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  • Foto do escritorRodolfo Brenner

#71 - Luis Garavito, a Besta | SERIAL KILLER

Durante anos, diversos estados da Colômbia foram aterrorizados pelo desaparecimento e o assassinato de crianças. A maioria dos alvos eram meninos pobres, que eram atraídos por promessas de comida e dinheiro e mortos de formas horríveis. Com diversos problemas para cuidar, as autoridades colombianas demoram muito para conectar os casos, abrindo espaço para aquele que seria o serial killer mais prolífico da história.


Essa é a versão escrita do episódio #71 - Luis Garavito, a Besta:



Luis Alfredo Garavito Cubillos nasceu no dia 25/01/1957 em Génova, que fica no centro-oeste da Colômbia. Ele era filho mais velho de Manuel Antonio Garavito e Rosa Delia Cubillos e tinha mais três irmãos e três irmãs. Seu pai era alcoólatra e muito abusivo com toda a família, principalmente com a mãe: ele relatou que, aos seis anos, foi amarrado a uma árvore e espancado pelo pai após ter tentado defender a mãe, que estava grávida.

Apesar da proximidade maior, a mãe também era violenta com os filhos e, segundo Luis, tinha lhe dado "pouco carinho e cuidado" quando ele era criança. Por causa de vários conflitos armados em Génova, a família acabou se mudando para Ceilán, no Valle del Cauca. A casa era bem pequena e muitas vezes as crianças dividiam a cama com os pais. Em uma dessas vezes, Luis disse ter sido molestado pelo pai.


Luis Garavito na infância


Ele frequentava a Escola Simón Bolívar em Ceilán, onde foi descrito como uma criança alegre e colaborativa, com muita vontade de aprender. Entretanto, seus professores notaram que ele tinha uma extrema dificuldade em entender os conteúdos, além de sofrer bullying: ele foi apelidado de “Garabato” (que significa “rabisco” em Espanhol). Quando era intimidado, ele reagia de forma violenta. Ele estudou somente até a 5ª série e abandonou a escola por pressão do pai, que insistia para ele trabalhar, e também por conta do bullying constante dos colegas. Nessa época ele também foi proibido de ter amigos e seu pai disse que ele deveria focar apenas no trabalho.

Em 1969, Luis começou a ser abusado física e sexualmente por um vizinho, que era amigo do seu pai. Segundo ele, esse vizinho amarrou ele em uma cama, queimou, cortou e mordeu ele, além de estuprá-lo mais de uma vez, tudo com o consentimento do seu pai. Por causa desses abusos, ele teria começado a descontar sua raiva matando animais.

Já na adolescência, Luis começou a sugerir aos irmãos que eles dormissem nus enquanto dividiam a cama. Durante as noites ele teria molestado os irmãos mais novos em várias ocasiões. Ele alegou que também molestou um menino de 6 anos em 1969. Em 1971 a família se mudou para Trujillo, e foi quando o Luis percebeu que os abusos tinham deixado marcas físicas nele: além de sofrer de impotência, ele não conseguia mais ejacular. Isso deixou ele ainda mais agressivo.


Trujillo, Colômbia


Logo depois de chegar a Trujillo, Luis sofreu mais um abuso: um vizinho chamou ele até sua casa e quis obrigá-lo a ver um filme pornô. Quando ele quis ir embora, esse vizinho espancou e estuprou o Luis. Ele nunca contou sobre nenhum desses abusos para a família, pois tinha vergonha e medo da reação deles, principalmente do seu pai. No ano seguinte, Luis conheceu algumas mulheres e tentou ter relações sexuais com elas, mas não conseguia manter a ereção e ficava violento. Nessa época ele também passou a consumir bebida alcoólica e rapidamente desenvolveu o vício.

A relação com a família continuava péssima, com brigas constantes com seu pai por causa do seu "comportamento homossexual". Ele também foi expulso de casa duas vezes – em 1972 e 1973 – por ter tentado abusar de um menino de 5 e de um de 6 anos, respectivamente. Essa última tentativa aconteceu em uma estação de trem e ele chegou a ser preso, mas alegou que não tinha tentado estuprar a criança, apenas "molestado levemente".

