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  • Foto do escritorRodolfo Brenner

#14 - Antoine de Saint-Exupéry, o Aviador | DESAPARECIDOS

O desaparecimento de um escritor francês abala a comunidade literária, e pouquíssimas pistas do que aconteceu aparecem em décadas de busca. Apesar disso, seus trabalhos estão entre os mais importantes de toda a História.


Essa é a versão escrita do episódio #14 - Antoine de Saint-Exupéry:



A LÉON WERTH


“Peço perdão às crianças por dedicar este livro a uma pessoa grande. Tenho uma desculpa séria: essa pessoa grande é o melhor amigo que possuo no mundo. Tenho uma outra desculpa: essa pessoa grande é capaz de compreender todas as coisas, até mesmo os livros de criança. Tenho ainda uma terceira: essa pessoa grande mora na França, e ela tem fome e frio.

Ela precisa de consolo. Se todas essas desculpas não bastam, eu dedico então esse livro à criança que essa pessoa grande já foi. Todas as pessoas grandes foram um dia crianças (mas poucas se lembram disso). Corrijo, portanto, a dedicatória:”


A LÉON WERTH QUANDO ELE ERA PEQUENINO


Assim começa o livro “O Pequeno Príncipe”, lançado em 1943 pelo escritor e piloto francês Antoine de Saint-Exupéry, baseado em uma experiência real do autor quando o seu avião caiu no deserto em 1935. Antoine de Saint-Exupéry nasceu em 29 de junho de 1900 em Lyon, a terceira cidade mais populosa da França. Sua família era aristocrata, ou seja, conhecidos e importantes durante vários séculos, possuíam a árvore genealógica documentada, brasão próprio e títulos de nobreza.

Ele era o terceiro dos cinco filhos da viscondessa Marie de Fonscolombe e do visconde Jean de Saint-Exupéry. Jean era executivo da corretora de seguros Le Soleil e morreu quando o Antoine tinha apenas 3 anos. A morte dele afetou toda a família, principalmente financeiramente: apesar dos títulos, a os membros da família foram considerados aristocratas em falência.


Os irmãos Saint-Exupéry: Marie, Gabrielle, François, Antoine e Simone


Anos depois, Antoine perdeu outro membro da família: seu irmão François, que padeceu de febre reumática aos 15 anos. A doença é rara e provoca inflamação no sistema circulatório. Os dois eram muito próximos, e na época ambos frequentavam o mesmo colégio em Friburgo, Suíça. Antoine estava ao lado do irmão no leito de morte, e mais tarde escreveu que ele “permaneceu imóvel por um instante. Ele não gritou. Ele caiu tão suavemente quanto uma árvore jovem cai".

Aos 17 anos, e agora o único homem da família, ele assumiu para si a responsabilidade de proteger a mãe e as irmãs. Antoine reprovou duas vezes nos exames finais para a Academia Naval Francesa, e posteriormente entrou na École des Beaux-Arts para estudar arquitetura, mas acabou não se formando. Em 1921, ele começou o serviço militar como soldado no 2º Regimento de cavalaria leve francesa. Foi durante o serviço militar que ele começou a ter aulas de voo, e conseguiu uma transferência do exército para entrar na Força Aérea Francesa. Alguns anos depois ele ficou noivo da romancista Louise de Vilmorin. A família dela, preocupado com o futuro dos dois, pediu para que ele saísse da aeronáutica e ofereceu um emprego formal no escritório da família. A ideia acabou não dando muito certo e o casal rompeu o noivado.

Em 1926, Antoine já estava ganhando destaque como piloto, fazendo voos internacionais em uma época em que as aeronaves tinham poucos instrumentos. Ele trabalhou para a companhia aérea francesa Aéropostale e depois como gerente de escala no aeródromo de Cabo Juby, ao sul do Marrocos. Em 1929, ele foi transferido para a Argentina, onde foi nomeado diretor da companhia aérea Aeroposta Argentina S.A. Morando em Buenos Aires, foi o responsável por criar novas rotas aéreas na América do Sul.


