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  • Foto do escritorRodolfo Brenner

#39 - O Vigia de Westfield | CRIMES REAIS

Quando Derek e Maria Broaddus se mudaram para a casa dos seus sonhos, eles mal podiam imaginar que logo tudo se transformaria em um pesadelo quando uma misteriosa figura passaria a ameaçar sua família.


Essa é a versão escrita do episódio #39 - O Vigia de Westfield:



O caso aconteceu na cidade de Westfield, Nova Jersey. Westfield tem pouco mais de 30 mil habitantes e é muito bem localizada, próxima de Nova York e de Newark. É considerada uma cidade muito rica, onde a renda familiar é o dobro da média nacional, e também muito segura, tendo alcançado a posição 30º entre as mais seguras do país.

Em junho de 2014, a família Broaddus, composta por Derek, Maria e seus 3 filhos, decidiram se mudar para a cidade, e então compraram uma casa de 350 m², 6 quartos e 4 banheiros avaliada em US$ 1,3M, que ficava na Rua Boulevard, número 657. A família estava muito feliz com a aquisição, principalmente a Maria porque ela tinha crescido em Westfield, inclusive em uma casa muito perto dali.

Existem poucas informações sobre a família Broaddus, mas o que se sabe é que o Derek tinha nascido e crescido no Maine em uma família bastante humilde. Ele trabalhava como corretor de seguros em Manhattan e tinha conseguido chegar ao cargo de vice-presidente sênior. Os filhos do casal nunca tiveram os nomes divulgados, mas na época do caso eles tinham 10, 8 e 5 anos.


A família Broaddus


Depois que a família antiga desocupou o imóvel, os Broaddus começaram a fazer algumas reformas e planejaram se mudar definitivamente só quando tudo estivesse pronto. 3 dias depois da venda ter sido realizada, Derek foi olhar a caixa do correio e viu que havia uma carta lá dentro. Não tinha remetente e apenas dizia AO NOVO DONO. No momento ele pensou que a carta era para eles, afinal eles eram os novos donos, e resolveu abrir o envelope e ler. A carta era datilografada e estava escrito:


“Querido novo vizinho do 657 Boulevard, permita-me dar as boas-vindas ao bairro. 657 Boulevard tem sido o assunto da minha família há décadas e, à medida que se aproxima de seu 110º aniversário, fui encarregado de observar e aguardar sua segunda vinda. Meu avô vigiava a casa na década de 20 e meu pai na década de 60. Agora é minha vez. Você conhece a história da casa? Você sabe o que está dentro das paredes da 657 Boulevard? Por que você está aqui? Eu descobrirei.

Já vi que você inundou a 657 Boulevard com empreiteiros para poder destruir a casa como deveria ser. Tsk, tsk, tsk... má jogada. Você não quer deixar a 657 Boulevard infeliz. Você tem filhos. Eu os vi. Até agora acho que são três que contei, tem mais a caminho? Você precisa encher a casa com o sangue jovem que pedi? Melhor para mim. Sua antiga casa era pequena demais para a família em crescimento? Ou foi ganância para me trazer seus filhos? Uma vez que eu saiba seus nomes, vou chamá-los e arrasta-los para mim.

Quem sou eu? Existem centenas e centenas de carros que passam pela 657 Boulevard todos os dias. Talvez eu esteja em um. Bem-vindos meus amigos, bem-vindos. Que comece a festa”.


A carta estava assinada como The Watcher, ou O Vigia em português. Derek ficou assustado com a carta e resolveu chamar a polícia, que na hora não fez muita coisa, apenas aconselhou que eles não contassem para os vizinhos, pois eles poderiam ser suspeitos. Posteriormente ele mostrou a carta para Maria e os dois foram conversar com os moradores antigos, o casal John e Andrea Woods, e perguntaram se eles já tinham recebido algo parecido no tempo em que moraram lá.

Os Woods disseram que, alguns dias antes de se mudarem, eles também tinham recebido uma carta assinada pelo Vigia, mas que jogaram fora porque não acharam que seria relevante. Eles também disseram que durante os 23 anos que moraram lá, nunca se sentiram vigiados, e que a vizinhança era tão segura que eles nem ao menos trancavam as portas da casa.


