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  • Foto do escritorRodolfo Brenner

#12 - Elisa Lam e o Hotel Cecil | MISTÉRIOS

Um corpo em uma caixa d’água, um vídeo bizarro, um hotel com um histórico de mistérios e muitas teorias: a morte da estudante Elisa Lam chamou a atenção da internet, criando uma grande comunidade que tenta descobrir o que aconteceu com ela.


Essa é a versão escrita do episódio #12 - Elisa Lam e o Hotel Cecil:



Elisa Lam nasceu em 30 de abril de 1991, em Vancouver, no Canadá. Ela era filha de David e Yinna Lam, imigrantes de Hong Kong que tinham um restaurante na cidade de Burnaby. Ela também tinha uma irmã chamada Sarah e estudava na University of British Columbia.

A Elisa era bem ativa quando o assunto era escrever na internet: ela mantinha um blog chamado Ether Fields, no qual ela detalhava sua luta contra sentimentos depressivos. Ela também gostava de compartilhar citações, como uma do autor Chuck Palahniuk que dizia: “Você sempre é assombrado pela ideia de que está desperdiçando sua vida ”. Depois de um tempo, ela migrou seu blog para um Tumblr chamado Nouvelle-Nouveau, onde compartilhava fotos e gifs de coisas que ela gostava, como música e moda. Nessa época ela foi diagnosticada com transtorno bipolar, e falava abertamente sobre como era difícil lidar com a doença, tomar os medicamentos e enfrentar o preconceito e a estigmatização.


Sarah, Elisa e Yinna Lam

Em janeiro de 2013, Elisa decidiu viajar sozinha para a Califórnia. Inicialmente os seus pais foram contra, mas concordaram com a condição de que ela ligasse todos os dias. Ela chegou em San Diego de trem e pretendia viajar pelas maiores cidades do estado, sendo o seu destino final a cidade de Santa Cruz.

Elisa parou em Los Angeles e se hospedou no Stay on Main, localizado no centro da cidade. Esse hotel ocupava alguns andares do prédio do Hotel Cecil, um hotel antigo famoso na cidade por causa dos assassinatos e suicídios cometidos no local. O Stay on Main foi criado em uma tentativa do Cecil de atrair mochileiros para ocupar quartos com rotatividade alta, enquanto outros andares eram destinados a pessoas que moravam no hotel. E embora os dois tivessem lobbies e entradas diferentes, o Hotel Cecil e o Stay on Main tinham elevadores compartilhados.


O Hotel Cecil


Após três dias de sua estada, Elisa foi transferida de um quarto compartilhado para um quarto privativo no mesmo andar. Segunda a gerente do hotel, Amy Price, isso se deu depois que os hóspedes que compartilhavam o quarto com ela reclamaram de "comportamentos estranhos" da jovem. O dia da troca de quarto foi o último dia que ela foi vista pelos funcionários do hotel. Em 1º de fevereiro de 2013, dia em que ela deveria sair do Cecil e partir para Santa Cruz, seus pais não receberam a ligação cotidiana, ficaram preocupados e decidiram chamar a polícia.


Amy Price foi gerente do Hotel Cecil de 2007 até 2017


Os pais de Elisa pegaram o primeiro voo que puderam para Los Angeles para acompanhar a busca. A polícia interrogou os funcionários do hotel que viram Elisa, e eles confirmaram que ela sempre estava sozinha. Todos os seus pertences - incluindo a carteira e a identidade - ainda estavam em seu quarto.

Uma das últimas pessoas a vê-la com vida foi Katie Orphan, gerente de uma livraria que Elisa frequentou enquanto estava hospedada em Los Angeles: ela disse que a jovem estava animada em levar livros de presente para a família e preocupada se eles pesariam muito na sua mala.

A polícia vasculhou o hotel, porém não encontrou a jovem, mesmo utilizando cães farejadores, que, segundo os oficiais, não conseguiram detectar o cheiro dela. Essa primeira busca não foi tão profunda porque a polícia não revistou todos os cômodos. Segundo o sargento Rudy Lopez, "Só poderíamos fazer isso se tivéssemos uma causa provável para acreditar que um crime foi cometido”. Em 6 de fevereiro, uma semana após Elisa desaparecer, a polícia de Los Angeles decidiu chamar ajuda federal para continuar as buscas. Também foram espalhados cartazes com a foto dela. Nesse ponto, o caso chamou a atenção da TV, que começou a noticiar o desaparecimento.