Antoine em seu uniforme de piloto na base aérea Pacheco em Buenos Aires, Argentina

O primeiro conto de Antoine de Saint-Exupéry foi intitulado “O Aviador”, e foi publicada em 1926 na revista literária Le Navire d'Argent. Em 1929, ele publicou o primeiro livro, “Correio do Sul”, e em 1931 o livro “Voo da Noite”, o seu primeiro sucesso, que ganhou o prêmio Femina, um dos mais importantes da língua francesa.

Nesse mesmo ano, ele se casou com Consuelo Suncin, escritora e artista salvadorenha. Consuelo chocava a sociedade da época: divorciada e viúva, gostava da vida boêmia e tinha fama de falar mal dos outros. O casamento dos dois foi cheio de idas e vindas, e ao mesmo tempo que o autor considerava ela a sua musa, teve vários relacionamentos extraconjugais. A principal foi com a francesa Hélène de Vogüé: ela inclusive foi executora literária de Antoine até o fim de sua vida, e também escreveu uma biografia dele sob o pseudônimo de Pierre Chevrier.

No dia 30 de dezembro de 1935, Antoine, juntamente com seu mecânico-navegador André Prévot, estavam sobrevoando o deserto da Líbia em uma tentativa de quebrar o recorde da rota Paris-Saigon e ganhar um prêmio de 150.000 francos, mas caíram após quase 20 horas de voo. Os dois sobreviveram ao acidente com poucos ferimentos, e só tinham algumas frutas, café e vinho branco para se manter.

Depois de 4 dias andando no deserto, vendo miragens, alucinações auditivas e sentindo que a morte estava chegando, um beduíno em um camelo encontrou eles, forneceu água e comida, salvando suas vidas. A experiência virou o livro de “Vento, Areia e Estrelas”, de 1939, e também serviu de base para a narrativa da sua obra mais famosa, “O Pequeno Príncipe”.


Antoine de Saint-Exupéry após seu acidente no deserto da Líbia, 1935


Durante a invasão nazista na França em 1940, o escritor voou até Portugal e embarcou no navio SS Siboney até chegar em Nova York no dia 31 de dezembro. Ao se exilar nos Estados Unidos, Antoine participou de um almoço com a presença de 1.500 pessoas para receber o Prêmio Nacional do Livro pela obra “Vento, Areia e Estrelas”. Consuelo conseguiu chegar na cidade vários meses depois, e os dois viveram em um residências luxuosas nas áreas mais nobres do Central Park, Long Island e Manhattan. Enquanto estava no país, o autor escreveu duas importantes obras: “Piloto de Guerra” e “Carta a um refém”, que dedicou ao povo francês que vivia sob a opressão nazista.

No final da primavera de 1942, Antoine e Consuelo passaram um tempo em Quebec, no Canadá. Nessa época o casal conheceu um menino chamado Thomas, filho do filósofo Charles De Koninck. Thomas tinha oito anos, cabelos loiros encaracolados e era muito inteligente para a sua idade. Quando os Saint-Exupérys voltaram de Quebec, a esposa de um dos editores de Antoine convenceu ele a produzir um livro infantil, na tentativa de competir com os livros da série “Mary Poppins”, que faziam muito sucesso na época. Antoine então escreveu e ilustrou “O Pequeno Príncipe” em 1942, sendo publicado pela primeira vez meses depois, no início de 1943, em inglês e francês. Apesar disso, o livro só chegou na França após a libertação o país em 1945, já que suas obras foram proibidas pelo regime da época.

Além de basear a narrativa do livro em seu acidente no deserto, Antoine ainda escreveu os personagens baseados em pessoas reais: o Pequeno Príncipe é baseado em Thomas, aquela criança que eles conheceram no Quebec; o Aviador é baseado no próprio Antoine de Saint-Exupéry; enquanto a Rosa seria baseada em sua esposa Consuelo.


