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  • Foto do escritorRodolfo Brenner

#30 - Quem Matou Walter Page? | CRIMES REAIS

Walter Page era um pai amoroso, veterano da Segunda Guerra Mundial e um ótimo vizinho, que morava a 45 anos na mesma casa onde ele e a esposa criaram seus filhos. Em uma gelada manhã de dezembro, os bombeiros receberam um chamado sobre uma casa em chamas. Ao controlarem o fogo, encontraram Walter morto no porão. As investigações descobriram que talvez Walter soubesse demais, e que era possível que alguém quisesse ele morto.


Essa é a versão escrita do episódio #30 - Quem matou Walter Page?



Walter Harriman Page nasceu no dia 21 de julho de 1919 em Marblehead, Massachusetts. Ele era filho de William e Mariette Page, e tinha dois irmãos e uma irmã. A família Page vivia uma vida confortável porque o pai, William, era dono de uma fábrica de sapatos que operava em Massachusetts e em New Hampshire. Ele era descrito como bastante estudioso, tendo frequentado escolas de grande prestígio da cidade.

Ele se graduou em Ciências na Universidade de Yale, seguindo os passos do pai que tinha estudado no mesmo local. Posteriormente foi dito que Walter era um homem muito ativo e trabalhador, ao mesmo tempo que sempre colocava a família em primeiro lugar. Ainda durante a faculdade, ele ingressou na Sociedade da Marinha de Yale e passou a ter contato com o serviço militar. Quando ele se formou, ele entrou definitivamente para a marinha dos Estados Unidos. Ele fez vários exercícios militares e chegou a combater pilotos japoneses durante a Segunda Guerra Mundial.


A família Page


Em 1945 ele se casou com Faye McChesney, e juntos eles tiveram 3 filhos: Todd, Rick e Danette. Nos anos 50, Walter virou presidente da companhia de sapatos de seu pai, e a família se mudou para Manchester, a maior cidade do estado de New Hampshire. Ele também trabalhava com economia e investimentos, e era conhecido por ser um bom investidor. A família gostava muito de viajar, de jogar golfe e principalmente de jogar tênis, tanto que construíram uma quadra nos fundos de casa e constantemente disputavam partidas com amigos e familiares.

Não se sabe exatamente quando, mas Walter entrou para a maçonaria e cresceu bastante lá dentro, passando de membro para tesoureiro, e posteriormente para presidente de alguns clubes, instituições e associações ligadas a lojas maçons, prestando serviços e assistências na parte financeira. Quando os filhos cresceram e foram viver as próprias vidas, o casal continuou morando na mesma casa: Faye estava aposentada e passava o tempo livre como voluntária na biblioteca da cidade, enquanto Walter, que já estava com 76 anos, continuava trabalhando. Os dois fizeram 50 anos de casados em 1995, dois meses antes do crime.


Faye e Walter Page


No dia 12 de dezembro de 1995, Walter recebeu uma ligação de alguém que ele não conseguiu identificar se era homem ou mulher. A pessoa do outro lado da linha disse que mandaria uma bomba para explodir sua casa, e isso porque ele teria sido testemunha no caso de Renée Lemire, um empregado de uma instituição maçônica que, juntamente com a esposa, desviou mais de US$100.000. Renée realmente tinha sido preso e condenado a 7 anos de prisão pelos seus crimes, mas a parte mais estranha é que Walter, apesar de cuidar da parte financeira de parte da maçonaria da cidade, não tinha participado de nenhuma forma do caso de Renée.

Um ano antes, Walter tinha sim participado de outro caso, a prisão de Leonard Newall Senior, membro maçom que desviou cerca de US$62.000 que deveriam ser usados para o pagamento de 5 associações maçônicas. Algumas fontes dizem que Walter foi quem descobriu a fraude, enquanto outras relatam que sua participação foi limitada a entrega de registros fiscais para a polícia. Leonard ficou 90 dias preso e precisou devolver uma parte do valor que tinha roubado. Além de Walter, outros membros da sociedade maçônica também receberam ligações ameaçadoras sobre o caso de Renée Lemire no mesmo dia.


Walter recebendo honras na maçonaria


Ainda no mesmo dia, Walter sediou uma reunião na sua casa com a participação de Carl Bickford e Conrad Ekdahl, respectivamente tesoureiro e presidente da Associação de Serviço Maçônico de Manchester. O objetivo era discutir maneiras de investir o dinheiro da organização, que chegava a mais de US$100.000. Walter também queria discutir sobre a falta de um cheque no valor de US$5.000 que deveria ter sido depositado em uma das contas da associação. Tanto Carl quanto Conrad não sabiam dizer o que tinha acontecido com o dinheiro, mas prometeram investigar.