Cartaz de pessoa desaparecida divulgado pela polícia com informações sobre Elisa Lam


No dia 13 de fevereiro (algumas fontes dizem 15), a polícia de Los Angeles divulgou um vídeo da última aparição conhecida de Elisa Lam: a câmera de segurança de um dos elevadores do Hotel Cecil mostrava a jovem apresentando um comportamento estranho, parecia falar sozinha e gesticulava de uma forma “anormal”. Além disso, ela pressionava todos os botões, porém a porta do elevador continuava aberta. As portas só fecham quando ela deixa o local.

O vídeo atraiu a atenção mundial: no site chinês Youku, uma espécie de YouTube próprio do país, foram mais 3 milhões de visualizações e 40.000 comentários nos primeiros 10 dias. O vídeo também parou no próprio YouTube e em alguns fóruns como o Reddit, em que os internautas compartilhavam suas teorias sobre o estranho comportamento da Elisa nas filmagens. Alguns internautas argumentaram que o vídeo tinha sido adulterado pela polícia ou pelo hotel antes de se tornar público: além de obscurecer o carimbo de data e hora, alguns quadros pareciam desacelerados e havia quase um minuto de filmagem removido.



No dia 19 de fevereiro, os hóspedes do Cecil começaram a reclamar da baixa pressão da água nas torneiras, além de relatar que ela estava com uma tonalidade escura e com um gosto esquisito. O responsável pela manutenção, Santiago Lopez, decidiu investigar os quatro tanques de água no telhado e percebeu que a escotilha estava aberta. Ao examinar mais de perto, ele viu um corpo flutuando dentro de uma das cisternas. Ele chamou a polícia, que confirmou que se tratava de Elisa Lam.


O corpo de Elisa foi encontrado dentro de um dos tanques de água do Hotel Cecil


O relatório da autópsia concluiu a morte como um acidente, já que não havia nenhum trauma, corte, abuso sexual ou marcas de luta em seu corpo. A causa da morte foi afogamento, e o transtorno bipolar foi descrito como um fator significativo: até 60% dos pacientes bipolares tentam o suicídio pelo menos uma vez na vida. Quando foi encontrada, Elisa estava nua, e as roupas que ela estava usando no vídeo do elevador estavam flutuando na água. Seu relógio e a chave do quarto também foram encontrados com ela.

Os testes toxicológicos mostraram traços dos medicamentos que ela usava, além de um remédio para gripe e um anti-inflamatório. A concentração de seus medicamentos mostrava que ela estava submedicada, ou seja, ela havia parado de tomar seus medicamentos recentemente. Também foi encontrada uma pequena quantidade de álcool (cerca de 0,02%), mas nenhuma outra droga.

Apesar do corpo, a polícia ainda estava sem respostas: como Elisa teria chegado até o telhado? O acesso ao telhado do hotel é restrito, e só poderia ser feito por saídas de incêndio nas laterais do prédio ou uma porta trancada no telhado com um alarme que dispara quando é aberta.

Em setembro de 2013, os pais de Elisa Lam processam o Hotel Cecil alegando negligência que levou à morte de sua filha: segundo eles, a propriedade não era segura para os hóspedes e os funcionários e operadores tinham o dever de inspecionar e procurar perigos no hotel que apresentassem um risco de perigo para os hóspedes. O hotel argumentou que não poderia ter previsto que Elisa entraria no tanque de água e que nenhuma responsabilidade poderia ser atribuída porque não se sabia como ela havia chegado lá. O processo acabou arquivado em 2015.


Sarah, Yinna e David Lam durante uma coletiva de imprensa

Todas as circunstâncias da morte de Elisa Lam chamaram a atenção porque eram muito parecidas com o filme Água Negra, um terror coreano de 2002 e que teve um remake americano em 2005: no filme, mãe e filha se mudam para um apartamento antigo e começam a presenciar fenômenos estranhos, como água escura jorrando das torneiras. Quando vão investigar a caixa de água no telhado, elas descobrem o corpo de uma garota que havia sido dada como desaparecida um ano antes.


Poster do filme "Dark Water"


O próprio Hotel Cecil tem um grande histórico de assassinatos e suicídios: o primeiro deles foi em 1927, quando um homem chamado Percy Ormond Cook, de 52 anos, deu um tiro na cabeça dentro de seu quarto no hotel após não conseguir se reconciliar com sua esposa e filho. O Los Angeles Times relatou que ele foi levado às pressas para o hospital, porém morreu na mesma noite. Esse foi só o primeiro de pelo menos 13 suicídios que aconteceram no hotel.