Páginas do manuscrito de "O Pequeno Príncipe" expostas no Morgan Library & Museum, em Nova York


Em abril de 1943, o escritor partiu com um comboio militar americano com o objetivo de lutar com os Aliados em um esquadrão no Mediterrâneo. Nessa época ele já estava com 43 anos, muito mais velho que a maioria dos homens que lutavam na Segunda Guerra Mundial, e mesmo oito anos acima do limite de idade para ser piloto de guerra, ele conseguiu uma aprovação especial do general Dwight Eisenhower.

Algumas pessoas ficaram incomodadas com o autor participando da guerra: Antoine tinha o hábito de ler e escrever enquanto voava, até mesmo momentos antes de decolagens. Em uma dessas histórias de guerra, ele circulou o aeroporto que iria descer por mais de uma hora porque queria terminar de ler um romance.

O general francês Charles de Gaulle teve alguns atritos mais sérios com o piloto, e deu a entender publicamente que Antoine estava apoiando a Alemanha. O autor ficou muito abalado com a declaração, e começou a beber excessivamente depois disso. Sua saúde mental também não ia bem, com colegas e amigos classificando-o como depressivo e discutindo a intenção de aposentado da aviação.

A última missão designada a ele foi a de coletar informações sobre os movimentos de tropas alemãs dentro e ao redor do Vale do Rio Ródano antes da invasão aliada no sul da França. Em 31 de julho de 1944, ele decolou da ilha de Córsega em um avião P-38 desarmado, porém não retornou. A notícia de seu desaparecimento logo se espalhou pela França, posteriormente ganhando destaque internacional.


Modelo P-38, o avião usado por Antoine de Saint-Exupéry quando ele desapareceu


Não houve muita busca pelo escritor assim que ele desapareceu porque a guerra ainda estava acontecendo. A primeira pista veio em 1948, quando o ex-telegrafista Hermann Korth publicou diversos registros de guerra e destacou um caso ocorrido por volta do meio-dia de 31 de julho de 1944, no qual um avião alemão teria derrubado um P-38. Apesar de se encaixar no caso de Antoine, pesquisadores dizem que o mais provável é de que o registro seja o de um P-38 pilotado pelo segundo-tenente Gene Meredith, que foi derrubado no dia 30 de julho, ao sul de Nice.

Em 1972, a revista alemã Der Landser postou uma carta do piloto Robert Heichele, na qual ele alegava ter derrubado um P-38 em 31 de julho de 1944. O relato foi mais aceito que o de 1944, além de contar com uma testemunha. Apesar disso, o relato descreveu o avião de Robert como um que ainda não havia entrado em serviço naquela região e naquela época. Além disso, listas mantidas pelo serviço militar alemão não mostravam nenhuma vitória creditada a Robert Heichele entre julho e agosto de 1944.

Em setembro de 1998, 44 anos depois, dois pescadores estavam a leste da ilha de Riou, no sul de Marselha, quando encontraram uma pulseira de identidade de prata com os nomes do escritor, sua esposa Consuelo e sua editora americana. A pulseira estava presa a um pedaço de tecido, que presumidamente era de seu traje de voo. Em maio de 2000, o mergulhador Luc Vanrell encontrou os restos parciais de um P-38 no fundo do mar na costa de Marselha, perto de onde a pulseira foi encontrada anteriormente, mas esses destroços só foram recuperados em outubro de 2003. Em 2004, o chefe do Ministério da Cultura, o Força Aérea Francesa e um grupo de investigadores do Departamento Arqueológico Subaquático Francês confirmaram que os restos dos destroços eram do avião de Antoine de Saint-Exupéry.