A casa da 657 Boulevard


Duas semanas depois a família ainda não havia se mudado por causa das reformas e da carta ameaçadora. Derek e Maria estavam com receio dos vizinhos, mas para não parecerem anti sociais, começaram a chamar eles para visitar a casa. Alguns dias depois Maria olhou na caixa do correio e encontrou uma segunda carta, que agora estava destinada ao Sr. e Sra. Broaddus:


“O 657 Boulevard está ansioso para que vocês se mudem. Já se passaram anos e anos desde que o sangue jovem dominava os corredores da casa. Vocês já encontraram todos os segredos que ele guarda? O sangue jovem vai jorrar no porão? Ou eles estão com muito medo de ir lá sozinhos? Eu teria muito medo se fosse eles. Fica longe do resto da casa. Se você estivesse lá em cima, nunca os ouviria gritar. Eles vão dormir no sótão? Ou todos vocês vão dormir no segundo andar? Quem tem os quartos de frente para a rua? Eu saberei assim que você se mudar. Vai me ajudar a saber quem está em qual quarto. Assim posso planejar melhor.

Todas as janelas e portas do 657 Boulevard me permitem observá-los e rastreá-los enquanto você se move pela casa. Quem sou eu? Eu sou o Vigia e estou no controle do Boulevard 657 há quase duas décadas. A família Woods entregou a você. Era a hora deles seguirem em frente e gentilmente venderam quando eu pedi. Passo muitas vezes ao dia. 657 Boulevard é meu trabalho, minha vida, minha obsessão. E agora você também é da família Broaddus. Bem-vindo ao produto de sua ganância! A ganância foi o que trouxe as últimas três famílias ao 657 Boulevard e agora trouxe você até mim. Tenha um feliz movimento no dia. Você sabe que eu vou assistir.”

A carta ameaçando seus filhos foi demais para os Broaddus, que decidiram não levar mais as crianças para lá. Naquela mesma semana os dois foram convidados para um churrasco na casa da frente, e eles passaram a maior parte do tempo olhando os vizinhos e criando teorias de quem poderia estar envolvido.

Andrea Woods, a antiga dona da casa, sugeriu uma teoria: a carta que foi direcionada a ela e ao marido chegou em 4 de junho, antes da casa ser publicamente colocada à venda. Em nenhum momento os Woods usaram aquele sinal de “Vende-se”, o que prova que o Vigia sabia que eles estavam planejando vender a casa. Além disso, os primeiros empreiteiros contratados pelos Broaddus chegaram à propriedade um dia antes do envio das cartas, mas ninguém poderia saber do que se tratava, ao menos que já soubesse da venda.


Uma das salas da casa do Vigia


Assustados com as cartas, Derek adiou a mudança o máximo que pode. Semanas depois da segunda carta, uma terceira chegou:


“657 Boulevard está se voltando contra mim. Está vindo atrás de mim. Eu não entendo o porquê. Que feitiço você lançou nele? Antes era meu amigo e agora é meu inimigo. Estou no comando do 657 Boulevard. Vou afastar suas coisas ruins e esperar que se torne bom novamente. Não vai me punir. Eu vou subir novamente. Serei paciente e esperarei que isso passe e que você traga o sangue jovem de volta para mim. 657 Boulevard precisa de sangue jovem. Ele precisa de você. Volte. Deixe o sangue jovem jorrar novamente como eu fiz uma vez. Deixe o sangue jovem dormir no 657 Boulevard. Pare de deixá-lo sozinho.”

Os Broaddus decidiram começar sua própria investigação, instalaram algumas câmeras e contrataram um investigador particular para investigar seus vizinhos. Derek ligou para um colega ex-agente do FBI chamando Robert Lenehan, que propôs um perfil do remetente: uma pessoa letrada, já que as cartas eram bem escritas, sem linguagem vulgar ou grosseira. Lenahan também disse que a inspiração para o nome The Watcher poderia vir de um filme de mesmo nome estrelado pelo ator Keanu Reeves.

6 meses depois, os Broaddus decidiram que estavam cansados de tudo aquilo e colocaram a casa de novo a venda. Inicialmente eles colocaram a venda por um preço maior do que compraram, isso devido a todas as reformas que eles fizeram, mas a cobertura em cima do caso do Vigia fez os preços despencarem. O casal abriu uma ação contra os Woods devido à quebra da lei de divulgação: essa lei estabelece que qualquer ofensa grave – como stalking e ameaça – cometida dentro da residência deve ser mencionada em uma venda posterior. Nessa mesma época o caso acabou viralizando na internet, e os repórteres tomaram as ruas de Westfield. O advogado da família aconselhou Derek a não dar entrevistas, pelo menos não naquele momento.

