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  • Foto do escritorRodolfo Brenner

#5 - Mércia Nakashima | CRIMES REAIS

Em 2010, uma advogada desaparece a caminho de casa. Quase 3 semanas depois, seu corpo é encontrado dentro de carro, afundado em uma represa. O principal suspeito é seu ex-namorado, que insiste em dizer que é inocente.


Essa é a versão escrita do episódio #5 - Mércia Nakashima:



Mércia Mikie Nakashima nasceu no dia 6 de outubro de 1981. Filha de Makoto e Janete Nakashima, ela tinha um irmão chamado Márcio e uma irmã chamada Cláudia. O pai era descendente de imigrantes japoneses e moravam em Guarulhos na época do crime. Os 3 irmãos eram advogados formados pela UNG, a Universidade de Guarulhos.

Na época do caso a Mércia tinha 28 anos, e era descrita como uma mulher muito inteligente, muito focada na sua carreira e nos seus objetivos. Ela era bem caseira e gostava de passar os finais de semana com a família.


Cláudia (à esquerda) junto com a irmã Mércia


Em 2005 a Mércia estava no escritório da irmã quando conheceu o advogado Mizael Bispo de Souza, que havia sido colega de sala da Cláudia e tinha ido lá por causa de um acordo em uma ação em que ambos estavam trabalhando. Depois desse encontro casual os dois começaram a se conhecer melhor: a Mércia passou a ser sócia do Mizael no escritório dele. Depois de um tempo os dois começaram a namorar. A irmã disse em entrevistas posteriores que ela não era a favor do relacionamento, pois na faculdade o Mizael tinha fama de ser agressivo.

O namoro dos dois era normal no início, mas segundo testemunhas o Mizael foi se tornando muito ciumento e possessivo com ela. Os dois ficaram juntos por cerca de 4 anos, quando a Mércia decidiu terminar o relacionamento. O Mizael não aceitou muito bem, e constantemente pedia para reatar.


Mércia junto com Mizael


Depois de um almoço em família, a Mércia se despediu dos seus parentes e saiu em direção a casa dela. No outro dia de manhã ela não apareceu para trabalhar. A família ficou preocupada e tentou entrar em contato de diversas formas, porém sem sucesso. A Cláudia disse que eles fizeram um boletim de ocorrência quanto ao desaparecimento, mas segundo ela, a polícia de Guarulhos não deu muita importância. Márcio, que era uma pessoa um pouco mais conhecida na cidade, entrou em contato com um repórter que se interessou em gravar uma matéria sobre o caso, e foi após essa reportagem que toda a imprensa começou a noticiar o desaparecimento de Mércia.

Apesar do caso ser de Guarulhos, a família insistiu para que o caso fosse para o Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) de São Paulo, comandado pelo Delegado Antonio Assunção de Olim. Durante o período que ficou desaparecida, a família recebeu mais de 4 mil ligações com pistas sobre o paradeiro da Mércia. Essas pistas eram passadas para o delegado, porém a grande maioria eram pistas falsas, um fenômeno que acontece em casos de grande repercussão.


Delegado Olim


No dia 10 de junho, a família recebeu o telefonema de alguém que dizia estar pescando quando escutou gritos e viu o carro de Mércia ser afundado em uma represa na cidade de Nazaré Paulista, que ficava a cerca de 50km de Guarulhos. O pai da Mércia foi até a cidade junto com um bombeiro que mergulhou na tentativa de encontrar o carro. Para a surpresa de todos, o carro realmente estava lá: dentro foi encontrado o celular dela, uma blusa e alguns CDs, além de um colchonete no porta-malas, porém não havia sinais de Mércia.

Um dia depois o corpo dela foi encontrado boiando na mesma represa. Quem encontrou o corpo foi outro pescador, Roberto Yamaushi, amigo da família Nakashima e que estava fazendo buscas no local a pedido do pai de Mércia. Quem fez o reconhecimento do corpo do local foi o irmão Márcio. A necropsia apontou que ela levou dois tiros, mas que a causa da morte tinha sido afogamento, ou seja, quando o carro foi empurrado para dentro da represa ela ainda estava viva.