Nessa época ele passou a trabalhar como auxiliar em um cartório e depois em uma rede de lojas. Apesar de ser um bom funcionário, ele teve vários problemas com seus colegas de trabalho, que muitas vezes geraram brigas físicas. Depois de perder o emprego, Luis trabalhou como vendedor ambulante até arrumar emprego em uma plantação de café em 1973. Nessa época ele começou a namorar a Luz Mary Ocampo Orozco, que disse que o Luis era muito carinhoso com ela e criava o filho como se fosse seu, além de acompanhar ela no culto toda a semana. Ele também passou a frequentar reuniões dos Alcoólicos Anônimos. Após se separar da Luz, Luis teve várias namoradas, mas os relacionamentos sempre acabavam por conta do alcoolismo ou do ciúmes excessivo que ele tinha. Quando estava alcoolizado, ele era abusivo com suas companheiras e sempre jurava que ia matar o seu pai quando pudesse.

Nos anos seguintes, Luis passou a sofrer diversos sintomas paranoides, psicóticos e depressivos, incluindo uma tentativa de suicidio. Ele também se afastou definitivamente da família e tinha muita raiva do pai e dos irmãos mais novos. Em 1980 ele procurou atendimento psiquiátrico no hospital San Juan de Dios e foi hospitalizado por um grande período pelo risco de suicidio. Durante conversas com a equipe médica, Luis não contou sobre a sua orientação sexual, impotência ou sobre a pedofilia por medo de represálias.

Após ganhar alta, ele começou um relacionamento com uma mulher chamada Claudia, de quem ele gostava bastante. Entretanto, ela o abandonou porque ele não conseguia sustentá-la. Enquanto isso, ele continuava molestando crianças sempre que podia, até mesmo durante o intervalo do almoço do seu trabalho. Ele começou a usar lâminas de barbear e velas para torturar as suas vítimas, ao mesmo tempo em que lia a bíblia compulsivamente, tentando procurar uma explicação para os seus desvios. Sua saúde mental se degradou ainda mais: além de crises depressivas, ele tinha pesadelos frequentes, sentimentos de culpa e ataques de histeria.

Em janeiro de 1984, Luis foi internado novamente após um colapso mental. Foram prescritos alguns medicamentos e terapia, mas ele largou tudo e foi para a cidade de Pereira, onde molestou mais crianças. Uma delas chegou a reconhecê-lo publicamente, mas ele conseguiu fugir do local. Nessa época ele teve contato com o Mein Kampf, a biografia de Adolf Hitler, fazendo diversos paralelos da vida do ditador com a sua. Luis transformou Hitler no seu ídolo, expressando admiração e dizendo que gostava dos campos de concentração. Posteriormente ele também ficou obcecado por um assassino de carreira chamado Campo Elías Delgado, que ficou conhecido por ter assassinado a própria família em 1986. Até esse momento ele ainda não havia matado ninguém, mas acredita-se que o número de crianças molestadas já tinha passado de cem.


Campo Elías Delgado


Luis conheceu uma mãe solteira chamada Graciela Zabaleta e os dois foram morar juntos depois de algumas semanas. Segundo ela, Luis era bastante ausente, mas quando estava em casa se mostrava um bom companheiro para ela e uma figura paterna para seu filho. Algum tempo depois ele teve uma recaída forte da sua saúde mental, com diversas crises psicóticas e tentativas de suicidio. Ele também entrou em contato com o ocultismo e passou a fazer sessões com tabuleiro ouija para conversar com entidades. Em uma dessas sessões, ele disse ter entrado em contato com um demônio, que perguntou se ele queria servi-lo. Luis disse que sim, e o demônio teria respondido "então mate, é através da morte que muitas coisas boas virão".

Em outubro de 1992, Luis encontrou um menino que estava vendendo doces na rua e atraiu ele até um terreno, com o desejo de cometer o seu primeiro assassinato. Felizmente ele foi interceptado pela polícia, que deu uma surra nele e levou ele preso, mas ele foi liberado logo em seguida. Em 4 de outubro de 1992, Luis Garavito fez a sua primeira vítima: um adolescente de 13 anos chamado Juan Carlos. Naquela noite, ele estava em um bar quando avistou o garoto caminhando. Luis disse que olhou para a lua e entrou em uma espécie de transe, sentindo uma força sobrenatural que o levou a ir atrás do adolescente. Ele ofereceu dinheiro para que Juan fosse com ele até uma ferrovia, onde ele foi estuprado, torturado e assassinado. Quando o corpo de Juan Carlos foi encontrado, ele estava sem vários dentes, com perfurações pelo corpo e sem os órgãos genitais. Luis disse que não se lembra do crime e só percebeu que tinha feito algo errado quando acordou pela manhã e viu suas roupas sujas de sangue.