Naquela mesma noite, Conrad chegou em casa e descobriu restos de um coquetel molotov que tinha sido jogado na porta de sua residência. Como ele não estava bem preparado, o fogo acabou não se espalhando. Conrad chamou a polícia, que levou os restos do molotov para a perícia. No dia seguinte, Walter ligou para a polícia e informou sobre o telefonema que tinha recebido. Sabendo que Walter e Conrad eram membros da mesma associação, a polícia começou a acreditar que alguém estava intimando e atentando contra indivíduos maçons na cidade, ou que realmente se tratava de uma vingança no caso de Renée Lemire. Por questões de segurança, a polícia decidiu enviar carros de patrulha tanto para a casa de Walter, quanto para a casa de Conrad.


Walter em uma reunião


No dia 14 de dezembro de 1995, Faye foi até uma reunião do clube de Jardinagem que ela participava, enquanto Walter ficou trabalhando em seu escritório, que ficava no porão da casa, tentando entender o desvio de dinheiro que ele tinha descoberto. Aproximadamente às 3 da tarde, um vizinho viu fumaça e fogo vindo da residência da família Page, e rapidamente acionou o corpo de bombeiros. Ao chegarem ao local, os bombeiros viram que o fogo já havia se alastrado e consumido todo o primeiro andar da casa.


A casa em chamas da família Page


Enquanto os bombeiros ainda estavam trabalhando, Faye voltou de sua reunião e ficou completamente em pânico ao ver sua casa em chamas, alertando que seu marido ainda estava lá dentro. Quando o fogo finalmente foi controlado, os bombeiros conseguiram entrar na casa e descer até o porão. Lá, encontraram Walter caído no chão, já sem vida, e o corpo foi levado para a autópsia.

Em casos de incêndio com vítimas fatais, em mais de 90% dos casos a morte é por inalação de fumaça, e não por queimaduras. Entretanto, para a surpresa dele, Walter não tinha morrido pela fumaça tóxica, mas sim por ter sido esfaqueado 12 vezes na região do abdômen. Quando foi constatado que nenhum objeto tinha sido levado da casa, a polícia começou a trabalhar com a hipótese de que Walter tenha sido morto como queima de arquivo, e a casa tenha sido incendiada para apagar as evidências.


Reportagem de jornal da época sobre o crime


Devido às recentes ameaças, Renée Lemire e sua esposa foram logo considerados suspeitos. O filho do casal, Jeffrey, foi interrogado, e confirmou que eles estavam juntos durante o dia do incêndio. A polícia também descobriu uma coincidência bastante estranha: um carro, do mesmo modelo que Jeffrey dirigia, foi encontrado em chamas do lado de fora de seu apartamento. A polícia investigou o carro e fez buscas na casa, mas acabou não encontrando nada.

Eles também investigaram Leonard Newall, o homem que chegou a ficar preso por roubar dinheiro da associação. Não fazia muito sentido que Leonard matasse Walter, já que ele já tinha cumprido sua pena e devolvido o dinheiro, e provavelmente não arriscaria ir para a cadeia novamente. Voltando para a ligação que ameaçou Walter e as novas descobertas de fraudes, foi levantada a hipótese de que os ataques estariam relacionados ao caso que Walter ainda estava investigando, e que a pessoa que o matou fez isso antes que fosse descoberta. Além disso, seria bastante provável que Walter conhecia essa pessoa, e a deixou entrar na casa naquele dia.

Mais tarde, um homem foi até a polícia dizer que, no mesmo dia do incêndio, ele também tinha recebido uma ligação ameaçadora. Apesar de não ter tido sua identidade revelada, foi constatado que ele também tinha um alto cargo dentro da mesma associação maçônica que Walter participava.


Walter Page


Carl era casado com Bonnie Bickford, uma mulher que tinha ganhado a vida trabalhando como babá das crianças da comunidade, além de ser voluntária na igreja do bairro. Por causa disso, ela era bastante conhecida e respeitada. Algumas noites depois do incêndio, Carl deveria encontrar a esposa para jantar fora, mas ela não apareceu. Não é especificado quanto tempo, mas é escrito que, alguns dias depois, Carl recebeu um pacote dos correios contendo o anel de casamento que Bonnie usava, além de três cartas: uma para ele, outra para os pais dela, e outra para a polícia de Manchester.

Na carta, Bonnie contou que havia retirado US$109.000 da conta da associação em que seu marido era tesoureiro e fugiu. Ela também admitiu que foi a responsável pelo molotov na casa de Conrad. Apesar do desfalque ainda não ter vindo à tona, ela sabia que, mais cedo ou mais tarde, alguém descobriria, e isso já estava próximo de acontecer, porque o cheque que Carl fez para transferir o dinheiro para Walter tinha retornado. A polícia foi notificada e ela, além de agora ser considerada foragida, virou a principal suspeita da morte de Walter. Carl também foi colocado sobre investigação, já que a polícia acreditava que não tinha como ele não saber o que ela estava fazendo, mas ele negou qualquer envolvimento.


