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  • Foto do escritorRodolfo Brenner

#44 - Jeannette DePalma: Assassinato ou Ritual? | CRIMES REAIS

Jeannette DePalma desapareceu misteriosamente até ser encontrada sem vida seis semanas depois. A polícia acreditava que ela teria morrido em um ritual macabro, mas investigações posteriores colocaram mais dúvidas sobre o que de fato aconteceu.


Essa é a versão escrita do episódio #44 - Jeannette DePalma: Assassinato ou Ritual?:



O caso aconteceu na cidade de Springfield, em Nova Jersey. Springfield fica há 20 minutos de carro da capital do estado, Newark, e é uma cidade muito pequena, com pouco mais de 17 mil habitantes segundo o último censo. Jeannette Christine DePalma nasceu no dia 3 de agosto de 1956, em Jersey City. Ela era filha de Florence e Salvatore DePalma, ambos de descendência italiana, e tinha mais 6 irmãos. Em meados da década de 60, a família mudou para Springfield por acreditar que era uma cidade mais segura.

Jeannette foi descrita como uma menina doce, honesta e engraçada, embora fosse introvertida, falava pouco e raramente sorria. Ela também tinha poucos amigos. Quando chegou à adolescência ela passou a sair mais, fazer mais amigos, escutar rock e experimentar maconha. Esses comportamentos normais para adolescentes não foram bem vistos pela comunidade, e começaram a circular boatos de que Jeannette era “promiscua”, saía com vários garotos e usava drogas pesadas.

Jeannette DePalma


Naquela época a cidade era considerada bem puritana e conservadora: com uma grande comunidade religiosa, o conselho da cidade não permitia bares de motociclistas, estúdios de tatuagem, lava-carros e máquinas de pinball, coisas que para eles atraíam pessoas que “não eram bem-vindas”. A família DePalma era católica, mas depois passou a frequentar a igreja Assembleia de Deus. Eles não saiam muito de casa e não costumavam falar com seus vizinhos. A polícia foi chamada mais de uma vez na residência por causa de brigas entre Florence e Salvatore, mas nenhum dos dois chegou a prestar queixa.

Nessa época, os Estados Unidos passavam pelo Movimento de Jesus, em que as igrejas passaram a incorporar uma postura um pouco mais liberal para atrair os jovens, principalmente por causa do movimento hippie.


Marcha para Jesus em Washington, 1972


No dia 7 de agosto de 1972, aconteceu uma discussão entre a Jeannette e sua mãe, e por isso ela teria ficado de castigo. Como ela tinha combinado de sair com uma amiga, ela ligou para desmarcar, mas essa amiga disse para ela dar um jeito, e Jeannette disse que iria tentar pegar uma carona.

Jeannette trabalhava em um emprego de meio período, embora existem divergências sobre onde ela trabalhava: alguns dizem que era em uma loja de roupas, outros que era em uma empresa de telefonia. Ela disse para a mãe que teria um turno no período da noite e que iria sair mais cedo para ir até a estação de trem. Quando Jeannette não voltou do trabalho naquela noite, seus pais começaram a telefonar para os amigos mais próximos dela, mas ninguém tinha visto ela naquele dia. Eles então procuraram a polícia, mas foram informados que as buscas só podiam começar depois de 24 horas.

A polícia estava tratando o caso como uma fuga, e que não havia motivos para um alarde porque Jeannette mais cedo ou mais tarde daria notícias. Depois de alguns dias, os DePalmas decidiram coordenar uma busca própria: eles procuraram por várias cidades, até em Nova York, mas não encontraram nada.

No dia 19 de setembro de 1972, o policial Donald Schwerdt estava patrulhando a zona norte do município quando foi informado pelo rádio que deveria se dirigir para o complexo de apartamentos Baltusrol Gardens. Chegando lá, ele se deparou com uma cena bastante inusitada: um cachorro pertencente a um dos moradores saiu para dar um passeio e voltou segurando um braço humano. No começo ele achou que fosse o braço de um manequim, mas quando verificou que realmente era humano ele chamou os detetives de homicídios. Outros policiais que foram até o local logo acreditaram que o braço poderia ser de Jeannette DePalma, que era a única pessoa desaparecida na cidade naquele momento.