A única opção que a família encontrou de não perder tanto dinheiro investido seria a de vender para uma empreiteira que dividisse o terreno e a casa em dois lotes diferentes, mas o tamanho deles ficaria aquém do mínimo permitido pela cidade. O casal tentou apelar para o júri público da cidade, mas o pedido foi negado em um processo que demorou quase dois anos. Sobre a decisão do júri, Maria disse “Essa é minha cidade, eu cresci aqui. Eu voltei, escolhi criar meus filhos aqui. Vocês sabem o que nós passamos. Vocês tinham a habilidade de fazer melhorar um pouco, e vocês decidiram que essa casa é mais importante do que nós”. O estresse com o caso foi tão grande que Derek desenvolveu um quadro depressivo e Maria passou a ter sintomas de estresse pós-traumático.


Centro da cidade de Westfield, NJ


Um tempo depois, os Broaddus conseguiram alugar a casa para uma família grande, que tinha dois cachorros que podiam ajudar na vigilância. A única exigência deles é que eles poderiam desistir da compra se chegasse uma nova carta ameaçadora, e infelizmente foi isso que aconteceu: duas semanas depois, o Vigia mandou uma nova e ameaçadora carta, destinada “Ao vil e rancoroso Derek e esposa prostituta Maria” que dizia:


“Vocês querem saber quem é o Vigia? Virem-se idiotas. Talvez vocês até tenham falado comigo, um dos chamados vizinhos que não tem ideia de quem poderia ser o Vigia. Ou talvez você saiba e esteja com muito medo de contar a alguém. Boa jogada. Passei pelos caminhões de notícias quando eles tomaram conta do meu bairro e zombaram de mim. Eu assisti enquanto vocês observavam da casa escura na tentativa de me encontrar... Telescópios e binóculos são invenções maravilhosas.

O 657 Boulevard sobreviveu à sua tentativa de ataque e permaneceu forte com seu exército de apoiadores barricando seus portões. Meus soldados do Boulevard seguiram minhas ordens à risca. Eles cumpriram sua missão e salvaram a alma do Boulevard 657 com minhas ordens. Todos saúdam O Vigia!!! Talvez um acidente de carro. Talvez um incêndio.

Talvez algo tão simples como uma doença leve que parece nunca ir embora, mas faz vocês adoecerem dia após dia após dia após dia após dia. Talvez a morte misteriosa de um animal de estimação. Os entes queridos morrem de repente. Aviões, carros e bicicletas caem. Ossos quebram. Vocês são desprezados pela casa, e o Vigia ganhou”.


Essa foi a última carta que o Vigia mandou, e apesar das ameaças, a família que estava alugando disse que poderia ficar se fossem instaladas mais câmeras de segurança, isso foi feito.

Placa indiando a Rua Boulevard

Assim que as investigações começaram após a primeira carta, a principal suspeita era de que o Vigia seria um vizinho próximo, pois ele sabia detalhes sobre a venda e sobre os Broaddus: em uma parte da segunda carta, ele chegou a mencionar a idade e os apelido dos filhos do casal (essa parte nunca foi mostrada ao público para preservar as crianças).

De todos os vizinhos, chamou a atenção dos investigadores um homem de 60 anos chamado Michael Langford: ele morava junto com sua mãe, uma senhora de 90 anos, na casa ao lado dos Broaddus. Segundo o que foi apurado, a família Langford se mudou para Westfield em meados dos anos 60, o que batia com o que o Vigia dizia sobre o seu pai ter vigiado a casa naquela época. Além disso, Michael não trabalhava, o que deixava ele com bastante tempo livre para observar seus vizinhos. Entretanto, a pista circunstancial mais importante foi o comportamento do próprio Michael, descrito como “excêntrico”: segundo os próprios vizinhos, ele tinha mania de andar pelo quintal das outras casas e ficar espiando pela janela.

O principal investigador do caso, o Detetive Leonard Lugo, interrogou Michael mais de uma vez, mas negou qualquer envolvimento com o caso. Abby Langford, irmã de Michael, disse que a polícia estava assediando sua família. Para não aumentar o desgaste entre os vizinhos, Derek pediu para seu advogado se encontrar com a família Langford para explicar o porquê de eles terem sido suspeitos. Esse encontro aconteceu, e eles novamente negaram qualquer envolvimento com o Vigia.