Após ter assassinado Juan, Luis começou uma trilha sangrenta de assassinatos por onde passava. Suas vítimas eram sempre crianças humildes, de famílias pobres ou sem-teto. Ele preferia as crianças que, segundo ele, tinham características de serem mais “inocentes”, como olhos e pele clara. Quase todas as vítimas eram meninos, embora algumas meninas também foram mortas. Ele procurava elas em regiões rurais, locais onde ficavam agrupados moradores sem-teto e perto de escolas. Luis abordava essas crianças, às vezes dizendo ser um padre ou professor, e oferecia dinheiro, doces ou propostas de trabalho para que a criança a acompanhasse. Ele levava elas até um local isolado, onde elas eram abusadas, torturadas e mortas, a maioria por decapitação. Os corpos muitas vezes eram jogados em valas comuns que ele fazia pelas regiões que passava. Um detalhe é que, segundo Luis, na época ele desenvolveu um medo irreal do escuro, então tudo o que ele fazia era em plena luz do dia.

Segundo as investigações, Luis atacou nos estados de Valle del Cauca, Boyacá, Meta, Quindío, Risaralda, Cundinamarca, Nariño, Huila, Caquetá, Antioquia e Caldas. Ele também confessou assassinatos no Equador — onde a morte de pelo menos dois meninos foi confirmada — e na Venezuela, embora não saiba exatamente quantos crimes foram cometidos em cada país.


Luis Garavito


A polícia da Colômbia demorou anos para conectar os crimes do Luis por diversos motivos: os meninos vítimas de estupro muitas vezes não contavam a ninguém sobre os ataques por medo, e as famílias que sabiam não permitiam que eles falassem por uma questão de honra à masculinidade. Quanto aos desaparecimentos e mortes, quando a vítima era um sem-teto, não havia qualquer tipo de notificação já que ninguém dava a falta delas. Além disso, desde os anos 60, a Colômbia passa por um conflito armado entre o governo e diversos grupos paramilitares, sendo o mais conhecido deles a FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), que praticaram inúmeros casos de sequestros, homicídios e desaparecimentos. Estima-se que mais de 220 mil pessoas morreram e 27 mil desapareceram por causa desses conflitos.

Também existe o problema do narcotráfico, que está intimamente ligado com o conflito armado já que muitos grupos usam o dinheiro das drogas para financiar a guerra. Nos anos 70 surgiram os chamados cartéis, organizações criminosas especialistas no tráfico de drogas, principalmente de cocaína. Os cartéis cometeram inúmeros crimes, desde extorsão, atentados a bomba, sequestro e assassinato. O mais famoso de todos foi o Cartél de Medellín, comandado por ninguém menos do que Pablo Escobar. O cartel era tão forte que chegou a fornecer 80% da cocaína do mundo todo, o que gerava uma receita de 420 milhões de dólares por semana, mais de 22 bilhões por ano. Era tanto dinheiro que Pablo Escobar ficou na lista de bilionários da Forbes por sete anos seguidos. Tinha tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo que a polícia simplesmente não conseguia ter tempo de investigar os crimes do Luis com calma, muitas vezes colocando a culpa dos assassinatos e desaparecimentos como sendo pela guerra ou pelo tráfico.


Membros das FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia)


O caso só ganhou alguma atenção quando começaram a ser localizadas as valas comuns onde o Luis despejava os corpos. Só em uma delas foram encontrados os corpos de 36 crianças com sinais de tortura e agressão sexual. Após a descoberta, iniciou-se uma força tarefa para tentar mapear todos os casos. No início as autoridades pensavam que se tratava de um grupo de assassinos devido a quantidade de mortos, pois eles achavam que era humanamente impossível só uma pessoa ter cometido todos esses crimes.

Em 6 de fevereiro de 1999, as autoridades foram chamadas para conter um incêncio em um canavial na cidade de Palmira, quando encontraram o corpo de 3 crianças, todas com marcas de amarras, cortes pelo corpo e abuso sexual, além do pescoço cortado. A arma do crime também foi encontrada no local.- No dia que cometeu os crimes, Luis estava bêbado e acabou pegando no sono com um cigarro na mão, o que causou o incêndio. Ele se queimou gravemente e acabou deixando vários pertences no local, incluindo dinheiro, óculos e suas roupas, além de um recibo com um endereço. Através das roupas foi feito um perfil do assassino: um homem de meia-idade, baixo, com astigmatismo e que mancava.