Quem coordenou as buscas foi o chefe da polícia George Parsell, que mandou seus homens vasculharem os arredores de uma pedreira abandonada na região. No meio do caminho eles acharam a parte superior do braço, indicando que eles estavam no caminho certo. Pouco tempo depois, eles chegaram em um penhasco que era conhecido como "Devil 's Teeth", ou Dentes do Diabo.


Devil 's Teeth, Nova Jersey


O policial Schwerdt subiu no local e descobriu um corpo feminino usando uma camiseta azul e calça bege, e imediatamente ele se lembrou que essa era a descrição da roupa que Jeannette DePalma estava usando no dia em que desapareceu. A coisa mais assustadora é que, segundo ele, havia uma cruz de madeira feita com dois galhos e pedras ao redor da cabeça, dispostas em um semicírculo.

A autópsia foi feita pelo Dr. Bernie Ehrenberg, que não conseguiu determinar a causa da morte: não havia nenhum osso quebrado, bala alojada ou marcas de perfuração, mesmo com o corpo em estado de decomposição. Apesar de terem quase certeza que se tratava de Jeannette DePalma, os policiais chamaram o dentista que a atendia para fazer a comparação da arcada dentária com os registros, e o resultado foi positivo.


Disposição do corpo de Jeannette segundo Donald Schwerdt


Sem a causa da morte, arma do crime ou qualquer tipo de evidência física para trabalhar, a investigação, que foi comandada pelo sargento-detetive Sam Calabrese, preferiu focar em descobrir se realmente existia indícios de um sacrifício, culto satânico ou algo do tipo. As acusações ritualísticas ficaram ainda mais fortes quando um artigo foi publicado no Elizabeth Daily Journal, intitulado “Garota Sacrificada no Rito das Bruxas?”. A reportagem alegava que uma testemunha chamada Lisa Greulich esteve no local e visualizou pedaços de madeira em volta do corpo, que formavam uma espécie de “caixão”, além da presença de várias cruzes ao redor do corpo.


Disposição segundo a testemunha Lisa Greulich


A matéria causou pânico na população local, que agora estava com medo de um suposto culto que estaria sacrificando pessoas. Anos mais tarde, muitas pessoas passaram a questionar se essas alegações eram verdadeiras, já que não se recordavam ou afirmavam que o “caixão” em volta do corpo na verdade eram árvores tombadas dentro do perímetro.

Posteriormente, o professor Dr. Jason P. Coy, especialista no estudo sobre feitiçaria e ocultismo, defendeu que não havia nenhuma conexão entre os elementos supostamente encontrados no local e qualquer tipo de ritual que ele conhecia. Além disso, ele explicou que no início dos anos 70 começou um grande medo da figura de satã, incluindo a fundação da Igreja de Satanás em São Francisco em 1966 e os assassinatos cometidos pela família Manson em 1969.


TEORIAS:


1. SACRIFÍCIO HUMANO:


A Reserva Watchung ficava situada a cerca de cinco quilômetros de onde o corpo de Jeannette foi encontrado. Nos anos 70 existiam muitos relatos de animais sendo mortos em rituais e um suposto culto que incluía a participação de jovens de famílias poderosas da região, incluindo o filho de um policial de Springfield. Nessa teoria, Jeannette poderia realmente ter sido morta em um ritual, e ter sido escolhida por ser religiosa e por ajudar em um grupo da igreja que ajudava viciados em drogas.

Outra teoria foi levantada pela escritora e moradora da região Denise Parker, que contou em entrevistas para o Weird NJ sobre uma garota chamada Liz Blood, que era considerada estranha pelos locais, gostava de ocultismo e estaria envolvida com algumas mortes de animais em rituais. Segundo Denise, é possível que Liz tenha encontrado o corpo de Jeannette antes dos investigadores e deixado os objetos ao redor dele.


Jornal da época acusa grupo de satânistas pela morte de Jeannette


2. HOMICÍDIO:


Um mês depois do corpo ser encontrado, um jovem chamado Terry Rickel procurou a polícia dizendo ter informações sobre o caso: ele contou que suspeitava de um homem conhecido como “Red”, na casa dos 30 anos e que vivia próximo do local onde o corpo foi encontrado. Após uma investigação, eles chegaram em Red Kier, um hippie que trabalhava em um campo de golfe local. Red acabou sendo inocentado porque conseguiu provar que estava visitando sua família na Georgia quando o corpo foi encontrado.