O carro de Mércia sendo retirado da represa de Nazaré Paulista


Antes do corpo sem encontrado, uma das teorias era a de que a Mércia teria sido sequestra, porém isso foi descartado devido à falta de um contato dos sequestradores. Nesse ponto o Delegado Olim já tratava Mizael como o principal suspeito.

Mizael disse em depoimento que os dois já tinham terminado o relacionamento em 2009, porém continuavam se vendo, inclusive eles haviam saído juntos na sexta e no sábado anterior ao desaparecimento. No dia do crime ele afirmou que estava com uma garota de programa, porém ele não sabia seu nome e nem conseguiu dar uma descrição precisa dela.

Além disso, Mizael apresentou diversas “provas” que, segundo ele, seriam indicadores de que ele não teria motivos para matar a Mércia, como as entradas de cinema, comprovante do estacionamento e algumas notas fiscais de restaurante que os dois foram juntos. Entretanto, segundo o delegado, essas “provas” eram estranhas, pois não fazia sentido alguém ter guardado coisas tão banais apenas para comprovar que não cometeria um crime.


Mizael chegando na delegacia na época do caso


Mizael não sabia, porém o carro dele possuía um rastreador colocado pela própria Mércia junto com a seguradora. Ele disse que, entre as 6 e as 7 horas da tarde do domingo, estacionou o carro no Hospital Geral de Guarulhos com a garota de programa, porém o histórico de locomoção do rastreador mostrava que o veículo estava em movimento.

A investigação também encontrou uma série de e-mails mandados por Mizael e que falavam coisas contraditórias: ao mesmo tempo em que ele falava que se sentia sozinho sem ela, ele a acusava de se distanciar dele para ficar com a família e que nunca tinha o amado de verdade.

A investigação prosseguiu e outro nome de interesse apareceu: Evandro Bezerra da Silva, um homem que morava em Nazaré Paulista e que já havia trabalhado para Mizael como segurança. Evandro tinha parentes próximos da represa e conhecia bem o local. Quando a polícia foi atrás dele, descobriu que o Evandro tinha fugido para o Sergipe, porém ele foi rapidamente encontrado.

Em um vídeo do testemunho, Evandro disse que na noite do assassinato recebeu uma ligação de Mizael pedindo para que ele fosse buscá-lo de carro em um local próximo à represa: “ele disse que estava em uma festa, que não estava com o carro e que os amigos tinham ido embora e deixado ele lá”. Ele também contou que Mizael estava em posse de suas duas armas, que estavam registradas no seu nome.


Evandro Bezerra da Silva quando foi encontrado em Alagoas


Quando foi divulgado o laudo da polícia científica, 3 provas importantes apareceram: terra nos encanamentos da casa e fragmentos de osso na roupa de Mizael, porém a mais importante foi uma alga analisada pelo biólogo Carlos Eduardo de Mattos Bicudo.

Ele analisou lâminas com restos de sedimentos do sapato e do tapete do carro de Mizael e encontrou exemplares de uma alga subaquática de água doce que habita margens de represas e exige substrato para se fixar, alga essa idêntica à que existe na represa de Nazaré Paulista. O perito concluiu que as algas no sapato de Mizael não estavam ali por mais de 3 semanas, pois ainda havia características internas das células.


Chaetophora sp, a alga encontrada no sapato de Mizael

Mizael tinha 5 números de telefone conhecidos e mais um 6º número que não estava em seu nome. No dia do crime ele recebe ligações de parentes da Bahia, da Mércia e do Evandro nesse 6º número, que posteriormente não foi mais usado.

A polícia concluiu que pela manhã Mizael foi até Nazaré Paulista, encontrou com Evandro pessoalmente e pediu para que ele fosse buscá-lo na represa aquela noite. Depois ele marcou com Mércia através do 6º número de telefone e os dois foram até o local no carro dela. Lá ele dá dois tiros nela: um acerta seu queixo e o outro o seu braço, a deixando inconsciente. Ele então empurrou o carro para dentro da represa, e para isso precisou entrar na água, momento em que a terra e a alga ficaram em suas roupas e sapatos. Depois que o carro afundou ele encontra com Evandro que o leva para casa.


Reconstituição do caso Mércia


Como eu falei anteriormente o Mizael era advogado, ele também era policial militar aposentado. Ele foi descrito pelo Delegado Olim como uma pessoa soberba, que se achava “o rei de Guarulhos”. - Em 1999 ele sofreu um acidente, recebeu uma forte descarga elétrica que causou uma deficiência na mão e no pé direito que o impossibilitou de continuar trabalhando como PM.