Bonnie Bickford


No dia 17 de dezembro, a polícia da cidade de Weare, 30 minutos de carro de Manchester, recebeu uma ligação sobre um carro que havia saído da pista e estava em chamas. Ao chegarem ao local, eles notaram que a motorista era Bonnie, e que ela havia usado fita adesiva para adulterar a placa do veículo. Quando questionada sobre isso, Bonnie alegou que estava sofrendo de amnésia e que não sabia quem era ou onde ela estava.

Bonnie foi levada para a delegacia e sustentou a amnésia por algum tempo, até admitir que estava fingindo. A policia interrogou ela por 7 horas sobre os acontecimentos recentes, e ela admitiu que tinha roubado o dinheiro, que tinha jogado o molotov e que tinha feito as ligações ameaçadoras para os membros da associação, mas negou qualquer envolvimento com o assassinato de Walter e com o incêndio na casa dele. A promotoria alegou que Bonnie era perigosa e poderia ter envolvimento no caso de Walter, e ela foi presa preventivamente sem a possibilidade de fiança.

Enquanto isso, no dia 19, Walter foi velado na Brookside Congregational Church, onde centenas de pessoas apareceram para prestar as últimas homenagens. A família agradeceu a presença de todos e pediu para que, quem tivesse informações, ajudasse as autoridades para a resolução do caso.


Reportagem de jornal sobre a prisão de Bonnie


O advogado de Bonnie tentou um habeas corpus baseado no fato de que não havia nenhuma prova que ligava sua cliente diretamente com o assassinato de Walter Page, mas foi negado baseado no argumento de que ela poderia fugir novamente se fosse libertada. As investigações descobriram que Bonnie falsificou documentos e comprovantes de transações da associação maçônica utilizando o computador de uma das casas que ela trabalhava como babá.

Durante 3 anos ela roubou dinheiro da associação em que seu marido era tesoureiro e transferiu para contas pessoais, além de enviar parte do valor para membros de sua família, alegando que era dinheiro de seguro de vida. Quando perguntada o porquê ela precisava do dinheiro, ela disse que seria usado para retirar seu filho da prisão. Acontece que isso não fazia sentido: o filho do casal tinha uma boa patente no exército, e não havia nenhum processo ou acusação contra ele.

Bonnie foi acusada de oito crimes relacionados a fraudes financeiras e a tentativa de incêndio pelo coquetel molotov. Ela foi transferida para Valley Street Jail para aguardar o julgamento, e dessa vez foi estipulada uma fiança de US$500.000, que posteriormente foi diminuída para US$150.000. - Em setembro de 1996, Bonnie se declarou culpada de seus crimes e foi condenada a 10 anos de prisão.

Como o caso de Walter ainda estava aberto, ela era considerada a principal suspeita, mas não foi acusada formalmente por falta de provas. Seu marido, Carl, era considerado pessoa de interesse, pelo menos no caso das fraudes fiscais, mas ele alegou que Bonnie falsificou sua assinatura e movia o dinheiro sem o seu consentimento, e ele nunca foi formalmente acusado de nada.


Reportagem sobre as conexões entre Bonnie e Walter


Embora a investigação continuasse mesmo com a prisão de Bonnie, não havia sobrado pistas por causa do fogo, a arma do crime não foi encontrada, e sem testemunhas que pudessem ajudar, o caso acabou esfriando. 3 anos depois, Faye acabou falecendo de complicações por causa de um derrame: segundo seus filhos, o assassinato de Walter foi demais para ela suportar.

Em 2000, os advogados de Bonnie entraram com um pedido de diminuição de pena por ela ser uma presa modelo e ter bom comportamento. O juiz acatou e diminuiu a sentença em 6 meses. Com isso, ela conseguiu pedir para passar para o regime aberto, e isso foi aceito. Com a principal suspeita livre, a policia ofereceu uma recompensa de US$60.000 para quem tivesse informações que ajudassem a resolver o assassinato, a maior recompensa já oferecida na história do estado, mas nada concreto foi obtido. Em mais de uma ocasião, os filhos de Walter pediram para que o caso fosse reanalisado com o uso de técnicas mais modernas de investigação, mas o caso não foi reaberto.

Quanto a Bonnie, aparentemente ela devolveu o dinheiro que desviou e nunca mais teve problemas com a justiça. Hoje ela tem 75 anos e ainda mora em New Hampshire, mas nunca mais falou sobre o caso. Até hoje, 26 anos depois, o assassinato de Walter Page continua sem solução.


Rick e Danette Page segurando recortes de jornal sobre o caso de seu pai


• FONTES: Trace Evidence, AP News, The Boston Globe, WCVB-TV, NH Department of Justice, The Facts, The Telegraph, Union Leader, Manchester Ink Link.

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