Segundo algumas pessoas que acreditavam em sua culpa, o fato dele estar longe quando o corpo foi encontrado não significava que ele não esteve no local quando Jeannette desapareceu. Esse homem acabou saindo da cidade e nunca mais foi visto.

Outra teoria relacionava a morte de Jeannette com a de Joan Kramer, em 1972. Joan tinha 22 anos quando desapareceu na cidade de Summit, a 5km de distância de Springfield. Ela foi estrangulada e seu corpo também foi encontrado em uma floresta. Diferente de Jeannette, Joan vinha de uma família muito rica e seus pais receberam ligações de um sequestrador pedindo a quantia de US$ 20 mil para devolvê-la. Mesmo com o pagamento, a polícia descobriu que ela já estava morta. O sequestrador foi identificado como Otto Neil Nilson, que foi preso e julgado pelo caso. O julgamento foi um tanto controverso, com Otto negando ter participado do sequestro.

Posteriormente, muitos levantaram a teoria de que um serial killer estaria operando na região: entre os anos de 1963 até 1980, diversas adolescentes foram encontradas mortas aparentemente vítimas de estrangulamento, incluindo Jeannette DePalma e Joan Kramer. Você pode conferir mais informações sobre essas mortes aqui.


3. A FESTA:


Um boato começou a circular dentro do Departamento de Polícia de Springfield sobre uma festa que teria sido dada por Donna Bladis e seus irmãos, Mark e Richard, na noite do desaparecimento de Jeannette. Nessa festa a garota supostamente teve uma overdose e acabou falecendo, ou ainda teria sido morta por um dos membros da família. Com medo do que poderia acontecer, Donna e seus irmãos decidiram esconder o corpo dela no Devil 's Teeth.

Outros adolescentes da comunidade chegaram a confirmar que Jeannette realmente estava na casa dos Bladis, mas não se lembravam se havia ou não uma festa. A família DePalma inclusive passou a acreditar nessa teoria, e segundo entrevistas com as irmãs de Jeannette, os Bladis nem ao menos apareceram no funeral dela.

Um dos policiais entrevistados no livro disse que os Bladis eram uma família muito conhecida e respeitada na região, e que o Departamento de Polícia de Springfield não iria interrogá-los mesmo se eles fossem suspeitos. Esse mesmo policial disse que tinha “90% de certeza de que algo aconteceu com Jeannette naquela casa”.


Jeannette DePalma


Em 2004, a revista Weird NJ fez uma extensa cobertura sobre o caso, entrevistando diversas pessoas envolvidas nas investigações. Segundo foi relatado por parentes de Jeannette, um exame toxicológico foi feito e que havia 0.694mg/L de álcool em seu sangue, uma concentração alta para uma adolescente. Posteriormente foi teorizado que a amostra poderia estar contaminada e que o resultado era um falso negativo, e por isso não entrou nos registros oficiais.

Uma coincidência bizarra aconteceu com diversas pessoas que estiveram envolvidos no caso: alguns oficiais tiveram que ser afastados das suas funções por problemas relacionados com a saúde mental, outros perderam os empregos, se divorciaram e até foram despejados de casa. O caso mais grave foi o do chefe dos bombeiros Don Stewart, que foi responsável por retirar o corpo de Jeannette do penhasco. Ele se matou um ano depois, na frente dos colegas. Após isso, os moradores de Springfield passaram a chamar isso de “Maldição de DePalma”.

Em 2015 foi lançado o livro Death on the Devil's Teeth: The Strange Murder That Shocked Suburban New Jersey dos autores Jesse Pollack e Mark Moran, e que trouxe muitas informações novas sobre o caso e foi usado para a construção desse roteiro. Existe também uma organização chamada "Justice for Jeannette DePalma", que atualmente se dedica em manter viva as lembranças da jovem e não deixar o caso ser esquecido. A última informação é de de agosto de 2022, quando foi realizada uma vigília na frente da prefeitura de Springfield para lembrar os 50 anos do caso.

Death on the Devil's Teeth


FONTES: Death on the Devil's Teeth - The Strange Murder that Shocked Suburban New Jersey, Weird NJ, The Daily Beast, All That's Interesting.

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