O Márcio conta em entrevista que Mércia, que era alegre e comunicativa, se tornava acanhada e tímida na presença do Mizael. O delegado diz que a família forçou um distanciamento para que Mércia se afastasse de Mizael, e foi isso que ela fez.

Após o término do namoro, os familiares perceberam que o Mizael começou a stalkear a Mércia: ele ligava para a casa dos parentes para perguntar se ela estava lá e ficava rondando a casa deles com seu carro. Mércia também trocou de número de telefone várias vezes, porém Mizael sempre descobria. Segundo o delegado, Mizael matou Mércia por se sentir humilhado e usado por ela, já que mesmo com o fim do namoro os dois continuavam se vendo, porém Mércia não queria que ninguém soubesse.



O primeiro a ser preso foi Evandro no final de junho, e logo depois o Mizael no dia 10 de julho. Os dois ficaram presos por pouco tempo e saíram para responder o processo em liberdade. O que aconteceu foi que o Mizael fugiu e foi considerado foragido. Enquanto isso seus advogados tentavam entrar com vários pedidos de habeas corpus, inclusive no STF, porém todos foram rejeitados. Ele ficou foragido até 24/02/2012, quando se entregou de livre vontade.

A cobertura de todo o caso foi muito ampla pelos meios de comunicação, e isso continuaria no julgamento de Mizael, o primeiro televisionado na história do Brasil. O julgamento foi no fórum de Guarulhos e aconteceu no dia 11 de março de 2013, quase 3 anos depois do crime. Houve várias discussões entre a promotoria e a defesa, principalmente quanto as testemunhas.

Depois de 4 dias de julgamento, o júri composto por 5 mulheres e 2 homens considerou Mizael Bispo de Souza culpado pela morte de Mércia Nakashima. Ele foi condenado a 20 anos de prisão em regime fechado por homicídio triplamente qualificado por meio cruel, motivo torpe e sem possibilidade de defesa da vítima. Já o Evandro foi julgado no final de julho e negou qualquer participação no crime, colocando a culpa em Mizael. Ele foi condenado a 18 anos e 8 meses por homicídio duplamente qualificado, meio cruel e recurso que impediu a defesa da vítima.

Em 2017 a justiça aceitou um pedido da defesa de Evandro para diminuir sua pena para 17 anos e 6 meses alegando que ele não mentiu, apenas estava junto de Mizael após o crime. Já a pena do Mizael foi aumentada para 22 anos e 8 meses. Os dois estão presos na PII de Tremembé, presídio no qual estão presos famosos Suzane von Richthofen, Roger Abdelmassih e o casal Nardoni.


Mizael e seu advogado durante o julgamento


O Márcio disse que seus pais nunca mais foram os mesmos, que sua mãe vive a base de remédios controlados e teve crises de hipertensão, com sua pressão chegando a 26 por 16. Uma tia de Mércia, muito apegada a ela, entrou em uma depressão profunda e acabou falecendo um tempo depois.

A irmã Cláudia disse que chorou tanto na época do caso que hoje ela não consegue mais chorar: “eu me arrependo todos os dias de ter apresentado Mizael a Mércia”, disse. Ela ficou muito abalada, teve crises renais e chegou a pesar 36 quilos.

Hoje o Márcio é deputado estadual pelo PDT e criou o Instituto Mércia Nakashima, uma ONG com foco no enfrentamento da violência contra a mulher.


Márcio Nakashima


Uma das últimas notícias do caso é do começo de 2021, quando o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo negou um pedido de indenização de R$ 500.000,00 por danos morais, além do direito ao esquecimento do crime em uma ação movida pela defesa do Mizael, que também pedia a remoção de um episódio da série “Investigação Criminal” que contava a história do caso Mércia Nakashima, episódio esse que foi usado como fonte de pesquisa para essa pauta.


• FONTES: Investigação Criminal, Folha de S. Paulo, O Globo, G1, Aventuras na História, JOTA, IstoÉ, Jusbrasil, Veja, Polícia Civil de SP, JCNET, Terra, UOL, IG.

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