Pouco tempo depois a polícia acabou prendendo um criminoso sexual chamado Pedro Pablo Ramirez Garcia, de 44 anos. Pedro realmente mancava e foi reconhecido por um menino da cidade por uma tentativa de abuso. Mesmo com essa prisão, o detetive Aldemar Duran seguiu a pista do endereço do recibo e chegou na casa da Graciela, uma das namoradas do Luis. Ao ser interrogada, ela disse que não via ele há vários meses, mas entregou para a polícia uma mala que Luis tinha deixado na sua casa e que ela nunca tinha aberto desde que ele tinha ido embora. Ao abrirem a mala, eles se depararam com várias fotos de crianças mortas e diários detalhando os crimes. A polícia correu para chegar no último local que ele tinha sido visto, mas quando eles chegaram ele já tinha fugido.


Policiais recolhem corpos de um dos locais de desova de Luis


No dia 22 de abril de 1999, Luis encontrou um jovem vendendo bilhetes de loteria na cidade de Villavicencio. Ele obrigou o menino a segui-lo até uma área isolada e amarrou ele. Enquanto ele torturava a criança, um sem-teto acabou ouvindo os gritos de ajuda e foi até o local. Ele começou a xingar e atirar pedras no assassino, que correu atrás dele. Esse sem-teto conseguiu soltar o menino e fugir com ele para uma fazenda, onde eles foram recebidos por uma menina de 12 anos que deu abrigo e chamou as autoridades. Mais tarde o próprio Luis foi ao local perguntando dos dois, e essa menina indicou um caminho para dentro da floresta, onde o Luis acabou se perdendo.

A polícia fez uma busca pelo local e conseguiu encontrar o Luis só perto das 19h. Ele disse que era um político local e que não conhecia o assassino, mas mesmo assim ele foi preso e levado para o Departamento de Justiça da Colômbia. Lá eles fizeram vários testes para confirmar a identidade, mas a principal pista veio de uma forma inusitada. Lembram que o Luis tinha perdido os óculos dele no canavial que pegou fogo? As autoridades descobriram que ele tinha uma doença ocular muito rara, e que o óculos que ele usava não era para astigmatismo, mas sim projetado exclusivamente para o seu quadro. Através de testes oculares com um oftalmologista foi possível confirmar que os óculos eram dele. Posteriormente, um teste de DNA confirmou que o assassino realmente era ele.

Para a surpresa de todos, Luís confessou todos os seus crimes, alegando ter matado cerca de 140 crianças. Com a investigação, o total de vítimas foi para 172, tendo sido culpado por 138 mortes. Ele foi condenado a 1.853 anos e 9 dias de prisão, a sentença mais longa da história da Colômbia, e cumpriu pena em uma prisão de segurança máxima em Valledupar. Ele era constantemente vigiado e era mantido separado de todos os outros prisioneiros porque era jurado de morte.

Assim como no Brasil, a lei da Colômbia estipula que uma pessoa pode ficar presa por no máximo 40 anos. Com recursos, a pena oficial do Luís foi reduzida para apenas 22 anos e ele se tornaria elegível para liberdade condicional em 2022. Em 2021 foi feito um pedido de liberação antecipada por bom comportamento, mas foi negado porque um juiz entendeu que ele não havia cumprido pena suficiente para todos os seus crimes. Na prisão ele passava a maior parte do tempo fazendo bijuterias e frequentando a unidade médica devido a diversos problemas de saúde que ele teve, incluindo um câncer. Lá ele também foi diagnosticado com transtorno de personalidade antissocial. Posteriormente ele deu entrevistas alegando que se converteu ao cristianismo, que é pastor em uma congregação dentro da prisão e se considera “ex-homossexual”. Ele também tinha interesse em entrar para a política e ajudar crianças vítimas de abuso sexual.

No dia 12/10/2023, as autoridades informaram que Luis havia morrido na prisão. A causa da morte não foi revelada, mas acredita-se que tenha sido por conta do câncer. Luis Garavito ficou conhecido como “a Besta” por ser um assassino implacável com um número altíssimo de vítimas. Após anos e anos de mapeamento dos seus crimes, o número oficial de vítimas é de 193, mas alguns acreditam que o número real pode ter passado de 300. Ele é considerado oficialmente o serial killer com o maior número de vítimas confirmadas da história.


No fim da vida, Luis estava magro e com a aparência abatida


• FONTES: RCN Radio, CNN, El País, Los Angeles Times, Clarín, Infobae.

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