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  • Foto do escritorRodolfo Brenner

#21 - O Mistério das Máscaras de Chumbo | MISTÉRIOS

No dia 20 de agosto de 1966, dois corpos foram encontrados no Morro do Vintém, em Niterói-RJ. Quanto mais a polícia investigava, menos as peças se encaixavam, e o caso se tornou um dos maiores mistérios do nosso país. Quem eram esses homens? O que eles estavam fazendo ali? E por que ele estava usando máscaras de chumbo?


Essa é a versão escrita do episódio #21 - O Mistério das Máscaras de Chumbo:



Na manhã do dia 18 de agosto de 1966, um jovem chamado Paulo Cordeiro dos Santos estava caçando passarinhos no Morro do Vintém quando viu dois homens deitados no chão. Ele chegou a comentar com algumas pessoas, porém ninguém deu muita importância. Dois dias depois, Jorge da Costa Alves estava empinando pipa no alto do morro, quando se deparou com os corpos e avisou a 2ª DP de Niterói. Como estava chovendo muito, a polícia e os bombeiros resolveram subir o morro só no dia seguinte. A história de que tinham dois corpos no alto do morro já havia se espalhado pela cidade, e alguns curiosos e jornalistas foram junto com as autoridades.

Os dois homens estavam deitados de costas no chão, em uma espécie de cama feita com folhas de palmeira e próximos de um marco de cimento usado para demarcação de lotes. Os dois vestiam ternos e capas de chuva, e já estavam em avançado estado de decomposição. ários objetos estranhos foram encontrados com eles: uma garrafa de água mineral magnesiana, um copo feito de papel laminado, duas toalhas embrulhadas em papel, um par de óculos, um maço de cigarros que estava quase acabando, uma aliança e duas máscaras caseiras feitas de chumbo, além de um lenço com as iniciais A. M. S. e dois bilhetes. O primeiro bilhete continha algumas equações de eletrônica, enquanto o segundo tinha o que parecia ser instruções:


“16,30hs esta’ local determinado.

18,30hs ingerir capsúla após efeito,

proteger metais aguardar sinal mascara”.


Morro do Vintém


Os dois corpos foram identificados através dos documentos que estavam com eles. Os homens eram: Manoel Pereira da Cruz, 32, e Miguel José Viana, 34, moradores de Campos dos Goytacazes, a cerca de 260 km de Niterói. Os dois eram técnicos em eletrônica e eram sócios em um pequeno negócio de conserto de televisores.

No dia 17 de agosto, os dois disseram para suas respectivas famílias que iriam para São Paulo comprar um carro e algumas peças que eles precisavam para a oficina. A esposa de Manoel disse que ajudou o marido a embrulhar uma quantia de 2 milhões e 300 mil cruzeiros para levar na viagem (isso equivalia a mais ou menos US$ 1 mil na época ou R$ 4,700 hoje). Os dois foram até a rodoviária e embarcaram em um ônibus para Niterói e desembarcaram às 14h30. No centro da cidade, eles foram até uma loja de materiais eletrônicos que pertencia a Ernani Carvalho Filho. Miguel e Manoel eram clientes da loja de Ernani, e, segundo o próprio, não compraram nada naquele dia. Ainda segundo o inquérito da polícia, Ernani havia estado em Campos dos Goytacazes 4 dias antes desse encontro.

Depois de encontrar o Ernani, eles foram até uma loja de plásticos e compraram as duas capas de chuva. Apesar de estar chovendo naquele dia, eles não colocaram as capas naquele momento. Por fim, já no caminho do Morro do Vintém, eles pararam em um bar e compraram a garrafa de água magnesiana. Posteriormente, funcionários disseram que os dois estavam com pressa e que Miguel olhava constantemente as horas no seu relógio.


Miguel José Viana e Manoel Pereira da Cruz


Existe uma parte nebulosa no que diz respeito ao exame toxicológico e a necropsia dos corpos. Um auxiliar de necropsia conhecido apenas como “Maneca” relatou ao delegado Idovam Ferreira que as vísceras não haviam sido enviadas para exame toxicológico porque elas apodreceram na geladeira do IML, que estava quebrada. Esse mesmo auxiliar também relatou que o médico legista Astor Pereira de Melo não apareceu para trabalhar por dias, o que acabou atrasando todas as necropsias e exames. Por causa do estado de decomposição, os resultados dos exames poderiam não ser confiáveis. Além disso, segundo relatos, um cachorro teria entrado no IML, encontrado uma porta aberta e comido parte das vísceras. O restante foi descartado após o exame toxicológico.

O irmão de Miguel, Herval, esteve no IML para liberar os corpos no dia 22. Ele teria falado com o tal “Maneca”, que liberou os corpos sem atestado de óbito. Um mês depois ele retornou para pegar os documentos e sentiu que o médico legista ficou em dúvida sobre o que colocar na causa mortis. - No fim das contas a necropsia não encontrou nenhum ferimento, sinal de violência, queimadura ou radiação nos corpos. A resultado toxicológico também deu negativo, e a causa da morte ficou como inconclusiva.