Os investigadores encontraram DNA em um dos envelopes que o Vigia tinha usado, e descobriram que se tratava do DNA de pessoa do sexo feminino. Eles então passaram a suspeitar da Abby Langford: ela era corretora de imóveis e sabia que a história poderia prejudicar a família, que precisaria vender a casa por um preço bem abaixo do mercado. A polícia seguiu Abby, recuperou uma garrafa de água que ela tinha usado e realizou um teste de DNA, mas o resultado deu negativo e os Langford foram oficialmente removidos como suspeitos.

Verificando o restante dos vizinhos, os investigadores descobriram que dois moradores do bairro estavam registrados no banco de dados como criminosos sexuais. Além deles, eles descobriram que os moradores de uma casa próxima tinham o habito de ficarem sentados em algumas cadeiras com vista direta para o jardim do 657. Infelizmente, ambas as pistas acabaram em um beco sem saída.


657 Boulevard com decoração de Halloween


Após anos parada, a polícia de Westfield optou por reiniciar a investigação do zero. O primeiro passo foi pedir aos Woods se eles forneceriam amostras de DNA e questionaram sobre o seu filho de 21 anos, que não morava com eles. Parece que esse pedido foi completamente ignorado por eles, e sem um mandato a polícia não podia continuar investigando o casal.

Os investigadores descobriram que uma outra família que morava na mesma rua também tinha recebido uma carta misteriosa na época em que a primeira carta chegou para a família Broaddus. Assim como os Woods, eles acharam que era alguma brincadeira de mal gosto de jogaram a carta fora. Os investigadores decidiram fazer uma vigia na rua Boulevard na busca por alguma pista: por volta das 23h, um carro estacionou e permaneceu lá tempo suficiente para ser considerado suspeito. A polícia rastreou a placa do veículo e chegou até uma jovem que morava em uma cidade vizinha.

Essa jovem disse que o motorista do carro era seu namorado, que nunca teve o nome revelado. Segundo as investigações, esse suspeito gostava de “videogames obscuros”, incluindo um em que utilizava um personagem chamado The Watcher. Esse homem foi convidado duas vezes para dar depoimento, mas ele não apareceu, e tudo voltou à estaca zero. Além disso, um dos investigadores do caso, o Detetive Barron Chambliss, se aposentou, esfriando ainda mais as investigações.


Equipe de reportagem na frente da casa do Vigia

Sem um suspeito principal, muitos passaram a desconfiar que as cartas eram escritas pela própria família Broaddus, na tentativa de chamar a atenção: segundo informações, a antiga casa da família valia pouco mais de US$ 300 mil, com hipoteca refinanciada de US$ 175 mil. A teoria era de que os Broaddus, sem conseguir pagar pela nova residência, decidiu tentar chamar a atenção para ganhar dinheiro com a sua história.

A única pista que joga contra o casal é que, em 2015, muitas das famílias que eram contra a divisão do lote receberam cartas escritas a mão. Foi revelado que essas cartas foram escritas pelo próprio Derek Broaddus, que disse que apenas queria mostrar sua frustração sobre o embargo. Contra essa teoria estão todos os prejuízos financeiros e emocionais que a família passou: além da saúde mental abalada, os Broaddus precisaram vender sua própria casa e morar com a mãe de Maria. O DNA de Maria também foi testado para aquele DNA feminino encontrado em um dos envelopes, mas o resultado deu negativo.

Em uma das poucas entrevistas que deu, Derek negou categoricamente que ele e a esposa tenham inventado toda essa história, e ainda disse: “Essa pessoa atacou minha família, e de onde eu sou, se você fizer isso, você leva uma surra”.

Única imagem liberada de uma das cartas escritas pelo Vigia


Em 2019, a casa agora conhecida como “A casa do Vigia” foi finalmente vendida, e os prejuízos que a família Broaddus teve com a venda, reformas e a investigação chegaram em US$ 440 mil. Os novos donos não dão entrevistas, apenas disseram que, até agora, não receberam nenhuma carta. Fora isso, o principal suspeito, Michael Langford, acabou falecendo em 2020.

A Netflix comprou os direitos da história e produziu uma minissérie sobre o Vigia de Westfield, lançada no dia 13 de outubro e assinada pelo Ryan Murphy, o criador de American Horror Story. O elenco conta com grandes nomes como Bobby Cannavale, Naomi Watts, Michael Nouri, Jennifer Coolidge e Mia Farrow.


FONTES: All That's Interesting, Insider, The Cut, New Jersey Digest, Hunt a Killer, BuzzFeed Unsolved, InkedMag, Historic Mysteries, Decider.

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