um dos cursos de água da cidade às 09:21. Todo esse percurso foi gravado por diversas câmeras de segurança espalhadas pelo caminho.


A abordagem de Sarah por Wayne foi filmada por câmeras de segurança


Nos dias após o assassinato, Wayne fez diversas coisas da sua rotina: comprou café da manhã, entrou em contato com um veterinário sobre o seu cachorro e tirou folga alegando que ele estava sob muito estresse. No dia 5, ele comprou gasolina em um posto de gasolina em Whitfield, dirigiu até Hoad's Wood, colocou o corpo dela dentro de uma geladeira e colocou fogo no corpo. Depois, ele comprou dois sacos usados na construção civil e usou para mover o corpo para um local mais distante.

No dia 8, ele disse que estava doente e faltou de novo no trabalho, entregando o seu equipamento, incluindo seu cinto de polícia e algemas. Durante essas folgas ele chegou a levar a sua família para passear em uma área próxima do local onde ele tinha deixado o corpo de Sarah. No dia 10 de março, a polícia encontrou restos humanos em um saco em Hoad's Wood, aproximadamente 100 metros de um terreno que era de propriedade do próprio Wayne. O corpo foi identificado no dia 12.


Geladeira onde o corpo de Sarah foi encontrado


O funeral de Sarah aconteceu no dia 22 de maio na Igreja Heslington em Heslington, perto de York. Nesse dia também foram liberados os resultados da autópsia que concluiu que a causa da morte tinha sido estrangulamento. Em 9 de março de 2021, Wayne Couzens e a sua esposa Elena foram presos em sua casa em Deal sob suspeita de envolvimento no desaparecimento de Sarah Everard. Elena, entretanto, foi liberada após comprovação do seu álibi. 40 minutos antes de ser preso, Wayne tentou formatar o seu celular para excluir os dados de navegação.

O primeiro interrogatório de Wayne foi filmado e posteriormente as imagens foram liberadas: primeiro ele alegou que não conhecia Sarah. Depois, ele inventou uma história mirabolante que teria saído com uma garota de programa em Folkestone e após isso teria sido ameaçado por uma gangue do leste europeu e que tinha sido obrigado a matar Sarah. Ele responderia em liberdade por conta da pandemia de COVID, mas foi preso quando os restos mortais de Sarah foram descobertos. Ele tentou se matar machucando a própria cabeça enquanto estava sozinho na cela no dia 11, mas foi levado as pressas para o hospital e sobreviveu.

No dia 12 de março ele foi oficialmente acusado pelo sequestro e assassinato de Sarah Everard e sua prisão foi convertida para preventiva a partir do dia 16. No dia 08/06/2021, Wayne Couzens se declarou culpado e confessou o sequestro e estupro de Sarah, mas negou que tinha matado ela. Ele só declarou culpa no assassinato em uma audiência no 9 de julho.


Wayne Couzens sendo interrogado por dois detetives em sua casa


Por conta da grande repercussão do caso e envolvimento de um policial, todos os trâmites legais aconteceram o mais rápido possível. A audiência aconteceu no dia 29/09/2021, na qual foram apresentados os resultados dos laudos psiquiátricos, que constataram que Wayne poderia responder pelos seus atos. O advogado de defesa não tinha muito com o que trabalhar, e o máximo que ele conseguiu foi o pagamento de uma tarifa que poderia tornar Wayne Couzens elegível para liberdade condicional.

No dia 30 de setembro, ele foi condenado à prisão perpétua com possibilidade de liberdade após 80 anos. Segundo o juiz, um dos maiores agravantes para a sentença foi o fato de que Wayne usou sua posição como policial para cometer os crimes. Em outubro de 2021, a defesa de Wayne Couzens entrou com um pedido de apelação da sentença. Esse recurso foi julgado em julho de 2022 e foi rejeitado pelo Tribunal de Apelação. Em março de 2022, Wayne foi acusado de várias acusações de exposição indecente que teriam acontecido entre janeiro e fevereiro de 2021. Ele se declarou culpado de 3 delas, enquanto outras 3 foram arquivadas.


Foto de Wayne após a prisão


Após a prisão de Wayne Couzens, iniciou-se um movimento espontâneo pedindo uma maior segurança para as mulheres nas ruas da cidade. Essa corrente se organizou para realizar vigílias no local onde o corpo da Sarah foi encontrado, deixando orações e flores em sua homenagem. Essas manifestações também criticavam a polícia metropolitana de Londres, a mesma que Wayne Couzens fazia parte. Foram relembrados vários casos recentes em que a corporação foi acusada de diversos tipos de discriminação.

Nos dias que seguiram, a polícia tentou impedir a realização de novos protestos e chegou a prender 6 pessoas por desrespeitarem as restrições de covid. Ironicamente, era a mesma desculpa dada por Wayne para a prisão de Sarah. Essas prisões foram consideradas arbitrárias e causaram ainda mais comoção na cidade.- No final de 2021, uma pesquisa realizada pela campanha End Violence Against Women (EVAW) constatou que 76% das mulheres não confiavam o suficiente na polícia e acreditavam que a cultura policial tinha que mudar para responder melhor a esse tipo de violência.


Uma das vigílias em homenagem a Sarah Everard


Em fevereiro de 2022, o Escritório Independente de Conduta Policial lançou um relatório fazendo recomendações após encontrar diversas condutas criminosas dentro da corporação, desde piadas sobre estupro, homofobia em relatórios policiais, abuso de poder até agressões sexuais. Autoridades, líderes de movimentos e até o prefeito de Londres se disseram abalados pelo conteúdo do relatório. O prefeito inclusive chegou a dizer que não confiava plenamente na capacidade da polícia metropolitana em lidar com os cidadãos. Rapidamente a polícia reconheceu que a imagem da corporação estava abalada e prometeu várias mudanças internas. Uma das líderes da corporação, que por acaso era uma mulher, acabou renunciando ao cargo.

Um ano depois da morte de Sarah, a BBC Londres fez um reportagem especial para relembrar o caso e continuar falando sobre a violência contra as mulheres nas ruas da capital. Entre as iniciativas da comunidade e programas do governo estava o pareamento, em que uma mulher poderia pedir para uma policial feminina acompanhá-las até determinado local se ela estiver a pé. Outra iniciativa é o "Safe Haven" ("Porto Seguro" em tradução). Essa iniciativa garante a existência de locais marcados por um adesivo e que fornecem proteção caso você esteja passando por uma situação de perigo na rua.


População deposita flores e cartazes com palavras de ordens em homenagem à Sarah Everard


• FONTES: The Mirror, BBC News, ITV News, YorkshireLive, Shorthand, The Guardian, CNN, The Guardian, Crime + Investigation UK.

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