O promotor Edmo Lutterbach apontou que os laudos de necropsia eram mal escritos, imprecisos e rasurados, além de terem sido emitidos quase dois meses após as mortes. Uma das rasuras aconteceu porque um dos peritos, um homem chamado Sebastião Faillace, por algum motivo não queria que seu nome constasse nesse documento. Ele foi raspado e substituíram por Walmor Giani, um legista que já havia falecido.


Uma das máscaras de chumbo encontradas no local


A polícia descobriu que as máscaras de chumbo foram feitas na oficina em Campos dos Goytacazes, mas nunca descobriram exatamente para que elas serviam. Uma das teorias era a de que elas eram máscaras de solda para a proteção de radiação. A investigação começou com a hipótese de que Manoel e Miguel morreram depois de serem atingidos por um raio: nesse dia chovia muito e os dois estavam em um lugar alto, em uma clareira cercada de árvores. Essa hipótese foi descartada pela falta de queimaduras nos corpos e marcas no local.

Outra hipótese levantada foi a de os dois foram vítimas de um latrocínio: acreditava-se que uma terceira pessoa os atraiu até o morro e matou os dois para ficar com o dinheiro que eles tinham levado. Dos 2 milhões de cruzeiros que Manoel levou, somente 162 mil estavam com eles, porém, a investigação rastreou os gastos dos dois homens, mas não encontrou nada além da compra das passagens, das capas de chuva e da garrafa de água.

Quanto ao sumiço do dinheiro, existe uma outra teoria: quando Paulo Cordeiro dos Santos encontrou os corpos no dia 18, ele avisou o guarda Antônio Guerra, que servia na radiopatrulha. O Delegado Venâncio Bittencourt, que comandou as investigações, acreditava que Antônio poderia ter ido até o local e ter se apossado do dinheiro, e por isso não informou sobre os cadáveres. Antônio também foi interrogado, mas logo foi liberado. A hipótese de uma terceira pessoa ainda é corroborada pelas folhas de palmeira que estavam embaixo dos corpos: elas foram nitidamente cortadas, mas não foi encontrado nenhum objeto cortante com eles e nem nas proximidades.

Após a investigação, a polícia chegou até um suspeito: Élcio Correia Gomes. Ele morava em Campos dos Goytacazes e era uma espécie de aprendiz do Miguel na oficina. No dia que eles foram para Niterói, foi confirmado que Élcio levou os dois até a rodoviária, o que para a polícia significava que ele sabia para onde os dois estavam indo. Élcio foi interrogado, mas não foi encontrado nenhuma ligação além dessas já citadas. O irmão de Miguel, Herval, também não acreditava que ele tivesse algo com o caso.

O detetive Saulo Soares de Souza refez o trajeto que Miguel e Manoel fizeram no dia e notou algo importante: entre a rodoviária e a loja de eletrônicos existia um intervalo de 50 minutos. Saulo acreditava que os dois teriam ido a um centro espírita que ficava no meio do caminho e era dirigido por um entusiasta da parapsicologia.

O vigia Raulino de Matos, morador local, disse ter visto Manoel e Miguel chegando ao morro em um jipe pouco antes das 16h30 na companhia de outros dois homens, sendo o motorista um homem loiro. O jipe foi embora e os dois prosseguiram a pé, mesmo com a forte chuva. Em um dos relatórios policiais existe a referência a dois adolescentes que, poucos dias antes do caso, teriam sido abordados por um homem loiro, com sotaque estrangeiro, que teria perguntado o caminho para o alto do Morro do Vintém. A polícia chegou a procurar por esse homem, mas nada foi encontrado.

Uma nova pista surgiu um tempo depois: um detento de um presídio de alta segurança em São Paulo chamado Hamilton Bezani confessou que esteva envolvido na morte de Miguel e Manoel. Ele e mais três comparsas teriam planejado o crime junto com um dos proprietários do centro espírita, o mesmo onde as vítimas teriam passado horas antes de morrer. Hamilton contou que os dois foram envenenados e deixados para morrer no alto do morro. Com a confissão, ele foi levado a Niterói para prestar novos depoimentos. Apesar dos detalhes da primeira confissão, ele caiu diversas vezes em contradições sobre a quantia em dinheiro, a posição dos corpos e outros detalhes do crime. A polícia concluiu que Hamilton Bezani inventou a história para poder permanecer no presídio de Niterói, de onde já tinha escapado duas vezes. Ele foi devolvido à unidade prisional em São Paulo.

Os corpos de Miguel e Manoel chegaram a ser exumados em 1967 para a realização de novos exames, mas nada foi descoberto. Em maio de 1969 a Justiça arquivou o Processo por falta de provas.


Matéria do jornal da época sobre a exumação dos corpos


A polícia descobriu que houve uma morte muito semelhante quatro anos antes: em 1962, um técnico de televisão chamado apenas de Hermes nas notícias foi encontrado morto no Morro do Cruzeiro, que ficava no bairro de Neves, em São Gonçalo, também no RJ. O corpo não apresentava nenhum tipo de violência, estava com todos os seus pertences e também usava uma máscara de chumbo, mas não foi revelado se ela era exatamente igual aos do caso de Manoel e Miguel. Segundo as investigações, ele disse que iria até o alto do morro para tentar "captar sinais de televisão sem o auxílio de nenhum aparelho eletrônico”.