Notícia de um jornal sobre o suicídio de Percy Ormond Cook


O pesquisador Hadley Meares também ligou o Cecil a outro caso famoso: segundo ele, Elizabeth Short, apelidada de Dália Negra, teria sido vista bebendo no bar do Cecil nos dias anteriores ao seu assassinato em 1947. Essa afirmação, porém, é muito debatida pela comunidade e desacreditada por muitos.


Elizabeth Short, a Dália Negra: jovem foi assassinada em 1947


Em 1964, uma operadora de telemarketing aposentada chamado Goldie Osgood foi encontrada morta em seu quarto. Os relatórios concluíram que ela foi estuprada, esfaqueada e espancada até a morte. O caso chocou os funcionários do Cecil, já que Goldie era uma residente fixa e muito querida por todos. Um homem chamado Jacques B. Ehlinger foi acusado do assassinato, porém foi inocentado como suspeito, e o caso segue sem solução.


Notícia sobre a morte de Goldie Osgood


O hotel também abrigou dois seriais killers: na década de 80, Richard Ramirez, conhecido como Night Stalker, ficou hospedado no local por algumas semanas. Ramirez teve 15 vítimas conhecidas, além de outras tentativas de homicídio, acusações de agressão sexual e de roubo. Outro assassino em série, o austríaco Jack Unterweger, ficou no Cecil em 1991, com a ideia de copiar os crimes de Ramirez: enquanto estava lá, ele estrangulou e matou pelo menos três prostitutas.


Em ordem: os serial killers Richard Ramirez e Jack Unterweger


O caso da Elisa Lam tem sido usado como inspiração para diversos trabalhos na TV: o episódio Watershed, da série Castle, mostra os personagens investigando a morte de uma jovem encontrada no tanque de água do "Hotel Cedric". Na série How to Get Away with Murder, a primeira temporada aborda o caso de uma garota desaparecida que foi encontrada na caixa d'água depois que um funcionário da manutenção é chamado para resolver um problema de falta de pressão da água no local. O Hotel Cecil também foi inspiração para a 5ª temporada de American Horror Story.


O Hotel Cortez de American Horror Story foi inspirado no Hotel Cecil


Em fevereiro de 2021, a Netflix anunciou uma série documental chamada “Crime Scene: The Vanishing at the Cecil Hotel”, investigando a história do Cecil e a morte de Elisa Lam. O documentário conta com diversos depoimentos importantes como a da gerente Amy Price e de Santiago Lopez, o zelador que encontrou o corpo. O documentário quebra diversas teorias da conspiração e informações falsas, como uma informação de que a tampa da caixa estaria fechada, quando ela estava aberta quando o corpo foi encontrado.

O documentário também mostra diversas teorias da conspiração e investigação feita por não profissionais e que contribuíram ainda mais para os mistérios em volta do caso. Uma teoria absurda é de que Elisa seria uma agente do governo usada como arma biológica para espalhar tuberculose entre os sem-teto da região, já que a região do Cecil é conhecida por abrigar muitos moradores de rua. A doença realmente estava se espalhando entre os locais, e uma “evidência” da teoria é de que o teste para diagnosticar a tuberculose se chama “Lam Elisa”. A jovem então teria sido morta por “saber demais”.



Mas afinal, o que aconteceu com Elisa Lam? A principal teoria é de que a jovem, devido a falta de medicamentos, acabou desenvolvendo um quadro psicótico, o que explicaria o seu comportamento estranho no vídeo. De alguma forma, Elisa chegou no telhado, pulou ou acidentalmente caiu na caixa d’água, e não conseguiu sair. No fim das contas, o caso é um triste final para uma garota inteligente, sonhadora e batalhadora, que lutava contra uma doença debilitante e que exige muito de quem ela atinge.


Postagem do tumblr de Elisa Lam: "Tenho prazer nas minhas transformações. Pareço tranquila e consistente, mas poucos sabem quantas mulheres há em mim".

• FONTES: Popsugar, Medium, Vanity Fair, The Netline, Esquire, RollingStone, Parade, BBC, Los Angeles Times, Refinery29, Cena do Crime - Mistério e Morte no Hotel Cecil, Aventuras na História.

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