#110 - Pé-Grande: Verdade ou Farsa? | MISTÉRIOS
- Rodolfo Brenner
- há 2 horas
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Durante décadas, povos originários, exploradores e caçadores relatam a aparição de uma criatura simia, meio homem e meio macaco, que vive nas florestas do norte dos Estados Unidos e do Canadá. Até hoje, muitos cientistas procuram provas da sua existência e também tentam explicar um vídeo polêmico que nunca foi totalmente refutado..
Essa é a versão escrita do episódio #110 - Pé-Grande: Verdade ou Farsa?.

Antes de falar sobre o Pé-Grande em si, precisamos introduzir a ciência que o estuda, a Criptozoologia. A criptozoologia estuda animais desconhecidos, lendários ou extintos, conhecidos como criptídeos. Dentre os criptídeos mais famosos estão o próprio Pé-Grande, o Monstro do Lago Ness, o Yeti, Chupacabra, entre outros.- A origem da criptozoologia se dá na década de 50, pelos zoólogos Bernard Heuvelmans e Ivan Sanderson. Segundo eles, a rejeição de estudos acadêmicos sobre os criptídeos viabilizou a criação da criptozoologia, que é considerada uma pseudociência, ou seja, uma teoria com aparência científica, mas que parte de uma premissa sem um método rigoroso de pesquisa. Existem diversas organizações dedicadas aos profissionais de Criptozoologia, entre elas: International Fortean Organization, que reúne estudiosos de outras vertentes como a Parapsicologia; a International Society of Cryptozoology; e a Kosmopoisk, uma organização russa de estudos de Criptozoologia e Ufologia.
Existem também alguns museus de criptozoologia pelo mundo, como o Musée Cantonal de Zoologie em Lausanne, na Suíça, que reúne mais de 1.000 livros e 25.000 fotografias de criptídeos. Existe também o Museu Internacional de Criptozoologia em Portland, Maine, que abriga mais de 3000 artefatos relacionados à criptozoologia. Também já houve exposições de Criptozoologia no Bates College Museum of Art e no Museu Americano de História Natural.

Museu Internacional de Criptozoologia
O Pé-Grande é descrito como uma criatura grande, musculosa e bípede, semelhante a uma mistura do ser humano com um macaco, coberta de pelos escuros, em tons que variam entre o preto, castanho-escuros ou vermelho. Ele teria uma altura aproximada que varia entre 1,80 a 2,50, mas que poderia chegar a quase 4,50 metros. Algumas descrições incluem: ombros largos, pescoço curto e braços longos. Os olhos brilhariam em amarelo ou vermelho, e ele também teria um cheiro nada agradável. Mas a característica mais marcante seria o tamanho enorme dos seus pés, que teria mais 60 cm de comprimento.
O primeiro registro escrito data de 1929, quando o professor J.W. Burns, que viveu e trabalhou junto com a Nação Sts'ailes, publicou uma coleção de histórias intitulada "Apresentando os Gigantes Peludos da Colúmbia Britânica” na revista Maclean's. Foi ele inclusive que cunhou o termo “Sasquatch”, como o Pé-Grande também é conhecido, principalmente no Canadá.
Já o termo Pé-Grande surgiu em 1958, depois que um operador de trator na Califórnia descobriu um conjunto de pegadas de 41 cm afundadas na lama da Floresta Nacional de Six Rivers. Ao informar seus colegas de trabalho, muitos afirmaram ter visto pegadas semelhantes em locais de trabalho anteriores, além de relatarem incidentes estranhos, como um tambor de óleo pesando 200 kg que havia sido movido sem explicação. Os homens da empresa logo começaram a usar a palavra "Pé Grande" para descrever o aparente culpado. O repórter Andrew Genzoli, do jornal Humboldt Times, soube da história e escreveu artigos sobre as pegadas misteriosas, introduzindo o nome "Pé Grande" para a grande população.

Especialistas recolhem pegada
A maioria dos povos originários dos norte dos Estados Unidos e do Canadá possuem relatos de gigantes semelhantes a humanos em sua história folclórica. Quem também tinha histórias eram povos europeus que migraram para esses países, e a junção das culturas pode ter dado origem ao mito moderno do Pé-Grande.- Um artigo de 2007 intitulado "Imagens do Homem Selvagem Dentro e Fora da Europa" afirmava: "Certamente, o sasquatch moderno é em grande parte produto de uma cultura de origem europeia. No entanto, o sasquatch está parcialmente enraizado em representações ameríndias de hominídeos peludos, embora a relação entre estes, que são frequentemente descritos como pequenos, e o sasquatch gigante do imaginário popular canadense e americano esteja longe de ser direta."
De acordo com o antropólogo Dr. John McClelland, professor de antropologia da Universidade do Arizona, as lendas de criaturas humanoides selvagens são tão antigas quanto a história da humanidade. Segundo ele, “nomes e outros detalhes variam, mas características comuns desses animais não documentados são bipedalismo, tamanho gigantesco, corpos cobertos de pelos e potencial para causar danos”. Exploradores espanhóis e colonos mexicanos do século XVI contavam histórias sobre “observadores sombrios”, grandes criaturas hominídeas que supostamente rondavam seus acampamentos à noite. Na região que hoje é o Mississippi, um padre jesuíta relatou em 1721 criaturas peludas na floresta, conhecidas por gritar alto e roubar gado.
Quanto aos indígenas, o folclore do povo Cherokee inclui contos sobre Tsul 'Kalu, descritos como "gigantes de olhos puxados" que residiam nas Montanhas Apalaches e às vezes são associados ao Pé Grande. Os membros da tribo Lummi contam histórias sobre criaturas parecidas intituladas Ts'emekwes. Em 1847, Paul Kane relatou histórias dos nativos sobre os skoocooms, uma raça de homens selvagens canibais que viviam no pico do Monte Santa Helena. O presidente dos EUA, Theodore Roosevelt, em seu livro de 1893, The Wilderness Hunter, escreve sobre uma história que lhe foi contada por um velho morador das montanhas chamado Bauman, na qual uma criatura bípede e malcheirosa saqueou seu acampamento de caça de castores, perseguiu e, mais tarde, matou seu companheiro de caça.
Em 16 de julho de 1924, um artigo no jornal The Oregonian ganhou destaque nacional ao descrever um conflito entre garimpeiros e um grupo de "homens-macaco" em um desfiladeiro próximo ao Monte Santa Helena. Um dos homens, Fred Beck, afirmou ter atirado em uma das criaturas com um rifle após ser atacado por eles. O Serviço Florestal dos EUA investigou o local do suposto incidente, mas não encontraram evidências convincentes do evento. Em 1971, várias pessoas em Dalles, Oregon, registraram um boletim de ocorrência descrevendo um "macaco gigante". Um dos homens alegou ter avistado a criatura na mira de seu rifle, mas não conseguiu atirar nele porque ele parecia “mais humano do que animal”.