Em 2008, um jornalista francês que estava investigando a desaparecimento do escritor entrou em contato com ex-pilotos que voaram na área de Marselha, e obteve o relato de um homem chamado Horst Rippert: ele, que era fã dos livros de Saint-Exupéry, disse que ficou por muito tempo pensando ser o responsável pela morte do autor. Ele também alegou que, após abater o avião, relatou a morte em seu rádio, mas nenhum registro oficial foi encontrado para verificar a informação, já que muitos documentos alemães da época foram perdidos.


Restos do avião de Saint-Exupéry recuperados em 2003


Mas afinal, como a nave foi parar no fundo do mar? A teoria mais aceita é a de que o avião tenha sido abatido por naves inimigas: oito dias antes do desaparecimento, Antoine encontrou uma frota de naves alemãs que optaram por não entrarem em conflito. É possível que ele tenha encontrado inimigos no dia 31 de julho, porém, dessa vez, elas resolveram atirar.

Apesar da extensa prática, também é possível que o escritor tenha perdido o controle da aeronave: como já dito anteriormente, Antoine tinha reputação de ser piloto indisciplinado que lia e escrevia enquanto voava. Ele também tinha dificuldade em voar com aeronaves mais novas, como a que ele estava usando no dia que desapareceu. Além do episódio em que caiu no deserto da Líbia, ele se envolveu em outros acidentes, como uma vez que desmaiou por voar a uma altura muito alta sem máscara de oxigênio. Com esse histórico, alguns acreditam que ele tenha perdido o controle da aeronave e tenha caído no mar.

Uma última hipótese é a de que ele tenha derrubado o avião de forma proposital: com dores físicas e abalado emocionalmente, amigos disseram que ele estava isolado em um quarto escuro de sua casa, muito deprimido. Posteriormente, os pilotos alemães que cruzaram com ele oito dias antes de seu desaparecimento disseram que ele manteve o curso em direção a eles, sem medo de ser abatido. Ele também sabia que aquela missão seria sua última, o que poderia ser sua última oportunidade de voar.


O autor dentro de seu avião (imagem colorida artificialmente)


A única conclusão do caso é de que o avião caiu no mar: como ele caiu, por qual motivo, e o que aconteceu com Antoine de Saint-Exupéry são perguntas que provavelmente nunca serão respondidas. Apesar do fim trágico, as obras do escritor foram adaptadas para filmes, peças de teatro, musicais e HQs. Além disso, Antoine foi homenageado extensamente com nomes de ruas, de aeroportos, museus, praças e até um meteoro: o asteroide 2578 Saint-Exupéry, descoberto em novembro de 1975, foi batizado em homenagem ao autor-aviador em referência ao Pequeno Príncipe.

O Pequeno Príncipe é o quarto livro mais vendido da história, com 140 milhões de cópias pelo mundo, além de ser o livro de ficção mais traduzido da história com 382 traduções em diferentes línguas e dialetos. O livro foi adaptado para os mais diferentes formatos, incluindo uma animação produzida em conjunto entre Estados Unidos e França em 2015, e que conta a história de uma menina que, após mudar de casa, descobre que seu vizinho é o Aviador, que lhe apresenta o fantástico mundo do Pequeno Príncipe.

O filme conta com as vozes de Jeff Bridges, Mackenzie Foy, Rachel McAdams, Marion Cotillard, James Franco, Benicio Del Toro e grande elenco. Apesar de não ser um sucesso de bilheteria, o filme recebeu críticas muito positivas e ganhou o prêmio César, o mais importante do cinema francês, na categoria de melhor animação.

O livro marcou muitas pessoas, tanto que diversas frases são citadas até hoje. E uma parece se encaixar quanto ao destino do autor:


“Quando um mistério é muito impressionante, a gente não ousa desobedecer”


Capa da versão em português do livro O Pequeno Príncipe / Poster do filme lançado em 2015

• FONTES: Plane & Pilot Magazine, Dentro da História, GradeSaver, Biography, Britannica, France Culture, L'Internaute, Chante France, Histoire pour Tous.

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