Outro caso relacionado ocorreu na Praia de Grumari, na cidade do Rio de Janeiro. No dia 4 de março de 1986, o técnico em informática Olavo Menna Barreto Ferreira, de 25, e o office boy Wellington Barros Wanderley, 24, foram encontrados mortos sem qualquer sinal de agressão física. Junto aos corpos havia uma garrafa vazia de refrigerante, um frasco de pó de guaraná vazio com odor de amônia e dois copos plásticos também vazios. A perícia encontrou traços de um pesticida capaz de causar paralisia temporária que levaria a morte.

Segundo relatos, Olavo e Wellington eram amigos e participavam juntos de um grupo de estudos ufológicos. Eles teriam ido até a praia para participar de uma vigília, um termo usado para designar uma reunião em que os participantes observam o céu na intenção de observar algo diferente. Naquela época, a Praia de Grumari só era acessada a pé, e não havia ônibus que levassem até o local. O caso acabou ganhando certa atenção da mídia na época porque Olavo era filho de um renomado cirurgião dentista do Rio de Janeiro, dono de uma clínica odontológica na Barra da Tijuca.


Praia de Grumari - RJ


Jornais da época noticiaram que Élcio era espirita e as vezes realizava experiências para tentar se comunicar com o sobrenatural com a ajuda de Miguel. Em uma dessas experiências, eles causaram uma enorme explosão na Praia de Atafona, tão grande que causou um clarão e um barulho tão intensos que os moradores locais acreditavam que se tratava de um terremoto. Essa experiência chegou a ser investigada pela Marinha.

Na manhã em que os dois homens estavam indo pegar o ônibus para Niterói, Miguel encontrou com uma sobrinha dele no caminho. Ela perguntou para onde ele estava indo, e ele disse que estava indo para São Paulo comprar um carro. Ela perguntou por que ele não comprava um carro ali mesmo, e ele respondeu “Eu preciso saber de uma coisa. Quando eu voltar, eu te conto se acredito mesmo nessa estória de espiritismo ou não”.

O famoso estudioso da parapsicologia, o Padre Oscar Gonzalez Quevedo, vulgo Padre Quevedo, deu um depoimento ao jornal O Globo sobre o caso. Ele acreditava que Miguel e Manoel poderiam ter morrido durante um ritual ocultista para “enxergar” novos mundos: nesse tipo de experiência, ingere-se, em jejum, uma quantidade X de alguma droga relaxante capaz de provocar um estado de inconsciência, o famoso transe. Esses novos mundos poderiam ser vistos através do que os estudiosos do tema chamam de “terceiro olho”. Porém, eles emanam irradiações luminosas muito fortes, ao ponto de afetar toda a sensibilidade da pessoa. Daí a necessidade da proteção com as máscaras de chumbo.

Na mesma noite que Miguel e Manoel subiram o morro, a dona de casa Gracinda Barbosa de Souza estava no carro com seus filhos quando viram um estranho objeto, com luzes azul e laranja, sobrevoando o Morro do Vintém. Além dela, vários moradores ligaram para a polícia para informar sobre o suposto OVNI.

Em 1980, o ufólogo francês Jacques Vallée ficou interessado no caso e decidiu vir ao Brasil para realizar uma pesquisa sobre o Caso das Máscaras de Chumbo. Ele subiu o Morro do Vintém junto com sua esposa e dois homens que tinham participado da investigação na época: o detetive Saulo Soares de Souza e o repórter policial Mário Dias. Quando eles chegaram ao local, perceberam que a área onde os corpos foram encontrados estava descampada, sem nenhuma vegetação.


O ufólogo francês Jacques Vallée


Outras duas hipóteses foram levantadas: a de que Miguel e Manoel estavam envolvidos na venda ilegal de material radioativo, e foram assassinados por algum comprador insatisfeito; e a de que os dois tinham um caso amoroso e acabaram se suicidando por não poderem viver o seu relacionamento por causa do forte preconceito da época. A polícia não chegou a seguir nessas linhas de raciocínio pela falta de provas que corroboravam com elas.

Apesar de ainda estar sem solução, a teoria mais aceita é de que os dois tentaram realizar uma espécie de ritual, assim como o da Praia de Atafona. Os dois acabaram morreram de overdose, mas a causa passou batida pelos problemas no IML. E quanto a luz vista pelos moradores, ela teria vindo do experimento que deu errado. O caso foi tema não de um, mas de dois episódios do programa Linha Direta: o primeiro em 1990, e o segundo em 2004. Durante a produção do segundo episódio, a equipe de jornalismo da Globo pediu acesso aos arquivos do caso, mas foi informada que eles não existiam mais. Segundo Maurício Menezes, assessor de comunicação do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, os documentos foram destruídos após o crime prescrever.


O caso foi tema de dois episódios do programa "Linha Direta": em 1990 e 2004


• FONTES: Linha Direta, Além da Imaginação, Blog do Astrônomo, Aventuras na História, Clube de Astronomia, Iconografia da História.

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