Tsul 'Kalu
Em 1967, aconteceu o avistamento mais bem documentado da criatura: no dia 20/10, Roger Patterson e Robert Gimlin cavalgavam rio acima ao longo da margem leste do riacho Bluff. Em algum momento entre 13h15 e 13h40, eles “chegaram a uma árvore tombada com um grande sistema radicular em uma curva do riacho, quase tão alta quanto um cômodo”. Ao contorná-la, havia um amontoado de troncos, algo que parecia um ninho.
Eles então avistaram uma figura agachada ao lado do riacho à esquerda deles. Robert a descreveu com altura entre 1,98m e 2,29m, peluda, bípede e semelhante a um macaco, com pelos curtos e uma cor que poderia ser castanho, castanho-avermelhado ou preto. Quando seu cavalo viu a criatura, ele empinou. Os dois ligaram uma câmera Cine-Kodak K-100 de 16mm e correram em direção a ela, armados. Roger estima que eles chegaram a uma distância de 18 a 27 metros da criatura. O filme resultante tem quase 1 minuto de duração e é bastante tremido, mas mostra a criatura olhando diretamente para a câmera antes de entrar em um bosque. Após desligar a câmera, os dois seguiram o animal por quase 5 km, mas não conseguiram encontrá-lo.
Roger Patterson mandou revelar o filme o mais rápido possível e procurou diversos cientistas para mostrá-lo, mas a grande maioria não estava interessada. Um dos poucos que achou o material interessante foi o zoólogo Ivan Sanderson, que montou sete exibições entre Canadá e Estados Unidos. O filme também foi exibido na Finlândia, Suécia, Suíça e Rússia. O filme de Patterson-Gimlin, como ficou conhecido, é até hoje classificado como a maior evidência da existência do Pé-Grande. Muitos tentaram desmistificar a gravação, mas até onde se sabe, ela é autêntica. Para os céticos, a resposta seria a de que a gravação foi feita com alguém fantasiado. Ambos Roger e Robert já faleceram, mas sempre alegaram que o vídeo era verdadeiro.
Mas, se o Pé-Grande não existe, o que explica os vários avistamentos, pegadas e algumas filmagens? Tirando a teoria de que tudo seria uma farsa bem elaborada com o uso de fantasias e próteses para os pés, as explicações mais comuns dizem que a maioria das observações são casos de má identificação, e que é provável que os avistamentos sejam de outros animais, especialmente ursos.- Ursos-negros e ursos-pardos já foram observados e registrados andando eretos, medindo entre 1,5 e 2,7 metros. As áreas de maiores incidência de avistamentos de Pé-Grande batem com populações documentadas de ursos-negros. Outros animais como como chimpanzés, gorilas e orangotangos, que escaparam de zoológicos, circos e locais onde eram mantidos como pets.
Até humanos já foram confundidos como o Pé-Grande: em 2013, um homem de 21 anos em Oklahoma foi preso depois de dizer à polícia que acidentalmente atirou nas costas de seu amigo enquanto seu grupo supostamente caçava a criatura. Em 2017, um xamã vestindo roupas feitas de peles de animais estava de férias em uma floresta da Carolina do Norte quando relatos locais de supostos avistamentos do Pé Grande começaram a surgir. O Departamento de Polícia emitiu um aviso público para não atirar no Pé Grande por medo de ferir ou matar acidentalmente alguém em uma fantasia de pele.
Em 2018, uma pessoa foi baleada várias vezes por um caçador perto de Helena, Montana, que alegou tê-la confundido com um Pé Grande.- Para quem acredita no Pé-Grande, a principal teoria é que a criatura seria o Gigantopithecus blacki, um hominídeo original do sudeste asiático. Proposta pela primeira vez pelos criptozoologistas Grover Krantz e Geoffrey H. Bourne, o animal pode ter seguido outras espécies de animais que migraram através da ponte terrestre de Bering para as Américas. Importante salientar que nenhum fóssil de Gigantopithecus blacki foi encontrado na América.
• FONTES: Voices: The Journal of New York Folklore, Searching for Sasquatch, Live Science, University of British Columbia Museum of Anthropology, Strange Magazine.





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